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Munícipes querem falar sempre com os presidentes de câmara seja qual for o problema

Munícipes querem falar sempre com os presidentes de câmara seja qual for o problema

Duetos improvisados entre quem toca sempre a mesma música. Fernanda Asseiceira, presidente da Câmara de Alcanena e Francisco Oliveira, presidente da Câmara de Coruche. O MIRANTE juntou na sua redacção, para uma conversa de uma hora, os cidadãos Fernanda Asseiceira e Francisco Oliveira. Apresentamo-los assim porque a intenção é conseguir que os convidados para esta rúbrica falem de coisas diferentes daquelas que são obrigados a falar diariamente devido aos cargos que ocupam.

Edição de 01.09.2016 | Sociedade

Uma das funções que a presidente da Câmara de Alcanena e o presidente da Câmara de Coruche desempenham com gosto é a do atendimento aos munícipes. Por semana apenas atendem cerca de uma dezena de cidadãos ou representantes de empresas mas é porque o tempo não dá para mais, dizem.
Tanto um como outro confessam que tentam que alguns assuntos sejam tratados por outros vereadores ou pelos serviços porque sabem que tanto uns como outros estão preparados para dar respostas mas reconhecem que não é fácil.
“Tenho uma lista grande de atendimentos porque as pessoas querem falar com o presidente. Não é nenhum demérito ou menos valia dos nossos vereadores ou dos serviços mas as pessoas entendem que o presidente resolve melhor”, diz o autarca de Coruche, Francisco Oliveira (PS).
A presidente da Câmara de Alcanena, Fernanda Asseiceira (PS), concorda e confessa que mesmo nas situações em que os munícipes não conseguem agendar uma conversa com ela no tempo destinado ao atendimento, sendo atendidas pelos serviços ou pelos vereadores, arranjam maneira de a contactar. “Como ando na rua e participo em muitas iniciativas há sempre quem venha conversar comigo para partilhar algumas preocupações. Acho isso normal”, explica.
No quarto encontro da série “Duetos” houve nota máxima em termos de pontualidade. Foi a primeira vez que os dois convidados chegaram antes da hora. Nos outros casos houve sempre um que fez o seu parceiro de conversa esperar.
Fernanda Asseiceira trazia umas sandálias de pele com sola de cortiça. Sendo o seu concelho capital da pele e o de Coruche capital da cortiça, marcou pontos. Francisco Oliveira trazia sapatos de “couro plastificado”, como ele próprio disse.
A conversa decorre no dia 29 de Agosto, segunda-feira, da parte da manhã. A propósito de Alcanena ser a capital da pele a presidente da Câmara de Alcanena refere a importância que o município dá aos seus produtos. “Hoje à tarde vou para Vila Nova de Gaia. Vamos ter um autocarro novo em Alcanena e vou lá por isso. Os estofos são em pele e nós fizemos questão de a pele ser fornecida por uma empresa do concelho, a Couro Azul. As cabeceiras dos assentos vão ser feitas em têxtil das mantas de Minde”, diz Fernanda Asseiceira.
Francisco Oliveira e Fernanda Asseiceira não entraram na política através da Juventude Socialista. O presidente da Câmara de Coruche pertence aos quadros do município e foi convidado a integrar a equipa do anterior presidente, tendo sido naturalmente candidato.
A presidente de Alcanena é professora e acumulou aquela actividade com a de Delegada do Inatel de Santarém. A visibilidade pública levou-a a deputada e a presidente da câmara, embora o cargo autárquico tenha sido ganho graças à sua persistência e espírito combativo, saindo da oposição para presidente.
Fernanda Asseiceira nasceu em casa. Foi tirada a ferros num parto muito difícil. Talvez por isso se enterneça agora com os bebés do seu concelho a quem oferece um cabaz de produtos, no âmbito do programa “Bebé Feliz”. Este ano já foram registadas mais de 50 crianças. É ela que faz questão de entregar os cabazes às famílias. E tem-se verificado algo muito interessante: nas quatro entregas já feitas nenhum dos bebés chorou.
Em Coruche um dos principais problemas que o presidente da câmara enfrenta continua a ser o da comunidade cigana. A situação é de acalmia mas Francisco Oliveira continua a batalhar para conseguir, em conjunto com o Governo e outras entidades envolvidas, um programa integrado. “É verdade que é necessário arranjar alojamento mas os programas desgarrados e simplistas que têm sido lançados não resolvem o problema. Na minha óptica estas questões da etnia cigana tem que ter uma integração sustentada”, defende.

“Viajava de avião mas tinha que sair em andamento com a bagagem e tudo”

Quando a certa altura se falou de viagens de avião, o presidente da Câmara Municipal de Coruche, Francisco Oliveira confessou que a sua experiência a esse nível era um pouco diferente da maioria. “As vezes que andei de avião nunca aterrei. Levantava voo e era obrigado a sair em andamento com a bagagem e tudo”, contou a rir.
Tendo-se oferecido como voluntário para o Corpo de Tropas Pára-Quedistas, prestou serviço na base de Tancos e em Lisboa e fez inúmeros saltos e se hoje já não salta, não deixa de ter a paixão pelo pára-quedismo e o seu concelho vai receber mais uma vez este ano um encontro nacional de pára-quedistas e ex-pára-quedistas.
Francisco Oliveira diz que quando se alistou não foi tanto para saltar de pára-quedas mas porque gostava da tropa. Acabou por sair quando começou a sentir saudades de casa, da família, dos bailes da sua Fajarda natal e das “namoradas”. A parte das “namoradas” fez a sua companheira de conversa, Fernanda Asseiceira, comentar que lhe tinha fugido a boca para a verdade.
A presidente da Câmara de Alcanena nunca saltou de pára-quedas e uma viagem à capital do Peru, na altura em que era deputada, deixou-a com alergia a voos muito longos.
Embora tenha recusado o convite feito pelo seu colega de Coruche para um salto de pára-quedas “assistido” (acompanhada por um pára-quedista experiente), ficou a pensar na possibilidade de uma viagem em balão de ar quente que também lhe foi sugerida por Francisco Oliveira, uma vez que em Coruche há uma empresa que promove esse tipo de viagens. No entanto, após reflectir, disse que se isso acontecer prefere viajar sobre o seu concelho.

“Fui a uma tourada onde o touro sucumbiu na arena e fiquei vacinada”

Fernanda Asseiceira nasceu na Chamusca, concelho de tradições taurinas, e embora não seja contra as touradas não costuma assistir. “Nunca fui a nenhuma tourada na minha terra. Fui uma vez a uma em Setúbal e foi a única que vi ao vivo. O touro teve problemas e acabou por ter um colapso. Era um touro escuro. Notava-se mais o sangue provocado pelas bandarilhas. O animal foi arrastado para fora da arena e eu estava a ver que se gerava ali uma manifestação contra a organização da corrida”.
Para a presidente da Câmara Municipal de Alcanena o lado estético das touradas é a coisa mais interessante. “Para mim a tourada podia terminar após aquela parte inicial das cortesias com os cavalos enfeitados e os cavaleiros e os outros intervenientes em praça”, diz, após repetir que as touradas devem ser preservadas pelo que representam em termos das nossas raízes e das nossas tradições e costumes.
“Não seres contra as touradas já ajuda muito”, refere Francisco Oliveira que é actualmente presidente da secção de municípios com actividade taurina, no âmbito da Associação Nacional de Municípios Portugueses. O autarca, natural da Fajarda, Coruche, viveu até aos 17 anos em Azambuja, outro concelho com tradições taurinas e é, muito naturalmente, um defensor de todas as actividades ligadas ao touro bravo, embora admita que nada seja imutável.
“Gerou-se um proteccionismo exagerado dos direitos do animal que de certa forma põe em causa a identidade dos nossos territórios. Obviamente a sociedade tem que evoluir. A mentalidade evolui e a forma como se pensavam as coisas há dez ou quinze anos é diferente da forma como se pensam hoje mas temos que defender as nossas raízes e tradições”, explica.
O autarca desde muito novo teve contacto com o mundo dos toiros. Actualmente vê o futuro das touradas com preocupação. “Há menos público. Podemos falar mesmo numa espécie de morte lenta. Custa-me dizer isto mas se não houver uma inversão das coisas, em termos da envolvência económica das touradas, o seu fim é inevitável. Actualmente só aquelas que têm cartéis muito bons e nos períodos altos é que enchem. Há toda uma série de factores que merecem ser estudados”, resume Francisco Oliveira.

Munícipes querem falar sempre com os presidentes de câmara seja qual for o problema

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