
“Deixar de publicar imagens de fogos foi boa ideia porque as chamas não são um espectáculo”
João Faria é presidente da assembleia-geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira
João Faria, 74 anos, nasceu em Estremoz mas a maior parte da sua vida foi passada no concelho de Vila Franca de Xira. Formou-se em Engenharia Química e é incapaz de estar parado. Já foi comandante dos Bombeiros Voluntários de VFX e nessa função confessa que apanhou vários sustos, sobretudo durante incêndios em unidades fabris. Elogia a decisão editorial de O MIRANTE de deixar de publicar fotos e vídeos de incêndios florestais, porque diz que as chamas não devem ser um espectáculo e avisa que muitos pirómanos ainda estão, precisamente, dentro dos quartéis de bombeiros. Gosta de praia e montanha e tem nos automóveis clássicos uma das suas grandes paixões.
Nasci em Estremoz mas vivo no Monte Gordo em Vila Franca de Xira. Gosto muito de viver na cidade. Mas nota-se que tem menos movimento que no passado. Hoje o movimento é só de entrada e de saída na estrada nacional. Antigamente vinham pessoas de Lisboa almoçar e jantar em Vila Franca de Xira, tínhamos uma grande actividade na restauração que ainda continua, mas está muito diminuta em relação ao que era.
Não devemos ter vergonha de quem somos e das nossas qualidades. Formei-me em Engenharia Química que sempre foi uma área que gostei. Na altura não tínhamos praticamente nenhum desenvolvimento científico e havia pouca gente na investigação. Hoje já não é assim e fazemos bastante trabalho digno de nota. Não temos de ter vergonha de quem somos. Os portugueses têm muito esse problema, o de acharem que são menos capazes que os outros. Isso tem-se verificado ao longo dos anos. Acreditamos pouco em nós, mas acho que aos poucos isso vai sendo ultrapassado.
Sou um apaixonado pelo que faço e ainda hoje trabalho porque não gosto de estar parado. A minha ligação aos bombeiros começou em 1982 e terminou em 1996. Já era engenheiro químico e dedicava-me à segurança fabril onde trabalhava. Tinha uma ligação grande com os bombeiros, mas nunca tive a ideia de vir a pertencer à corporação. A dada altura um dirigente chamou-me a dizer que tinham ficado sem comandante e se não me importava de assumir esse cargo. Aceitei.
Nunca perdi nenhum homem sob o meu comando. Sempre coloquei a segurança deles primeiro. Passaram-me pelas mãos muitas dezenas de homens. Alguns eram tão novos que ainda aqui estão. Mas apanhei vários sustos enquanto fui comandante e a maior parte deles envolvendo incêndios grandes em fábricas. Lembro-me de dois incêndios nas fábricas da Tudor e da Ferro na Castanheira do Ribatejo. Hoje em dia o fogo urbano já não é dado como o mais perigoso. Mas continuamos a não saber, na maior parte das vezes, o que acontece numa determinada unidade fabril. Ainda não temos toda a preparação que precisávamos. Actualmente continua a haver fogo posto, mas as mudanças climáticas alteram tudo e as chamas ganham agora proporções maiores.
O MIRANTE fez muito bem em deixar de publicar fotos de incêndios. Quem tem de saber do fogo são os bombeiros. Toda a vida houve pirómanos, e muitos deles estavam e estão metidos nos corpos de bombeiros, o que é outro problema. Fazem bem mostrar o que se passa depois ou uma ou outra situação em particular que mereça destaque, agora fazermos do fogo um espectáculo como acontece em algumas televisões é errado. As chamas são espectaculares no mau sentido do termo. Não tenho dúvidas que o jornalismo deve ser o mais sério possível.
O amadorismo e o voluntariado vão ter de deixar de existir nos quartéis. Cada vez teremos de apostar mais no profissionalismo. Foi muito bonito termos voluntários, mas hoje em dia isto já não vai com pessoas que são chamadas e fogem dos empregos para virem para cá. Temos de partir para o profissionalismo e esse só se consegue se tivermos homens e mulheres nos quartéis em prontidão. Não podemos demorar mais do que cinco minutos para estar numa ocorrência porque só assim se salva uma vida.
Tira-me do sério ver alarvidades e gente a falar sem saber. Infelizmente vêem-se muitas hoje em dia. Alguém diz algo numa rede social sem conhecimento de causa e a má informação propaga-se rápida e estupidamente, desenvolvendo-se o boato. As pessoas precisam de se informar como deve ser, nos jornais, sobre o que se está a passar antes de falar.
Não posso dizer que tenha um vício secreto, mas gosto muito de automóveis. Tenho um conjunto de carros antigos, incluindo um Jaguar, um Maserati e um Alfa Romeo, são carros que estão com o meu filho. Hoje o carro a hidrogénio está um pouco posto de parte mas acredito que ainda vai aparecer num futuro próximo. O meu carro a seguir deverá ser um eléctrico. Gosto de praia e montanha e visito as duas quando posso. Gosto do sossego e paz de espírito.
Não acredito que nos próximos três ou quatro anos possamos dormir descansados por causa da Covid. Sou uma pessoa bastante optimista, mas também gosto de ser realista e por isso acho que isto não acaba neste Natal. A Covid veio para ficar e temos de aprofundar o conhecimento que temos sobre ela. É preciso continuar a ter muito cuidado. Mas não podemos deixar-nos consumir pelo medo e os negócios terão de continuar até que isto seja ultrapassado.
