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Os sacristães estão quase extintos mas ainda há quem zele pelas igrejas

Os sacristães estão quase extintos mas ainda há quem zele pelas igrejas

O cargo de sacristão caiu em desuso mas ainda há quem tenha desempenhado esse cargo e vá continuando a ajudar em tudo o que é necessário para a realização de uma missa e na organização da sacristia. O MIRANTE falou com três pessoas que são responsáveis por tratar de tudo o que envolve uma igreja e que acompanharam a evolução dos tempos. Não escondem que é necessária fé e alguma vocação e lamentam que haja pouca gente interessada em continuar a sua missão.

Edição de 20.02.2013 | Sociedade
Na adolescência ainda o desafiaram para seguir a vida religiosa e tornar-se padre mas José Manuel da Silva recusou. Cresceu no seio de uma família religiosa e foi habituado a ir à missa. No entanto, só por volta dos 40 anos, altura em que começou a trabalhar por conta própria e fez um curso de cristandade, é que começou a ajudar na igreja. Ainda hoje, com 91 anos, o comerciante, que vive em Almeirim há meio século, dá uma ajuda sempre que pode e é preciso, embora hoje existam vários grupos de voluntários que vão rodando na sua vez de ajudar. Desempenhou sempre o papel de sacristão, embora prefira dizer que era apenas um responsável pela igreja possuindo as chaves do templo.José Silva estava encarregado de tratar de tudo. Nos dias em que havia missa ia mais cedo para a igreja e colocava tudo o que era necessário no altar. Galhetas, vinho, água, pão, o recipiente onde se colocam as hóstias, acender as velas. Sempre que solicitado também lia algumas liturgias. No final recolhia tudo à sacristia e arrumava até à próxima missa. Tinha o cuidado de não deixar acabar os produtos necessários. Não estava a tempo inteiro na igreja porque trabalhava e ainda trabalha. O apoio à igreja foi sempre feito de forma voluntária.O idoso lamenta apenas que os jovens estejam mais afastados da igreja e que prefiram os jogos de computador e a Internet em vez de se ligarem a Deus. José da Silva nunca teve o hábito de provar o vinho da missa - que vinha propositadamente de Fátima - mas havia um colega que gostava de o provar antes de cada homília. “Ele costumava dizer que o vinho era doce”, recorda bem-disposto.Um ofício em vias de extinçãoLuís Vicente, 72 anos, é sacristão em Tomar há 43 anos. Fomos encontrá-lo na sacristia da igreja de São João Baptista, a poucos metros da Praça da República. Pessoa pouco dada a protagonismos, acedeu falar com O MIRANTE a algum custo, começando por referir que o seu ofício está em vias de extinção uma vez que qualquer pessoa desde que tenha “boa vontade” pode fazer as suas tarefas. “Este é um trabalho que, no futuro, vai ser feito por voluntários. Tenho pena de não estar aqui como voluntário, mas preciso do meu ganha-pão”, considera.Casado e com três filhas e quatro netos, na juventude ponderou seguir o caminho da fé, não pelo sacerdócio mas como irmão religioso num convento. Chegou a trabalhar onze anos no Seminário de Santarém. Considera que casar e constituir família foi a decisão mais acertada. Além de zelar pelo templo, o sacristão atende as pessoas que ali vão, agenda as marcações com o pároco e faz de tudo um pouco, à excepção da decoração. Recorda as noites em branco a fazer as hóstias para a missa, trabalho que interrompeu há alguns anos quando o padre Frutuoso Matias decidiu entregar esta tarefa às irmãs Clarissas de Santarém.Em tempos que já lá vão nunca fechava a porta e almoçava quase de fugida mas agora, por questões de segurança, costuma fechar a porta para almoçar mais tranquilamente. “Estive muitos anos em que abria a porta de manhã e só fechava à noite e não havia problema nenhum mas, de há uns anos a esta parte, as coisas mudaram. Entra muita gente na igreja com poucos sentimentos honestos e de religiosos nada”, explica.Maria da Nazaré, 81 anos, ajuda na igreja das Bragadas, na Póvoa de Santa Iria, há mais de 20 anos e faz um pouco de tudo. Arruma e limpa o templo, encomenda flores e coloca-as a enfeitar, coloca as hóstias, o vinho e as toalhas no altar. Canta na missa e sempre que é preciso também lê algumas passagens da bíblia. Guarda o dinheiro recolhido da caixa das almas que é colocada à entrada da igreja.A reformada garante que trabalha de forma voluntária e que o faz de “boa vontade”. “Gosto muito de ajudar, é uma forma de estar entretida e ocupar o tempo. Sempre gostei muito de estar junto da igreja. Quando era jovem ajudava nas comunhões e gostava muito de poder ser útil”, confessa.Grupo de voluntários desempenha funções que eram dos sacristãesO padre Aníbal Vieira confirma que o papel do sacristão caiu em desuso porque actualmente quem faz esse serviço são mais os acólitos (pessoas que ajudam à missa). Antigamente havia uma tabela de preço que incluía o serviço do sacristão por cada homília, mas essa cobrança foi extinta. “As paróquias não têm fundo de maneio para pagarem essas horas de serviço”.O padre responsável pelas paróquias de São Vicente do Paul, Casével e Vaqueiros, no concelho de Santarém, explica que tudo o que estava atribuído a um sacristão, o trabalho de uma única pessoa, passou a ser feito por uma equipa de voluntários que ajudam na missa e nos seus serviços. Aníbal Vieira acredita que haverá sempre voluntários dispostos a ajudar. O pároco concorda que a falta de um responsável a tempo inteiro coloca o problema de segurança dos templos religiosos. Um problema para o qual ainda não existe solução mas que está a ser equacionado.
Os sacristães estão quase extintos mas ainda há quem zele pelas igrejas

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