“A sociedade tem obrigação de tratar bem dos seus idosos”
Personalidade do Ano Associativismo - Casa de S. Pedro de Alverca
A Casa de São Pedro de Alverca celebra este ano quatro décadas de uma vida dedicada ao apoio dos idosos e das suas famílias. É uma das principais instituições de solidariedade social do concelho de Vila Franca de Xira e o segundo maior empregador da cidade de Alverca. Nesta entrevista a O MIRANTE, dada pela presidente da direcção, Luciana Nelas, participaram também o tesoureiro, José Manuel Peixeiro e a directora técnica, Carla Lopes.
O aumento da esperança média de vida é bom mas tem efeitos negativos se não houver respostas adequadas. Que avaliação faz desta situação?
É uma bomba-relógio que temos nas nossas mãos. Não existem estruturas capazes de dar respostas de qualidade, num futuro próximo, ao aumento da população idosa. No nosso país as reformas são francamente baixas e infelizmente ser-se velho custa dinheiro. Muitos acham que o custo a pagar por esses cuidados não compensa, mas em termos humanos devia compensar.
Dos vossos cento e onze residentes só vinte e um estão em regime suportado pela Segurança Social. É pouco.
Uma sociedade que não investe nos seus anciãos é uma sociedade desprovida de sentimentos que se está a ignorar a si mesma. Sabemos que a Segurança Social não tem dinheiro e está esgotada. Mas é preciso fazer um levantamento e olhar para as casas que são prolongamentos de hospitais. Aí o Ministério da Saúde deve investir. Ainda há pouco recebemos uma senhora que esteve dois anos no hospital depois de ter alta. O ministério deve olhar para isso. É um caminho difícil que temos pela frente.
Em que situação chegam os idosos?
As famílias ficam com os utentes em casa o maior tempo que podem em vez de os trazerem ainda autónomos para a instituição. Depois de velhos ou temos a sorte de ter uma família que cuide de nós ou estamos tramados. O tradicional centro de dia, onde ainda há pessoas com um elevado grau de lucidez e autonomia, está a desaparecer. As pessoas vão manter-se em casa até ao limite das suas forças. Recorrer a uma instituição é o último recurso. Muitas vezes os familiares são os principais cuidadores mas estão extremamente debilitados e esgotados, física e psicologicamente.
Quais são as vossas principais mais-valias?
A humanidade e o profissionalismo. Há uns anos passava-se por um utente e não se fazia uma carícia ou se dava um beijo na testa, por exemplo. Agora isso acontece com normalidade. O tocar na mão ou na face faz a diferença. Não pode deixar de haver humanismo nos cuidados. Estamos a lidar com seres humanos.
Como lida com a morte de pessoas que estão aqui?
Inicialmente fui muito afectada com a partida de pessoas que estavam aqui. Desde então decidi distanciar-me um pouco. Temos a sorte de ter uma pessoa da casa que não se importa de representar a associação nos funerais. Agradeço-lhe imenso porque é das coisas que mais me custa fazer, confesso.
Uma vossa técnica referiu-se à Casa de S. Pedro como “um oásis” de solidariedade no centro da cidade de Alverca.
Essa definição assenta-nos como uma luva. Estamos sempre empenhados em sermos os melhores. Um exemplo disso são os cheiros. Nesta casa não há. E isso custa muito dinheiro e muito profissionalismo. Ninguém faz omeletas sem ovos. Todos os dias mudamos a roupa da cama dos nossos utentes e as suas roupas. Há muita paixão e dedicação neste trabalho. Temos colaboradores extraordinários. Somos um somatório de boas vontades em prol de quem está no fim da vida.
A Casa de São Pedro ainda tem capacidade de resposta?
Damos uma resposta social muito importante para a cidade mas estamos com a lotação esgotada, excepto no centro de dia, que é a única valência onde ainda temos vagas. No lar, só quando há um falecimento se abre uma vaga. Temos 111 idosos em residência, 21 dos quais em regime suportado pela Segurança Social e auxiliamos 50 pessoas no apoio domiciliário. Temos ainda 67 utentes em centro de dia.
Qual a dimensão do vosso orçamento?
A Casa de São Pedro tem 130 colaboradores e um orçamento a rondar os dois milhões e 700 mil euros. Actualmente temos 1.670 sócios pagantes. Somos uma média empresa no centro de Alverca e além da resposta social somos um dos principais empregadores. Podemos orgulharmo-nos de, apesar de termos também momentos complicados, nunca termos deixado os nossos funcionários sem receber os vencimentos.
Quais são os vossos projectos?
Estamos a responder ao que sentimos ser as necessidades da comunidade. Criámos uma sala sensorial (snoezelen) e de cuidados na demência que está a ser um sucesso e a servir de inspiração para outras associações do país. Até de Viseu já nos ligaram a perguntar e pedir conselhos.
E a nível de espaço?
Até à Páscoa queremos ter abertos quartos para o cuidador informal. Como não temos mais capacidade de resposta, e as famílias estão esgotadas, decidimos criar estas salas para albergar temporariamente os idosos, por exemplo, num fim-de-semana, até um período máximo de um mês. É uma oportunidade para as famílias poderem deixar os seus familiares aos cuidados da Casa de São Pedro e descansarem um pouco. São quartos que vão ficar apetrechados de todos os cuidados profissionais, usufruindo de todas as valências que a instituição tem como a psicologia, médico, enfermagem e fisioterapia. Arrancamos com quatro quartos, com duas camas cada um, e casa-de-banho. Além da resposta social será uma importante fonte de receita que fica aberta todo o ano.
Para além de servirem para internamentos que aliviem temporariamente as famílias para que mais serão utilizados?
Para diversas situações que requeiram uma estadia temporária. Muitas vezes os idosos saem de uma cirurgia mas não têm familiares que lhes consigam prestar os cuidados necessários nessas alturas e temos aqui todas essas condições. Posso dizer que já temos procura do serviço mesmo sem estar ainda a funcionar. Acreditamos que vai ser um sucesso. Para beneficiar basta ser sócio da Casa de São Pedro.
Se esse projecto correr bem já têm planos para aumentar essa oferta?
Sim, será a receita desse projecto a financiar a próxima expansão. Temos de ser cautelosos e meticulosos na gestão. Não damos passos maiores que a perna. Tudo tem de ser ponderado.
O que ainda vos motiva para continuarem a passar aqui boa parte do vosso tempo livre?
Gostamos de servir. Quando entramos no salão e determinada pessoa nos elogia, ou se ri para nós a agradecer, isso enche-nos a alma. Sentimos que é para aquilo que vale a pena trabalhar. Sentimos que temos de continuar a ajudar as pessoas.
A nível directivo as coisas correm sempre bem?
No nosso segundo mandato houve uma situação muito desagradável e desgastante antes das eleições, de muita lavagem de roupa suja. Tivemos vontade de responder e não o fizemos. Foram momentos difíceis. Alguns actuavam como se quisessem destruir esta obra. Sempre pensei que este seria o meu último mandato, mas este ano vamos conversar sobre o futuro. Nunca a contabilidade esteve com o rigor e os mapas todos à disposição como hoje em dia, mas na última assembleia-- geral alarmei-me com o que algumas pessoas, que se mostraram como potenciais concorrentes à CSP, querem fazer com a instituição. Não é aquilo que desejo.
O segredo para continuarem a fazer a diferença assenta em que princípios?
Temos uma equipa técnica extraordinária que desenvolve o seu trabalho com paixão. A partilha é o segredo para que esta casa ande para a frente. A partilha do bom e do mau. Uma boa gestão não é só partilhar os números, é saber partilhar os sentimentos. Isso é fundamental numa casa de afectos.
Como olha para o futuro?
Com optimismo. Não é um percurso fácil mas tem sido positivo até agora. Vemos uma luz ao fundo do túnel e com a construção dos novos quartos vamos ter uma maior sustentabilidade financeira. Queremos continuar a servir a comunidade e os nossos utentes e a levar o nome da associação adiante. E, se possível, deixá-la em mãos capazes de fazer melhor ou, pelo menos, igual ao que fizemos.
Empatia, humanismo, compreensão, atenção e dedicação
A Casa S. Pedro de Alverca é uma Instituição Particular de Solidariedade Social que nasceu há quase quarenta anos da vontade de um grupo de cidadãos em dar respostas sociais a nível da Terceira Idade, que não eram dadas ou que eram dadas de forma deficiente pelo Estado.
O seu dinamismo fez com que tivesse ao longo dos anos uma permanente evolução e uma crescente importância para a comunidade. Esse dinamismo acentuou-se ainda mais, a partir de 2011, com a chegada à presidência da direcção de Luciana Nelas.
Com cerca de 130 trabalhadores a Casa de S. Pedro de Alverca presta apoio a mais de duas centenas de utentes através da Estrutura Residencial para Idosos; da Estrutura Residencial para Idosos com Demência; da Estrutura Residencial para Idosos com Grandes Dependências; do Centro de Dia e do Apoio Domiciliário.
Tem ainda um programa operacional de auxílio às pessoas mais carenciadas, uma cantina social, uma loja social, uma academia sénior e um centro de férias para crianças.
Os serviços prestados pela Casa de S. Pedro de Alverca valem pela eficiência e profissionalismo da sua equipa e pelo facto de a principal exigência a nível da sua gestão ser ao nível da empatia, humanismo, compreensão, atenção e dedicação que devem estar sempre presentes na relação com as pessoas que ali são cuidadas.

