
Falta activismo em Torres Novas para os problemas da poluição
Pedro Triguinho, um dos mentores do movimento Basta! que luta pelo fim da poluição na ribeira da Boa Água, em Torres Novas, não se considera um activista ambiental mas antes um homem que luta contra a injustiça. Pelos seus actos e palavras teve que se defender em tribunal das acusações de uma empresa. Nada que o demova de continuar a lutar por aquilo que considera justo: uma ribeira límpida e uma punição forte para os infractores. O arquivista da CP conversou com O MIRANTE a propósito do Dia Mundial do Ambiente que se assinala dia 5 de Junho.
Pedro Triguinho, rosto e voz da luta ambiental no concelho de Torres Novas, confessa que o que o move não é nenhum interesse específico pelo ambiente mas antes uma incapacidade de lidar com a injustiça. E para lutar contra a injusta poluição da ribeira da Boa Água criou com dois amigos o movimento Basta!.
“O cenário de poluição era recorrente, meses a fio. A dada altura, estava com o Luís Santos e a Maria Jeronito numa esplanada, começámos a falar do assunto e decidimos que tínhamos que fazer alguma coisa. Um deles disse ‘já basta’ e ficou no ouvido. No próprio dia criámos uma página no Facebook e fomos colocar um cartaz a dizer Basta! no Nicho dos Riachos”, conta-nos, acrescentando que até fizeram apostas sobre quanto tempo o cartaz permaneceria no local onde a ribeira da Boa Água chega à cidade.
Corria o ano de 2016 e em poucos meses foi organizada a primeira manifestação que juntou populares, associações e políticos num protesto contra a contaminação desse afluente do rio Almonda. Em quatro anos o cenário não mudou muito e os episódios de poluição repetem-se. Pedro Triguinho, arquivista da CP, em Lisboa, está em teletrabalho a partir de casa, em Torres Novas, desde meados de Março o que lhe tem permitido fazer um registo praticamente diário das descargas poluentes. Com uma pontualidade quase britânica são publicados na página do movimento os vídeos que as ilustram.
Nos dias em que não está no terreno recebe queixas. “Em vez de telefonarem para a polícia telefonam para nós. Pouco podemos fazer. Apenas denunciar”, refere, lamentando contudo que mesmo as denúncias à GNR já não surtam efeito, com a força policial a responder que só se desloca ao local com ordens superiores.
É difícil arranjar voluntários
A Agência Portuguesa do Ambiente esteve no local há cerca de uma semana. Fez recolhas por volta das 10h00 quando, diz Triguinho, “toda a gente sabe que as descargas são feitas ao final da tarde e à noite. Em cinco minutos conseguiam pesquisar essa informação”, lamenta.
O tipo de poluição que surge na ribeira da Boa Água, é, segundo o porta-voz do movimento Basta, muito particular. “Trata-se de ácido sulfúrico, utilizado na lavagem de contentores de resíduos perigosos. Chegam aqui de toda a Europa. O ácido devia seguir para a lagoa de contenção e depois para a ETAR. Foi feito o investimento numa ETAR físico-química, mas como os tratamentos são muito caros é mais fácil despejar directamente na ribeira ou enterrar em buracos”.
Pedro Triguinho esteve por duas vezes acusado de difamação em tribunal pela fábrica de transformação de óleos alimentares e confessa a O MIRANTE que enquanto tiver a consciência tranquila é capaz de enfrentar mais. Para o activista, que não gosta de ser assim chamado, falta activismo em Torres Novas, e em todo o lado, para resolver os problemas de poluição.
“O ser humano tornou-se muito individualista e perdeu o hábito do trabalho em comunidade”, lamenta Triguinho, acrescentando que talvez seja culpa das novas tecnologias. “Quando mostram interesse pela causa nas redes sociais tento incentivá-los para a participação numa acção de limpeza de um troço do Almonda… nunca ninguém pode. É incrível”.
Câmara podia fazer mais
Pedro Triguinho considera que o executivo camarário poderia fazer muito mais, pressionando, por exemplo, as autoridades. “Podiam fazer aquilo que nós Basta fazemos. Se veio cá a RTP e a Comissão Parlamentar do Ambiente foi à nossa conta e não à conta do município”, diz categórico lembrando que tudo começou com um erro da Câmara de Torres Novas.
“A Fabrióleo quis aumentar a fábrica e construir uma ETAR e a câmara teve esse pedido na gaveta durante seis anos, sem dar resposta. O resultado foi uma acção judicial da Fabrióleo contra o município. Nesse aspecto tenho que lhes dar razão. Ninguém deve demorar seis anos para dar uma resposta, mas isso não pode ser um argumento para se construir à margem da lei”, reitera.
A obra foi embargada e, “curiosamente”, a câmara só voltou ao local quatro meses depois, conta Pedro Triguinho. Quando voltaram já a obra estava acabada e a funcionar. Pedro Ferreira, presidente da Câmara de Torres Novas, tinha duas opções e escolheu a que o Basta considera errada. “Poderia deitar abaixo o edificado ou ir para tribunal. Decidiu ir para tribunal”, remata.
Em assembleia municipal, Pedro Triguinho questionou o presidente da câmara sobre o motivo dessa decisão e a resposta foi de que não queria ser radical. “Para não ser radical com os criminosos está a ser radical com a população do Carreiro da Areia que está a morrer sem saber porquê”, argumenta o ambientalista.
