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“Estando na política posso dar um maior contributo para o bem comum”
Inês Correia - Personalidade do Ano Política Feminino

“Estando na política posso dar um maior contributo para o bem comum”

Inês Correia - Personalidade do Ano Política Feminino.

Inês Correia cumpre o seu segundo mandato à frente da Junta de Freguesia de Benavente. Nasceu em Lisboa mas hoje não a trocava por Benavente onde defende que há maior qualidade de vida. Gostava de ser ouvida por quem tem mais poder na política e diz que a autarquia que gere tem condições para aceitar mais responsabilidades.

Benavente é uma terra envelhecida?

É verdade que a pirâmide está invertida e que a nossa população está cada vez mais envelhecida. Os jovens vão estudar para fora e não regressam ao seu território de origem. A minha esperança é que possam regressar um dia e que esta freguesia tenha ainda melhores condições para os receber.

O que falta para que isso aconteça?

Neste momento falta sobretudo habitação. Reconheço que não será fácil um jovem encontrar uma casa para alugar e isso deve-se à enorme quebra na construção por causa da crise. Mas a freguesia está a recuperar aos poucos e a crescer.

Como é que vive a pacatez desta vila? Sente falta de Lisboa?

Benavente trouxe-me calma para viver. Há quem só veja defeitos nesta vila, eu vejo-lhe grandes vantagens. Uma delas é ter tudo próximo. Isso permite-me ser mãe e presidente de junta. De Lisboa sinto saudades de algumas coisas, mas basta-me ir lá e andar no pára-arranca do trânsito durante algum tempo para me questionar como é que as pessoas conseguem viver assim todos os dias.

Ser presidente de junta numa freguesia pequena expõe-na mais às críticas? Como lida com elas?

Claro que sim, a minha vida é toda controlada e tudo pode ser motivo de crítica. Mas quem entra para a política não se pode transformar noutra pessoa e mudar aquilo que é. Eu continuo a mesma. Claro que a forma como lido com a crítica também depende do meu estado de espírito.

Quais as críticas que mais a afectam?

As que mais me irritam são as que vêm detrás de um computador quando esta casa está de portas abertas e de telefones ligados para ouvir e para esclarecer as pessoas.

O que pensa dos orçamentos participativos? são um bom instrumento para aproximar a população do poder local?

Em primeiro lugar acho que as pessoas não querem saber da política, basta olhar para as nossas reuniões públicas onde nunca tive a presença de um único cidadão. Sobre o orçamento participativo acho que é um pau de dois bicos. Por um lado poderia servir para melhorar a participação das populações, mas por outro acho que pode ser aproveitado em termos partidários ou de outros interesses.

O que achou da longa batalha jurídica entre a Câmara de Benavente e a Quercus por causa do Plano Director Municipal (PDM)?

Acredito que houve interesses, que não os meramente ambientais, a atrasar a aprovação do PDM. Esse atraso trouxe enormes prejuízos para o município e para esta freguesia em particular, com perdas em termos de desenvolvimento e dos postos de trabalho que iriam ser criados por empresas que aqui se queriam instalar e que, fruto desse impasse, foram para outros concelhos. Talvez um dia se venha a descobrir quem foram essas pessoas.

Houve uma ameaça de bomba na junta de freguesia em 2018. Como viveu esse episódio?

Vivi-o com receio, mas a tentar gerir a situação com calma. Não sei o que passa na cabeça das pessoas quando estão com sede de vingança, o que foi o caso. Mais caricato ainda é que mais tarde a pessoa veio à junta pedir desculpa pelo que fez.

Sente que tem pouco poder de decisão?

Sinto que a minha opinião é pedida poucas vezes. Gostava de ser ouvida mais vezes por quem tem mais poder de decisão do que eu.

Ser mulher na política é uma desvantagem?

Não. Nunca senti dificuldades por ser mulher, aliás acho que isso até me traz vantagens, felizmente.

É casada, mas nunca é vista em eventos públicos no concelho com o seu marido. Porquê?

Foi algo que acertámos entre os dois quando aceitei este desafio. E ainda bem que assim é. Não nos incomoda nada essa situação. Pessoalmente sempre fui uma mulher autónoma.

Benavente devia ser elevada a cidade? Isso traria benefícios para o seu desenvolvimento?

Digo que não, peremptoriamente. Tenho sérias dúvidas que ser cidade traga mais-valias a um território. Olhe-se para o caso de Samora Correia. Passou a cidade e isso não significou mais desenvolvimento. O que se vê é uma descaracterização maior do território. Benavente não precisa ser cidade para se desenvolver.

Faz sentido as juntas de freguesia receberem mais competências das câmaras municipais?

Para mim faz sentido e pretendo receber todas, desde que venham acompanhadas com o suporte financeiro necessário. Esta junta de freguesia tem todas as condições para fazer um bom trabalho a esse nível, desde as pequenas reparações nas escolas à limpeza das ruas.

Desde que assumiu estas funções já lhe foram bater à porta a pedir favores?

Não, até agora nunca. Mas já me bateram à porta por estacionar o carro em cima do passeio. Na minha rua morava um senhor que sempre que isso acontecia ligava para a GNR.

Quando terminar este mandato tem vontade de continuar na política?

Tenho. Não estaria a ser justa se dissesse o contrário. Foi uma opção de vida que tomei e da qual não me arrependo. Estando na política acho que posso dar um maior contributo para o bem comum. Como presidente de junta, embora tenha ganho mais preocupações, dou mais de mim aos outros e levanto-me todos os dias com vontade de ir trabalhar e de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Dar atenção a toda a gente sem descurar a dedicação à família

Inês Correia, 44 anos, é presidente da Junta de Freguesia de Benavente desde 2013. O seu trabalho como autarca tem-se destacado pelo investimento na melhoria e construção de equipamentos desportivos e de lazer para os mais novos, tendo sempre em mente as reais capacidades da autarquia e o que pode fazer para melhorar a qualidade de vida das pessoas, numa tentativa de as fixar naquele território, que lamenta estar cada vez mais envelhecido.

Na juventude praticou aeróbica e dança contemporânea, mas uma lesão afastou-a das competições. Também praticou karaté, mas abandonou a modalidade traumatizada por ter ferido uma colega num treino. A situação que mais a marcou positivamente a nível pessoal foi o nascimento do seu filho Martim, actualmente com 11 anos.

Admite que no primeiro mandato como presidente de junta deixou que o trabalho a absorvesse e lhe roubasse todo o tempo que devia passar com a família e, por causa disso, passou a não levar trabalho para casa.

Inês Correia estudou no Colégio Beiral, em Lisboa, cidade onde nasceu. Se pudesse recuar no tempo e voltar a um dia da sua infância era ao colégio que voltaria e não ao ambiente familiar conturbado, marcado pela separação dos pais.

Ainda antes de concluir a licenciatura em Sociologia estagiou na Câmara de Benavente e em 2000, já licenciada, integrou o gabinete de Acção Social do município tendo coordenado vários projectos da rede social. Fez atendimento de primeira linha incluindo a toxicodependentes e suas famílias.

Liderou ainda um projecto no Agrupamento de Escolas de Benavente de prevenção contra o consumo de drogas e também foi vice-presidente da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Benavente. Diz que nesse cargo foi afectada por situações difíceis nomeadamente quando envolviam retirar crianças às suas famílias devido a maus tratos.

“Estando na política posso dar um maior contributo para o bem comum”

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