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Esfaqueada na via pública depois de apresentar 12 queixas por violência doméstica

Esfaqueada na via pública depois de apresentar 12 queixas por violência doméstica

Iolanda António, de Vila Franca de Xira, conta na primeira pessoa a O MIRANTE o inferno vivido com o ex-companheiro. Ministério Público aplicou medida branda a agressor que batia na mulher e abdicou do filho em tribunal. Iolanda António acabou esfaqueada na via pública em frente ao filho bebé, a 29 de Agosto, no bairro do Bom Retiro. O crime está a ser investigado pela Polícia Judiciária e o agressor continua a monte.

Edição de 26.09.2018 | Sociedade

Foram pelo menos 12 as queixas que Iolanda António, de 34 anos, natural de Vila Franca de Xira, apresentou na PSP devido aos maus tratos inflingidos pelo ex-companheiro. Viveu um ano de terror, entre ameaças, violência física e psicológica, até ser esfaqueada sete vezes, em pleno dia, na via pública, no dia 29 de Agosto, na zona do Bom Retiro, em Vila Franca de Xira. O ex-companheiro, Amílcar Charneca, está fugido desde essa data e é procurado pelas autoridades. Iolanda vive “de coração nas mãos”, com receio de sair à rua enquanto o ex-companheiro não for apanhado. E pede que de uma vez por todas se faça justiça.
A O MIRANTE, Iolanda conta que os episódios de agressão física e verbal começaram quando foram morar juntos e ela teve uma gravidez inesperada. Já namoravam há cerca de um ano. Ainda antes de o filho de ambos nascer, o agressor, de 47 anos, dizia que ela e o bebé lhe tinham “estragado a vida” e que tinha “perdido a mulher”, conta Iolanda.
Sofreu a primeira agressão física no dia 11 de Dezembro de 2017, duas semanas depois de o filho nascer. Com ele nos braços, Iolanda levou uma estalada que lhe arrancou os óculos da cara. Foi Maria Alice António, mãe de Iolanda, quem chamou as autoridades nesse dia, depois de se ter apercebido que a filha chorava ao telefone. “Ele [o ex-companheiro] obrigou-me a dizer à polícia que estava tudo bem, mas eles [os agentes] não acreditaram. Pediram-me para sair de casa”. E Iolanda saiu. Seguiu até à esquadra de Vila Franca de Xira, de pijama, com o bebé ao colo e apresentou queixa.
Uma semana antes, o agressor já tinha proibido a família de Iolanda de entrar em casa, privando-os de ver o bebé. A partir dessa data “começou o inferno, as mensagens e chamadas de ameaça”, a ela e a toda a sua família. “Dizia-me que ia raptar o menino”, recorda em lágrimas.

Segunda oportunidade foi mais do mesmo
Nos meses seguintes, a abordagem começou a mudar. O ex-companheiro “apelava à emoção, dizia que ainda gostava de mim e acabei por voltar para ele”, diz arrependida da decisão que tomou, que levou ao afastamento da sua família. Quando volta para o agressor, Iolanda, administrativa numa empresa sediada na Castanheira do Ribatejo, foi morar para Faro, no Algarve, porque ele “tinha tido uma oportunidade de trabalho”.
Não passou uma semana até a violência recomeçar, depois de ela ter tentado acabar com a relação “a bem”. “Trancou-me a porta e disse-me que eu não ia a lado nenhum. Tirou-me o telemóvel e jogou-me contra a parede várias vezes. Ameaçou-me de punho fechado e começou a arrumar as coisas do meu filho, dizendo que o ia levar e que eu nunca mais os ia ver”. Depois do episódio ligou aos pais e começou a preparar um plano de fuga. Meteu no carro tudo o que conseguiu, pegou no bebé e viajou até Vila Franca de Xira.

Pai abdica do poder paternal e persegue ex-companheira
O ex-companheiro “começou a aparecer de surpresa em Vila Franca de Xira”, a vigiá-la no local de trabalho e a segui-la para onde quer que fosse. Um dia chega a proposta do agressor de querer abdicar do filho, desde que Iolanda abdicasse da pensão de alimentos. O caso foi resolvido no tribunal em Vila Franca de Xira, tendo a juíza deliberado que o pai ficava autorizado a visitar o filho duas vezes por ano, na obrigatoriedade de Iolanda decidir o tempo, modo e lugar da visita.
O documento refere que o pai fica obrigado a dar uma pensão de alimentos de 20 euros, a depositar em conta onde o filho é titular e poderá ter acesso assim que atingir a maior idade. Em acta lê-se ainda que o pai “abdica de estar com o filho só para não estar perto da Iolanda, quer afastar-se dela e rever a sua cabeça”.
O agressor, que estava com Termo de Identidade e Residência, ficou a saber a zona onde Iolanda e o filho residiam numa visita para ver o bebé. Na manhã de 29 de Junho deste ano invade-lhe a casa. “Podes gritar à vontade que os vizinhos já saíram todos, mas é melhor parares ou vou buscar uma faca e mato-te a ti e a mim e nunca mais tomas conta do bebé”. Esta é uma das frases que terão sido proferidas pelo agressor e que Iolanda diz não conseguir apagar da memória.
Nesse dia, Iolanda já tinha um aparelho de teleassistência que de nada lhe valeu quando ele a arrastou pela casa. Também já tinha pedido em tribunal que alterassem a medida de coacção para pulseira electrónica, apresentando um processo de cerca de 30 páginas, de ameaças provadas e testemunhadas. Numa delas, recorda Iolanda, o agressor diz: “Não és minha, não és de mais ninguém. Vou destruir a tua vida por completo”. O tribunal deliberou que “não havia risco”.

Vítima recorda dia do esfaqueamento
Iolanda António preparava-se para sair de casa cerca das oito da manhã de 29 de Agosto. Olhou pela janela e pelo óculo da porta, como sempre fazia, para ver se não via movimentos suspeitos de uma possível presença do agressor. Dirigiu-se para o carro, acomodou o filho de nove meses e quando se virou é surpreendida pelo ex-companheiro. Começou a “gritar por ajuda”, mas num ápice ele atira-a para o chão. Cai de costas voltadas para cima e é nessa posição que é esfaqueada sete vezes. “Pensava que ele me estava a bater, sentia dor, mas não pensei que fosse uma faca”, recorda.
O criminoso pôs-se em fuga, abandonando-a no local. Um homem aproximou-se e ela pediu-lhe para ver como estava o filho, dizendo-lhe que estava “toda dorida”. “Ele disse para não me levantar que estava a sangrar. Foi aí que pensei que estava toda furada.
Lembra-se dos gritos da mãe e da “voz doce” do pai, que chegaram ao local antes dos bombeiros e da “entrada no hospital”, que lhe pareceu como num filme. “As dores eram horríveis e a sensação do sangue a escorrer-me pelas costas e a sair a cada respiração é uma sensação indescritível”, diz.
Dias antes do esfaqueamento, o agressor deixara uma mensagem nas redes sociais a que O MIRANTE teve acesso. Lê-se: “Preferiram a vingança. Assim a partir de hoje acabam as mentiras…Afinal nem todos irão gozar a tão desejada herança. […] Desculpa meu filho e até um dia”.
Passadas cerca de três semanas sobre o dia em que foi esfaqueada, Iolanda ainda não pode pegar o filho ao colo. Sofreu dois pneumotórax e do pulmão direito foi-lhe retirado mais de um litro de sangue. Levou duas transfusões de sangue e diz ter sentido dores que nunca pensou que “conseguisse suportar”.

Esfaqueada na via pública depois de apresentar 12 queixas por violência doméstica

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