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“A adesão dos profissionais ao nosso projecto foi fantástica”

Vasco Luís de Mello Presidente do Conselho de Administração do Hospital de Vila Franca de Xira

A escolha do presidente do conselho de administração do Hospital de Vila Franca de Xira, Vasco Luís de Mello para Personalidade do Ano 2014 teve em conta a qualidade, eficiência e organização, demonstrados ao longo do ano e com particular incidência durante o grave surto de Legionella em Novembro. O Hospital, que é uma parceria do Estado com o Grupo José de Mello Saúde, contribuiu de forma significativa para a melhoria do Serviço Nacional de Saúde na sua área de intervenção.

Edição de 26.02.2015 | Sociedade
O ano passado o Hospital de Vila Franca de Xira esteve em destaque por causa do surto de Legionella. Como viveu essa situação e que ensinamentos recolheu? Foi uma situação vivida com bastante intensidade. Foi tudo muito rápido mas fomos capazes de mobilizar toda a gente num curto espaço de tempo. Houve um grande empenho de toda a equipa deste hospital mas os nossos profissionais sozinhos não teriam sido capazes de fazer face ao surto. Houve necessidade de uma articulação e de uma comunicação muito fluida com os diferentes hospitais do Serviço Nacional de Saúde, isso foi crítico. Se não fosse isso este hospital tinha colapsado. Essa foi uma das grandes aprendizagens e correu bem. Penso que tinham preparados planos para situações de crise mas uma coisa são os planos e outra é a realidade. Como já disse os profissionais do Hospital não foram suficientes. Tivemos que chamar outros profissionais de outros hospitais, nomeadamente dos hospitais do Grupo (José de Mello Saúde). Vieram médicos de Braga, por exemplo, para nos apoiar na urgência porque as pessoas ao fim de uns dias estavam exaustas. Vieram camas de Cascais. E a certa altura tivemos que começar a transferir doentes para outros Hospitais da zona de Lisboa. Foi também importante a gestão da comunicação interna e a comunicação com os órgãos de comunicação social. Uma das áreas de maior impacto público do hospital é a urgência. Em Junho de 2011 numa entrevista a O MIRANTE disse que gostaria de ter uma equipa do próprio hospital naquela valência em vez de recorrer a pessoal de empresas prestadoras de serviços. Conseguiu esse objectivo? Não consegui completamente mas também, internamente, concluímos que não deveríamos ter as dotações do serviço de urgência todas completas com uma equipa fixa, porque temos necessidades que variam ao longo do ano. Nós temos mais necessidades nos três meses de Inverno e temos menos necessidades nos períodos de Verão. Temos que ter uma base fixa e depois ter capacidade para ir buscar os prestadores de serviços para completar quando temos esses picos. É esse o nosso modelo. Está satisfeito com a equipa fixa que o Hospital tem na urgência? A equipa evoluiu de uma forma fantástica. Nós temos uma equipa de urgência como nunca tivemos. Agora essa equipa não está formatada para surtos e para as afluências extraordinárias que eles geram. Mas seria um acto de má gestão se tivéssemos sempre uma equipa preparada para receber mais trinta ou cinquenta por cento de doentes do que aqueles que recebemos habitualmente. Segundo o contrato com o Estado foi obrigado a ficar com mais de 90 por cento do pessoal do Hospital. Como correu essa parte? Acabámos por ficar com todo o pessoal porque precisávamos. Não houve pessoas que tenham ficado sem o seu emprego. Como se integram tantos trabalhadores numa nova filosofia de trabalho e noutra organização e gestão? A mudança começou no Hospital Reynaldo dos Santos onde estivemos durante cerca de dois anos antes de virmos para aqui. A adesão dos profissionais do Hospital Reynaldo dos Santos ao nosso projecto foi fantástica. Não houve resistências? Resistências não houve. Houve receios. Houve receios nossos e receios das pessoas que lá estavam em relação a nós. Mas a partir do momento em que demos novos meios às pessoas, em que apostamos nelas e que reconhecemos as suas capacidades, elas aderiram.Estamos a falar de cerca de oitocentos trabalhadores... O que viemos propor foi um edifício novo, com novos equipamentos e novas condições de trabalho. Propusemos coisas positivas. Não escondemos que o projecto era exigente, que o calendário era apertado e que isso exigia trabalhar mais. Mas explicámos que, no final, iríamos ter um hospital melhor. E nesta altura as pessoas têm orgulho do sítio onde trabalham. Consegue dar às pessoas o mesmo estatuto de compensações? Tínhamos 780 colaboradores quando chegámos e hoje temos 1100, ou seja, mais trezentos postos de trabalho. Houve também pessoas que se reformaram. Hoje, se olharmos para os colaboradores, já só temos cerca de metade que vieram do antigo Reynaldo dos Santos. Quanto aos novos tivemos o cuidado de adoptar regras de compensação semelhantes às das pessoas que cá estavam. Não quisemos criar um grupo distinto com condições distintas. Têm falta de pessoal? Os concursos para determinadas especialidades também fecham sem candidatos como acontece noutros hospitais? Isso não acontece porque não precisamos de abrir concursos. Podemos contratar directamente, dentro dos limites definidos. Temos contratado de forma prudente à medida que a actividade vai crescendo. E cresceu muito. Onde cresceu mais? Nós estamos a fazer o dobro das consultas que o hospital fazia e o triplo das cirurgias. Isto não se faz sem pessoas. Este ano ainda vamos ter que reforçar o pessoal em algumas áreas mas o grande salto foi nos últimos dois anos. Têm que negociar anualmente, com a ARS, o volume de actividade. Como têm decorrido essas negociações? Têm sido negociações difíceis como se pode imaginar. O contexto em que o país vive não permite acomodar orçamentos muito grandes. Este hospital é um hospital que passou a ter algumas especialidades que não tinha, é normal que tenha crescido em termos de orçamento mas também passou a prestar serviços que não prestava antes e passou a atender pessoas que antigamente não vinham aqui a este hospital. Hoje estamos, de facto, a atender as populações dos cinco concelhos e isso obriga-nos a acomodar um aumento do orçamento.Houve um crescimento, por exemplo, do número de partos. Não foi por terem nascido mais bebés na região. Antes esses bebés iam nascer noutros hospitais. Conseguimos convencer as pessoas que era bom nascer aqui. Tivemos um aumento de cerca 24 por cento ao nível dos partos. O senhor é um adepto das novas tecnologias em termos pessoais. Calculo que o Hospital também tenha uma actualização constante a esse nível. Não podemos estar alheios aos desenvolvimentos em termos de novas tecnologias e temos introduzido várias inovações. Tem orçamento para isso? As novas tecnologias não são forçosamente mais caras. Algumas são mais caras mas também trazem maior facilidade em gerir. Nós agora, por exemplo, estamos a desenvolver todo o sistema informático que é utilizado pelos médicos e ao nível da enfermagem. Está a ser desenvolvido um módulo onde os médicos e os enfermeiros podem, através do seu ipad, ter acesso a todos os registos. Isto permite aos médicos andarem junto dos doentes, no hospital, com acesso a toda a informação em qualquer altura. A receptividade do pessoal às inovações tem sido muito boa.O Hospital não é obrigado a usar o software do Ministério da Saúde? Na gestão clínica não. Há coisas que estão ligadas ao Ministério da saúde, como o sistema da Consulta a Tempo e Horas e também temos a ligação com os centros de saúde mas na gestão de recursos humanos; na gestão dos materiais o software é o do grupo. É o que utilizamos em todos os hospitais do Grupo José de Mello Saúde. E já temos uma massa crítica interessante e bastante “know-how”. Actualmente quase toda a informação está no sistema.Um gestor preocupado com a falta de solidariedade Vasco Luís de Mello é um dos administradores do Grupo José de Mello Saúde e o presidente do conselho de administração e da comissão executiva do Hospital de Vila Franca de Xira desde Junho de 2011, quando o mesmo passou a ser uma Parceria Público Privada. Nasceu na Suíça a 11 de Dezembro de 1964, licenciou-se em Engenharia Mecânica na Universidade Católica de Louvaina, na Bélgica, e realizou, posteriormente, um Master in Business Administration. Antes de trabalhar na área da saúde trabalhou no sector bancário. Casado, pai de cinco filhos, não se considera um viciado em trabalho embora reconheça que gosta muito do que faz a nível profissional o que, por vezes, gera alguns desequilíbrios entre a sua vida pessoal e profissional. Define-se como optimista e uma das suas preocupações é a falta de solidariedade tanto entre países como entre pessoas. Orgulha-se do papel social do Hospital e do Grupo José de Mello Saúde, nomeadamente através da concessão de bolsas de estudo, apoio a projectos de investigação e apoios a Instituições de Solidariedade Social. Lançou a constituição de um Banco de Ajudas Técnicas estando a decorrer a recolha de material como cadeiras de rodas, canadianas, camas articuladas, andarilhos e outros.Considera que o principal segredo de uma boa gestão é saber escolher as pessoas certas para cada lugar. Apesar de tudo o que já conseguiu implementar a nível do Hospital de Vila Franca de Xira não dá mostras de abrandar. Quer prestar mais e melhores serviços, reforçar a ligação à população, fazer daquela unidade hospitalar uma das mais seguras do país. Nunca se cansa de elogiar os colaboradores e de realçar o orgulho que todos têm em trabalhar onde trabalham.O Hospital Vila Franca de Xira obteve no ano passado a Acreditação pela Joint Commission International (JCI), a mais prestigiada organização acreditadora na área da saúde, a nível mundial, consolidando o seu compromisso de prestador de cuidados de saúde de excelência e de melhoria contínua da qualidade e segurança do doente.Vasco Luís de Mello é coleccionador de fósseis de ouriços e também tem uma vasta colecção de documentos e objectos relacionados com o Grupo CUF. No Hospital de Vila Franca de Xira criou um pequeno Museu onde reuniu fotos, documentos e objectos que permitem conhecer a história daquela Unidade Hospitalar.Adepto das novas tecnologias, está a desenvolver num pequeno espaço do Museu, uma zona de entretenimento digital, através da qual é possível aos visitantes, nomeadamente aos mais jovens e aos mais joviais, fazerem-se fotografar em diversos papéis como médicos ou enfermeiros, por exemplo, e enviar a foto, de imediato, para o e-mail que pretenderem. Gosta de ir aos serviços do hospital para visitar as pessoas que lá trabalham e não evita locais como o bloco operatório apesar de confessar que não gosta de ver sangue e continua, tal como em criança, a ter algum medo de agulhas.

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