
“Quando descobrimos utentes infectados no lar nem consegui dormir”
José Joaquim Alves, 67 anos, provedor da Associação do Hospital Civil e Misericórdia de Alhandra
Novo provedor tomou posse a 3 de Fevereiro, poucas semanas antes do início da pandemia de coronavírus. José Alves é sócio da maioria das associações de Alhandra e engenheiro mecânico de profissão. Nunca teve medo do trabalho e defende que a idade da reforma deveria ser antecipada. Quando soube que tinha quatro utentes infectados com Covid-19 no lar que dirige sentiu um murro no estômago e não conseguiu dormir. Mas como não é homem que se derrube facilmente meteu pés ao caminho e mobilizou a equipa para lidar com o desafio. Hoje a Misericórdia de Alhandra não tem casos de infecção. Confessa-se uma pessoa optimista que acredita que o melhor ainda está para vir.
Não me considero viciado em trabalho mas tenho dificuldade em não trabalhar. Tanto mais que assim que me reformei surgiu-me uma oportunidade de trabalho na área comercial e aceitei. A ética e a deontologia são importantes em todas as áreas. Devemos sempre pugnar por fazer as coisas bem feitas porque quando isso não acontece colocamos em causa o trabalho de todos. Entendo que a vida deve ser feita de conhecimento contínuo e nunca termos medo de aprender coisas novas e mudar quando é preciso. Não nos devemos acanhar.
Irrita-me a falta de palavra e a desonestidade. Sou um pacificador e diria que sou um falso calmo. Tenho necessidade de me controlar nas situações difíceis. Mas sinto-me bem na pele de provedor. Estou a dar o meu melhor sem receber nada, contribuindo para a sociedade. É o meu contributo social. Nasci no concelho de Alenquer mas vim para Alhandra quando tinha um ano de idade por isso considero-me um alhandrense. Hoje vivo em São João dos Montes. Sou sócio da maior parte das colectividades de Alhandra. Em duas delas já tenho mais de 50 anos de sócio: no Alhandra Sporting Club e na Euterpe, onde estou também no conselho fiscal.
Enquanto engenheiro mecânico comecei na Mevil, em Vila Franca de Xira, como chefe do gabinete de estudos e projectos. A empresa teve problemas e fiquei com dinheiro por receber. Depois fui para a Mague, em Alverca, onde entrei no controlo de qualidade. Saí antes de me despedirem. A Mague era um mundo e em termos industriais era o nosso orgulho. Tínhamos engenharia cem por cento portuguesa e foi uma grande escola de vida e de profissão. Estávamos muito avançados para a época e até havia planos para fazer centrais nucleares. Felizmente, trabalho nunca me faltou nem nunca tive problemas em arranjá-lo. Quando estava numa outra empresa fui responsável pelo módulo 3 do Centro Cultural de Belém, no que diz respeito às caixilharias, vidro, alumínio e ferro. Tive uma vida profissional intensa.
É importante as pessoas reformarem-se em idade activa. Para usufruirem dos anos que lhes restam a fazerem coisas que lhes dão prazer. Gosto de me sentir activo. Se pudermos conciliar a vida profissional e a vida pessoal e social é o ideal. A minha relação com a Misericórdia de Alhandra começou em 1997 quando fui convidado para a mesa administrativa.
Não se pode dizer que tivemos uma entrada calma nestas funções, por causa da pandemia. Não é fácil mas não estou nada arrependido de ter aceite o desafio. Tenho o mesmo prazer que tinha, mas confesso que está a ser mais trabalhoso do que era expectável. Nunca baixámos os braços mas não estávamos à espera de uma situação destas. Não acreditávamos que isto fosse acontecer. Foi completamente surreal. Felizmente temos um grupo de profissionais muito bem e com muitos anos de experiência que nos ajudou a montar um plano de contingência que seguimos à risca.
O maior choque foi quando fui chamado pelo presidente Mesquita para uma reunião na câmara por causa da Covid. Como tinham estado a fazer testes no dia anterior desconfiei logo. Deram-me a notícia dos quatro casos positivos e foi como um murro no estômago. Estava preparado para tudo menos para lidar com isso. Ainda assim não tive medo, tivemos de meter tudo a funcionar sem hesitações. Isolámos os utentes sem problemas e correu tudo bem. Os utentes têm aguentado estoicamente. Entretanto já fizemos mais dois testes em semanas diferentes e deram sempre negativo. Foi um alívio.
Nessa noite nem consegui dormir. Posso dizer que foi o período mais complexo e difícil de ultrapassar desde que estou nestas funções. Os nervos não foram de aço, foram frágeis, mas sempre tive confiança que íamos dar a volta a isto. Procuro não sofrer por antecipação mas gosto de planear e não dar passos em falso. Agora temos uma vigilância constante, não podemos baixar a guarda em nada, não podemos facilitar. Melhorámos os cuidados de desinfecção. A pandemia acabou por ser uma boa escola para termos mais cuidados no futuro. Apesar de nos estar a sair muito caro tudo isto. Mas sabemos que um dia em que facilitemos temos grandes hipóteses de morrer.
Sou um optimista e entendo que é por aí que devemos olhar o futuro. Tenho o sonho de ampliar a associação e criar ainda melhores condições para quem cá trabalha e reside. Vamos tentar concretizar esse sonho e devemos sempre acreditar que coisas melhores estão ao virar da esquina.
