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“O que mais me custa é a ingratidão”

“O que mais me custa é a ingratidão”

Berta Charréu, 41 anos, advogada, Glória do Ribatejo

Quando era jovem Berta Charréu imaginava que seria polícia ou militar. Hoje sente-se realizada profissionalmente como advogada e não se imagina a fazer outra coisa. E é advogada a todas as horas. Tem dificuldade em desligar o telemóvel. Mesmo quando está a praticar desporto não deixa de atender as pessoas que lhe pedem ajuda. Pertence ao Rancho Folclórico da Casa do Povo da Glória do Ribatejo desde os seis anos.

Tinha nove anos quando recebi a primeira boneca. Foi um acontecimento. Nasci e cresci na Glória do Ribatejo onde continuo a morar. Éramos sete irmãos. A minha mãe trabalhava no campo e o meu pai no antigo centro emissor da Raret. No Verão ia para as valas com os amigos e no Inverno andava sempre nas poças de água. As brincadeiras eram todas de rua. Sonhava ir para a tropa ou ser polícia mas como sou baixa e magra acabei por desistir. Pensei ainda ser professora primária, educadora de infância ou seguir um curso ligado à conservação e restauro. Sempre tive problemas com a matemática. A advocacia surgiu quase por acaso, mas não me arrependo e não me imaginaria a exercer neste momento outra profissão. Sempre morei na Glória do Ribatejo mesmo quando andava a tirar o curso de Direito em Lisboa. Saía de casa às 7h00 e chegava depois das 23h00. Ia de autocarro, mas como, já na altura, haviam muito poucos, passava muito tempo em Lisboa. Depois também comecei a trabalhar enquanto estudava. Foi duro, mas valeu a pena. Embora um curso seja importante, é na prática que se aprende qualquer profissão. Tenho uma excelente memória e não me esqueço de nada. Lembro-me de todas as pessoas com quem convivi e sou capaz de reconhecê-las mesmo passando muitos anos sem as ver. Lembro-me de momentos, de pequenos pormenores, como uma refeição que comi em determinado sítio. Também me lembro das coisas más, mas não sou de guardar rancores. Sinto no momento, mas acabo por perdoar sempre. Nunca desligo o telemóvel. Estou sempre contactável. Nem todos os anos consigo tirar férias. Há oito anos que tenho escritório em Marinhais. Sempre tive propostas de parcerias com outros advogados, mas gosto muito de trabalhar sozinha. Se tiver dúvidas ligo a outro colega. O que mais me custa é a ingratidão. Às vezes chego a pagar para trabalhar e isso não dá. Ou a ajudar alguém de boa vontade que acaba depois por mudar de advogado. Sou capaz de largar a minha família para vir atender alguém que precise. Faço um pouco de tudo dentro do Direito, mas gosto mais da área criminal. Nunca recuso nenhum processo. Mesmo numa aula de zumba sou abordada. Vêm pedir-me ajuda para resolver casos. Entrei para espairecer mas às vezes estou lá a pensar no trabalho. Estive muito tempo na natação, depois desisti porque não tinha tempo. Para estar às 21h00 numa aula tenho de realizar um grande esforço. Felizmente o meu marido também dá uma ajuda em casa. A vida profissional é cada vez mais exigente. Há dias que não consigo sequer almoçar. Às vezes vou com a minha filha ao shopping, nomeadamente aos fins-de-semana. Sou vereadora substituta do PS na Câmara Municipal de Salvaterra de Magos mas não me considero política. Gosto é de bons projectos. Também já pertenci ao executivo da Junta de Freguesia da Glória do Ribatejo. Se me dedico a algo tenho de o fazer, de trabalhar, de realizar. Vou tirar um mestrado. É importante continuar a aprender e a estudar. Talvez na área do direito do trabalho. Os meus colegas de profissão às vezes estranham quando aparecem fotos minhas no Facebook com os trajes do Rancho Folclórico onde danço. Desde os seis anos que pertenço ao Rancho Folclórico de Casa do Povo Glória do Ribatejo. A minha filha dançou dentro da minha barriga. O meu marido também pertence. Sempre que podemos saímos com o rancho. É outra família que temos.Um dos meus maiores defeitos é ser boa demais. Custa-me muito dizer “não”. Tento ser sempre uma boa amiga mas gostava de ser mais firme e decidida. Demoro muito tempo a chegar a um limite. Quando atinjo esse limite acabo por explodir e digo o que tenho a dizer mas depois passa-me.Eduarda Sousa
“O que mais me custa é a ingratidão”

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