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O Pita taxista ainda está aí para as curvas
Enquanto conseguir revalidar a carteira profissional Gabriel Pita vai manter-se ao volante

O Pita taxista ainda está aí para as curvas

Gabriel Pita trabalha na Auto Bigodes e é um dos taxistas mais antigos do Forte da Casa. Apaixonado pelo volante, começou cedo a trabalhar numa oficina de automóveis do Funchal, de onde é natural, até se ter mudado para o Forte da Casa. Todos os dias vê gente a cometer asneiras ao volante e avisa que andar na estrada não é uma brincadeira.

Edição de 27.04.2020 | Identidade Profissional

Honestidade e tratar bem os clientes é o segredo para o sucesso, diz Gabriel Pita, que se orgulha de ser um dos taxistas mais antigos ao serviço no Forte da Casa, através da Auto Bigodes, empresa de táxis onde trabalha.
É um homem calmo e já calejado de décadas ao volante: só na Auto Bigodes presta serviço há mais de 30 anos. E brinca que ainda “dá baile” a muitos condutores novatos que andam pelas estradas. “Também é preciso alguma paciência. Os clientes gostam disso e felizmente têm dito bem do meu trabalho”, conta. Enquanto conseguir revalidar a carteira profissional espera continuar ao volante.
Tem 76 anos e nasceu no Funchal, Madeira, sendo desde criança um apaixonado por automóveis. Aos 13 anos arranjou o seu primeiro emprego numa oficina a aprender a ser mecânico. “Um dia chateei-me com o patrão e atirei-lhe uma chave de fendas à cabeça”, recorda. Entrou mais tarde na fábrica de tabacos da Madeira onde esteve até aos 18 anos.
Assim que tirou a carta de condução, poucas horas depois de passar no exame, sentou-se ao volante de um dos táxis que o pai tinha no Funchal. “Era um Morris Oxford, matrícula MA-40-53. Nunca mais soube o que aconteceu a esse carro e não me esqueço da matrícula”, lembra.
Gabriel queria ganhar a vida mas trabalhar para o pai pareceu-lhe mau negócio. “Os familiares são sempre os que pagam pior”, ironiza, lembrando que depois de querer ganhar mais dinheiro passou a ser motorista. Ainda serviu no exército em Angola, na guerra do Ultramar, entre 1965 e 1968. No regresso trabalhou, sempre como motorista, nos trabalhos de ampliação do aeroporto do Porto Santo e na terraplanagem da refinaria de Sines da Petrogal. Tomou contacto com o concelho de Vila Franca de Xira enquanto motorista de camiões, ao transportar barro da Cruz do Campo para a antiga cerâmica da Póvoa de Santa Iria.

Três motores em quatro anos
“Sou uma pessoa calejada e sem medo do trabalho”, confirma Gabriel Pita, que é um rosto conhecido no Forte da Casa. Foi já naquela vila ribatejana que decidiu voltar a ser taxista e candidatou-se, pouco depois do 25 de Abril, ao concurso de emissão de novas licenças. Ganhou uma e lançou-se ao trabalho num Morris Marina. “O carro foi um inferno. Rebentou três motores em quatro anos. Não prestava para nada aquela porcaria”, recorda, confirmando a má fama associada àquele modelo da extinta British Leyland. “Todo o dinheiro que ganhei foi enterrado naquele carro. Depois comprei um Mercedes e fiz meio milhão de quilómetros nele”, elucida.
Passa várias horas ao volante e a estrada é o seu prato do dia. Confessa que diariamente vê “javardices” de outros condutores e se pudesse multava-os. Nunca foi assaltado ou ameaçado mas um dia, quando prestava serviço em Lisboa, chegou a transportar um ministro das Finanças. “Pedi-lhe que apagasse o charuto antes de entrar no carro”, recorda. Gabriel Pita confirma as “conversas de táxi”: sabe-se muito mas o que se ouve fica dentro do carro. “Temos de respeitar o que as pessoas dizem”, confessa.
Contudo nem sempre é fácil aturar alguns clientes. “Há quem se esqueça que somos empregados como outra pessoa qualquer. Muitos ainda julgam que os taxistas são uns atrasados mas isso não corresponde à verdade. A experiência também conta”, explica. E sobre o futuro, ver-se-ia capaz de conduzir um carro eléctrico? “Conduzo tudo o que tenha um volante. Mas acho que para já um eléctrico ainda não é bem o que precisamos para o dia-a-dia”, defende.

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