De presidente da câmara municipal do Entroncamento a zelador de animais vadios
José da Cunha trocou a reforma da política pela reforma de ferroviário e afastou-se da vida pública
Uma grande parte da reforma de José Cunha é gasta em comida para animais abandonados. O dia a dia do ex-presidente da câmara municipal do Entroncamento é repartido pelo apoio à esposa, que se encontra em casa bastante debilitada por um AVC e os cuidados que dispensa a mais de duas dezenas de gatos vadios. Não participa na vida pública desde que saiu de cena em 2001 após ter concorrido como independente e não ter sido eleito.
A entrevista decorre nuns anexos construídos ao fundo de um lote de terreno, na zona do Bonito. Não é ali que vive José Pereira da Cunha, o ex-autarca com mais tempo de permanência em cargos políticos no Entroncamento. A vivenda que era para ser feita ali nunca passou do projecto. A esposa que teve um AVC e está debilitada aguarda pela sua chegada num apartamento na zona norte da cidade, freguesia de Nossa Senhora de Fátima. A camisa que veste está suja. Quando lhe perguntamos quando foi a última vez que usou gravata diz que foi no funeral do filho, José Fernando da Conceição Farinha Pereira, ex-membro da Assembleia Municipal. "Eu gosto de andar à vontade", justifica-se. Após uma pausa fala da doença que vitimou o filho aos 60 anos, em Abril deste ano. "Por vezes penso que nem é verdade". José Pereira da Cunha nasceu em casa dos pais a 14 de Dezembro de 1931. É de uma família de ferroviários. "O meu avô e o meu pai foram ferroviários, assim como eu, o meu filho e agora o meu neto. Antigamente ser ferroviário era motivo de orgulho", refere. Três cadelas rondam por ali. E há um gatito que não se cansa de miar. Há recipientes com comida no interior e no exterior do anexo. Quando saímos para o quintal no fim da conversa há meia dúzia de gatos no telhado. "Esses não são meus. Eu só tenho dois gatitos aqui e uma gata em casa", esclarece. Perguntamos-lhe quantos animais vadios alimenta diariamente. "Devem ser cerca de vinte, Só gatos. Os cães é fácil prendê-los ou agarrá-los e levá-los para o canil. Os gatos andam por aí. Quando chego aos locais onde lhes deixam comida já lá estão à minha espera". Após alguma insistência confessa que gasta grande parte da reforma em comida para os animais. E ainda dá algumas gorjetas a pessoas que o ajudam naquela tarefa.Foi autarca no concelho do Entroncamento, de 1976 a 2001, sempre pelo PS. Primeiro como membro da Assembleia Municipal, a seguir como vereador a tempo inteiro da Câmara Municipal e depois como Presidente, cargo que exerceu de 1985 a 2001, altura em que, zangado por o PS não aceitar a sua recandidatura concorreu como independente, não conseguindo ser eleito. Afastou-se da política e do Partido Socialista e carrega com o sentimento de ter contribuído para a vitória do PSD que está no poder até hoje. Não tem nome em nenhuma rua nem nunca lhe foi feita qualquer homenagem."O meu maior erro político foi ter concorrido como independente"O senhor foi vereador a tempo inteiro em dois mandatos e presidente da câmara municipal do Entroncamento durante dezasseis anos mas reformou-se como funcionário da CP. Porquê?Quando eu fui para a câmara a minha categoria na CP era Técnico e o meu vencimento era superior ao de vereador. Como podia optar, decidi ficar com o vencimento e as regalias da CP. Quando fui eleito presidente a situação manteve-se. Só a partir do meu segundo mandato é que o vencimento e regalias de presidente de câmara passaram a ser substancialmente superiores às da CP. Porque não alterou a sua opção. Ainda houve um amigo meu que tratou disso mas eu tinha que pagar uns milhares de contos e desisti. E assim me reformei. Recebo 1.158 Euros de reforma. Se me tivesse reformado como presidente da câmara teria o dobro.Em 2001 candidatou-se como independente e não foi eleito. Depois afastou-se da política. Ainda é militante do Partido Socialista?O PS entendeu que eu não devia ser o candidato e eu avancei com uma lista independente. Perdi e eu afastei-me da política e do PS. Não sou militante mas sou socialista. Tenho que reconhecer que foi o meu maior erro da minha carreira. Não devia ter sido candidato como independente. Fiz mal porque acabei por contribuir para a vitória do PSD. Como avalia os doze anos de mandato do ainda presidente de câmara, Jaime Ramos do PSD?Tenho que reconhecer que tem feito um bom trabalho e se se pudesse recandidatar ganhava quase de certeza. Sou do PS mas não tiro mérito a quem o tem. Mas o Jorge Faria (Candidato do PS à Presidência da câmara), que eu conheço desde criança, vai ser um bom presidente de câmara se for eleito, como espero. O que não foi feito pelo PSD nestes últimos doze anos que deveria ter sido uma prioridade?A questão principal tem a ver com a habitação social. No meu tempo foi construída muita habitação social. Com este presidente não foi construída uma única casa. Não gostei também do que fizeram ao centro cultural e tenho pena que o cineteatro S. João continue fechado. A cidade precisa de uma sala de espectáculos. Quando saí da câmara tinha quase aprovado um projecto para uma biblioteca mas isso foi abandonado. São opções. A nível político com quem teve mais problemas?Foi com indivíduos do meu próprio partido. E alguns deles são agora candidatos. O João Lérias que é agora cabeça de lista para a Assembleia Municipal deve ter sido um deles. Antes do seu último mandato como presidente da câmara ele foi um dos que defendeu «que o senhor não deveria recandidatar-se porque tinha esgotado "o prazo de validade".Agora é que tocou na ferida. O Lérias nunca ganhou nada. Alguns lugares que ocupou não foram conquistados em eleições...as pessoas que estão na lista do PS para a Assembleia Municipal não são as mais indicadas. Devia haver pessoas mais ligadas ao povo. Teve também muitos problemas com um seu vereador, Carlos Silva, que agora apoia o PSD. O Carlos Silva foi a pessoa que mais me desiludiu na política. Apesar de ser do PS foi daquelas pessoas que encontrei na política com maior insensibilidade, até para com colegas de partido. E isso ainda se notava mais porque sempre trabalhei com pessoas honestíssimas, dedicadas, sensíveis e com valores, como a Olímpia Valentim ou o Francisco Gonçalves e outros que podiam não estar de acordo comigo mas com quem tive gosto em trabalhar. Não quer dizer que o comportamento do Carlos Silva seja sempre assim, até porque, como professor ,é-lhe exigida outra postura mas infelizmente houve situações...que nem vale a pena falar delas."Ofereceram-me muito dinheiro para aprovar coisas ilegais mas nunca aceitei"O crescimento do Entroncamento durante os seus mandatos foi considerado por muitos especialistas em urbanismo e organização do território como desordenado. Nesse tempo a corrida à construção no Entroncamento era quase como a corrida ao ouro nos Estados Unidos da América ou a procura do volfrâmio em Portugal na altura da guerra. Aqui não havia ouro nem volfrâmio mas terrenos que não valiam nada passaram a valer fortunas. Vieram para aqui dezenas e dezenas de empresas de construção civil, nomeadamente da zona de Ourém.Muitas pessoas que criticaram o desenvolvimento desordenado do Entroncamento acusavam-no de dizer sim a tudo.O Entroncamento era um dos poucos concelhos do país que tinha um RGEU (Regulamento Geral das Edificações Urbanas) aprovado. Eu só aprovava o que podia aprovar. Reconheço que sou conciliador e que procuro ser uma pessoas aberta e franca mas não é verdade que eu dizia sim a tudo. Eu não podia dizer que sim a tudo e há muita coisa que eu contrariei. Se eu lhe contasse alguns casos... ainda hoje há situações por resolver que causaram engulhos a algumas pessoas.Tentaram suborná-lo?Chegaram a oferecer-me muitos milhares de contos para eu aprovar coisas que eu não podia aprovar mas eu recusei. Nunca o faria. Provavelmente não me livro da fama mas, graças a Deus, tenho a consciência tranquila. Seria hipócrita se dissesse que nunca me deram nada mas dinheiro nunca recebi de ninguém Quem o tentou subornar?Eu não falo em nomes. A maioria dessas pessoas já não estão vivas. Deu emprego a muita gente. Essas pessoas esqueceram-no? Ajudei muita gente, é verdade e nem sempre me agradeceram mas ainda hoje há empregados e ex-empregados que passam por aqui para conversar um pouco comigo. Os mais antigos ainda me tratam por senhor presidente e têm para comigo uma atenção especial. Não tenho razão de queixa. Reconheço que há casos em que algumas pessoas, até mais chegadas, poderiam ter outro comportamento mas a vida é assim. O que é que eu posso fazer?!
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