
Um festival feito na aldeia pelos habitantes
Festival Bons Sons em Cem Soldos serve para melhorar a qualidade de vida da aldeia
José Augusto Mourão com 93 anos é o homem mais velho da aldeia de Cem Soldos, concelho de Tomar. Sempre ajudou a montar o Festival Bons Sons, como a maioria dos seus conterrâneos, agora a saúde já não permite que José saia de casa, por isso, O MIRANTE entrevistou-o na sua habitação que fica a 500 metros de um dos palcos. Durante a conversa ouviam-se bem os graves da música vinda do palco “A música portuguesa a gostar dela própria”. A vibração do som não o incomoda. José está incomodado é por não poder ir “assistir aos concertos”. José está na sua sala de estar e tem a companhia dos dois filhos e do genro. Vai dizendo que a “organização sabe muito bem o que faz e conseguiu que o festival ganhasse esta dimensão. Quem vem ao festival é tudo malta porreira, alguns são esquisitos mas muito respeitadores e simpáticos”.Deixamos José Augusto na cadeira da sua sala frente à televisão, com o volume baixo, e seguimos com o seu genro, Manuel Godinho, 59 anos, pelas ruas da aldeia, que começa a encher-se de festivaleiros. Manuel Godinho, sargento reformado da Marinha, “nascido e criado na aldeia de Cem Soldos”, como gosta de dizer, colabora activamente na montagem do evento. “Faço tudo o que for preciso, daqui a pouco estou de serviço a tirar imperiais na tasquinha”. A realização do festival pretende estimular a economia local e as receitas servem para melhorar a qualidade de vida da população de Cem Soldos, com a realização de obras para uso da comunidade.Manuel Godinho já foi presidente do Sport Club Operário de Cem Soldos, associação que organiza o festival, e sente um enorme orgulho quando fala do “seu festival”. “Isto só é possível em Cem Soldos. A cidade de Tomar já quis levar o nosso evento mas nem pensem. Houve também uma marca que quis comprar o nome, mas nós não deixamos, é único no país. A juventude que vem é simpática e nós gostamos de os ter cá. No primeiro ano havia algum receio, era um que tinha uma trança, outro meio trança, outra que tinha uma mini-saia em que se via tudo, foi o primeiro impacto. Hoje é completamente normal e nunca nestes nove anos houve qualquer briga ou desacato”.Durante a conversa sente-se um aroma no ar. “São uns charritos que a malta fuma, não me incomoda nada, andei pelo mundo inteiro e já vi muita coisa”, diz o ex-marinheiro que já visitou mais de 30 países, sempre em serviço. Quando perguntamos se já experimentou um charro, Godinho diz que não, mas se o jornalista quisesse fumar, “podia estar à vontade”. A comunidade trabalha arduamente durante o ano inteiro para que o festival aconteça. Preparam-se equipas, distribuem-se tarefas, faz-se a programação, tratam-se das licenças. Alguns habitantes emprestam terrenos para os parques de estacionamento e campismo. Todos os postos de trabalho são ocupados por habitantes da aldeia, nas entradas, tasquinhas, na venda de senhas. Trinta e sete mil foi o total de espectadores, nos quatro dias do festival Bons Sons, que terminou no domingo, 16 de Agosto, na aldeia de Cem Soldos, Tomar.

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