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A crítica fofinha, os afagos nas nalgas e os toiros de morte com o alto patrocínio da GNR

Coreácio Serafim das Neves

Edição de 05.04.2021 | Emails do Outro Mundo

No teu último e-mail dizes que os vereadores socialistas na Câmara de Alpiarça sugeriram à maioria comunista a distribuição pela população de folhetos em papel a recomendar o distanciamento social, o uso de máscara e a lavagem e desinfecção frequente das mãos.
Fico sempre sensibilizado com estas iniciativas criativas, destinadas a salvar as tipografias da falência através de encomendas municipais. Pela minha parte, acrescento aos folhetos uma reedição de todos os boletins municipais em papel, também para distribuição porta a porta. Isso é que era!
A pouco e pouco os chamados toiros de morte estão a ganhar espaço no Ribatejo, mas há inovações. Em Espanha os toiros são mortos na arena por um matador armado com uma espada. Por aqui são mortos a tiro pela GNR. A semana passada a tourada, chamemos-lhe assim, foi no Cartaxo. Uma faena animada que meteu perseguição, esperas, amolgadelas em carros e até um ferido ligeiro.
A estocada final não foi na praça de toiros da cidade, mas em Casal de Além, já no concelho de Azambuja. Depois das procissões em carrinhas de caixa aberta e dos camiões palco com música ao vivo, passamos a ter as touradas itinerantes. Ou me engano muito ou estamos perante a reinvenção da tauromaquia?
A mim o que me admira é o silêncio dos movimentos anti-taurinos. Nem cartazes, nem activistas a bater em tachos à beira da estrada, aquando da passagem do toiro e dos matadores, nem nada. Que respeitem o confinamento e a proibição de circular entre concelhos, até se aceita. Mas podiam ter feito uma coisinha online, por exemplo.
E já agora, os defensores das tradições tauromáquicas não podiam ter convencido a GNR a equipar os seus matadores de toiros tresmalhados com traje de luzes em vez de fardas e a substituir-lhes os bonés regulamentares por “monteras”, aqueles chapéus com umas bolas laterais a imitar cornos?
O Carnaval passou sem aqueles desfiles de presidentes de câmara e vereadores, com ar sério e compenetrado, a assistirem à passagem de crianças das escolas. Foi mau para os políticos mas uma alegria para muitos pais que tinham que se desunhar a fazer, ou mandar fazer, os disfarces que as escolas impunham, e a aturar os petizes que, em vez de irem vestidos de Vasco da Gama queriam ir disfarçados de personagens dos vídeojogos.
Quanto aos desfiles das meninas deslavadas e de perna à vela, a abanarem as ancas ao ritmo da música, e dos rapazes barbudos vestidos de mulheres e com coisas falsas ao dependuro, tenho a dizer que não lhes senti grande falta. Mas dos Enterros do Galo e do Entrudo, em Quarta-Feira de Cinzas, patrocinados por câmaras e juntas de freguesia, confesso que senti saudades.
Aquelas quadras fofinhas dos testamentos dos galináceos, a criticar positivamente os autarcas amigos, deleitavam-me por representarem um avanço civilizacional. Onde antes havia sátira corrosiva e muitas vezes abrutalhada, com insinuações de cariz desbragadamente sexual, passou a haver, nos anos recentes, poesia de grande elevação com festinhas nos egos e nas níveas nalgas de quem tem o poder de distribuir subsídios. E como eu adoro essa paz social que ilumina as nossas paróquias concelhias.
Saudações valdevinas
Manuel Serra d’Aire

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