
“Não me passa pela cabeça ter de ser o governo a apoiar os empresários”
Cristina Pereira, 47 anos, professora e directora da Cavendish House, Azambuja
É de Azambuja e fala da terra com o orgulho e a alegria de alguém natural de lá embora tenha nascido na África do Sul. É responsável pela principal escola de ensino do inglês no concelho e diz que dominar o inglês é fundamental nos tempos que correm. Defende que os empresários têm de conseguir fazer com que os seus negócios vinguem sem terem de estar sempre de mão estendida para os apoios governamentais. Nos tempos livres gosta de fazer artesanato, caminhar e ler.
Nasci na África do Sul e passei lá uma boa parte da minha infância e adolescência. A língua era o inglês mas felizmente os meus pais falavam muito português em casa e foi assim que aprendi. Vim com eles para Portugal quando tinha 20 anos, por altura das primeiras eleições livres em que ganhou o Nelson Mandela. Quando aqui cheguei concorri a uma entrevista com a fundadora da Cavendish, a Patricia Smyth. Era uma grande mulher. Comecei a dar aulas de inglês há 23 anos.Sinto-me uma azambujense e faço parte da comunidade. Já estou a dar aulas a filhos de jovens que foram meus alunos. Há uma continuidade e um sentimento muito forte de respeito e carinho uns pelos outros. Adoro viver em Azambuja. Quando aqui cheguei, vinda de Joanesburgo, que era uma cidade muito dinâmica e grande, a Azambuja parecia-me uma daquelas terras velhas e abandonadas que via nos filmes de cowboys. Não havia aqui nada e estava tudo muito degradado. Hoje é um sítio fabuloso para se viver, com muitas actividades para quem tem filhos. Temos fáceis acessos a Lisboa. É um paraíso. Haja o que houver a língua base global vai continuar a ser o inglês. Temos muitos adultos connosco que precisam do inglês para trabalhar ao nível da Europa mas também dentro do nosso país. Outras línguas, como o mandarim ou o espanhol têm o seu lugar mas o inglês é fundamental e deve ser uma prioridade. Um jovem ou um adulto que não domine o inglês hoje em dia vai ter muita dificuldade em arranjar um emprego ou a progredir na profissão.Os alunos não são apenas um número ou uma fonte de receita. São o centro da nossa actividade e damos tudo pelo sucesso deles. Esforçamo-nos ao máximo para terem resultados que lhes abram portas no futuro. Usamos um método que tem por base o modelo da Universidade de Cambridge e uma preparação para os exames pela Universidade de Cambridge. Tentamos aplicar esse método o melhor que podemos e aqui dentro só falamos em inglês. Quanto mais os alunos estiverem expostos à língua melhor. Não somos um centro de explicações mas claro que aos nossos alunos damos alguma ajuda caso precisem durante as aulas do ensino regular.Sempre fiz questão de deixar o trabalho no escritório e dedicar-me à família quando estou em casa. Nem sempre consigo mas tento que isso não aconteça. Dou aulas a tempo inteiro e faço a gestão. Tenho a sorte de ter uma boa equipa. Adoro o que faço. Nunca fui pessoa de trabalhar numa área que não gostasse. Sinto que o nosso trabalho é respeitado e apreciado, isso dá-me imenso gozo. Não me passa pela cabeça ter de ser o governo a apoiar os empresários. É verdade que há muitos impostos e muitas regras e nem sempre é fácil, principalmente de início mas não fui criada com a mentalidade do Estado ser responsável por nós. Acho que nós é que somos responsáveis por nós próprios. Temos de trabalhar, ganhar dinheiro e gerir a nossa vida. Sonho viajar muito e gostava de voltar à África do Sul e a Moçambique. Também queria ir a outros países, nomeadamente à Austrália. Nos tempos livres, às vezes, adormeço no sofá a ver TV e sabe-me muito bem. Gosto de ler, faço artesanato – sobretudo scrapbooks (termo inglês para definir um livro com recortes) e isso ajuda-me a aliviar o stress. Gosto do silêncio e de fazer caminhadas, com o meu marido e o cão, na Mata das Virtudes. Não me lembro da última vez que fui ao cinema. Está caríssimo e com a internet e a televisão temos fácil acesso a tudo, por isso já não vou muito. Filipe Matias
