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O papel da mulher na política e na sociedade deixou de ser enfeitar
Maria da Luz Rosinha afirma que cabe aos homens tornarem a política interessante para as mulheres

O papel da mulher na política e na sociedade deixou de ser enfeitar

Maria da Luz Rosinha acredita que a responsabilidade e a determinação são características que distinguem o sexo feminino. Foi por isso que se rodeou de mulheres enquanto presidente da Câmara de Vila Franca de Xira. Embora não seja favorável às quotas, reconhece a sua necessidade num sector organizado durante séculos em função dos homens.

Edição de 30.09.2020 | Sociedade

“Não distingo no género as pessoas que trabalham comigo. Não é por ser homem ou mulher que agrada mais ou menos”. É assim que Maria da Luz Rosinha, deputada do PS, actual porta-voz da conferência de líderes e ex-presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, responde à pergunta: ‘gosta mais de trabalhar com homens ou com mulheres?’. Uma das várias questões colocadas por O MIRANTE a propósito do Dia Internacional da Igualdade Feminina.
Maria da Luz Rosinha realça como qualidade do sexo feminino a responsabilidade e lembra que nos 16 anos que esteve à frente da autarquia de Vila Franca, entre 1997 e 2013, houve um período em que quase todos os lugares de responsabilidade eram ocupados por mulheres. “Foram prestações muito bem-sucedidas e construí com elas relações de amizade que mantenho até hoje”, refere.
Esta responsabilidade é talvez genética, alega Rosinha, uma vez que, na sua opinião, a vida sempre desafiou as mulheres com diversas tarefas. Hoje estamos num processo de transformação da sociedade em que a partilha começa a ser uma realidade, mas nem sempre assim foi. Contudo, esta igualdade na divisão de tarefas não se traduz numa igualdade de oportunidades e, sobretudo, salarial. São ainda precisas medidas que imponham para a mesma responsabilidade o mesmo salário. “Não sou a favor das quotas, mas reconheço a sua necessidade para que as coisas se possam equilibrar”, refere a deputada, acrescentando que defende o mérito.
“As quotas vieram alterar a realidade e permitiram que mulheres com muito mérito que estavam em lugares subalternos pudessem aceder a lugares de topo”, explica, dando como exemplo a política que, considera, muitas vezes não é interessante para as mulheres porque é um sector organizado durante séculos em função dos homens que, com menos responsabilidades ao nível da família, e da própria organização doméstica, têm “todo o tempo do mundo”.
Será então a política um sector masculinizado, como refere Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade? “Não queria dizer isso, mas é mesmo”, responde Rosinha, acrescentando que é preciso estimular as mulheres porque a política não lhes é uma coisa interessante. “A exposição até da vida familiar é redutora da participação das mulheres”. Até há pouco tempo a mulher servia para enfeitar, foi um estereótipo que se criou ao longo dos anos, mas que está a mudar.

“Mas não tem um batonzinho?”
Quando perguntamos se já se sentiu discriminada Rosinha conta-nos um pequeno episódio que se passou no seu primeiro mandato à frente da Câmara de Vila Franca de Xira. “Uma coisa deliciosa”, diz. Encontrou na rua uma senhora que seguia acompanhada pela mãe já de uma certa idade. A filha diz para a mãe “sabes quem é esta senhora? É a presidente da Câmara Maria da Luz Rosinha”, e a senhora dirige-se a Rosinha e diz-lhe com o ar mais cândido do mundo, “mas não tem um batonzinho?”. “Apesar de não pretender ofender, a atitude da senhora foi absolutamente preconceituosa”, remata sorridente ao telefone.
Houve ainda outro episódio, enquanto trabalhava numa empresa privada. “Uma situação deveras embaraçosa”. A empresa foi a uma reunião com parceiros externos e há alguém que a apresenta e diz “é a directora Maria da Luz Rosinha que para mim não é uma mulher, é um homem”. “Reagi muito mal”, confessa. A ideia de que ao considerarem-na um homem lhe estariam a fazer um elogio, foi completamente errada. “Isto demonstra como por vezes nos reconhecem a competência mas...”.
Para Maria da Luz Rosinha, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade tem feito um trabalho notável para que se possa colocar, por mérito, cada vez mais mulheres em lugares de direcção. Uma tarefa que considera mais fácil no sector privado do que no público, apesar de fazer parte do Governo com maior paridade de sempre, com 38,6% de mulheres ministras e secretárias de Estado.
O limiar da paridade na Constituição portuguesa ficou nos 40%, um valor que Rosinha lamenta não ter chegado aos 50%. “É uma luta que se mantém, já tivemos momentos em que a participação era inferior. Há um esforço da parte de alguns grupos, e do grupo político a que pertenço, no sentido de que se atinjam níveis de igualdade e de paridade de participação que realmente possam orgulhar-nos daquilo que é um esforço em que não há homens nem mulheres, há pessoas”.
Quanto à alteração à Lei da Paridade, em 2018, que passou a não permitir que uma coima substitua uma mulher numa lista. Rosinha considera que, ao contrário do que se ouve com frequência, isso não vem dificultar nada, “foi uma medida muito bem feita” e quem não cumpre tem que ser penalizado, com a rejeição da lista. “As mulheres têm que estar nas listas por direito próprio e ainda bem que está definido que um em cada três elementos de uma lista tem que ser de outro género. É fundamental e acredito que rapidamente se vai tornar a normalidade”, refere, refutando os que dizem que, sobretudo nas autarquias locais, não há mulheres suficientes. A deputada insiste que cabe aos homens transformar a política interessante para que as mulheres estejam disponíveis.

A mais de um século da igualdade

O Dia Internacional da Igualdade Feminina, data escolhida em alusão à ratificação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão a 26 de Agosto de 1789, em França, assinala as conquistas das mulheres na luta por condições de igualdade entre géneros.
Mas o caminho para a completa igualdade é longo e demorado… Acontecerá dentro de 99,5 anos, de acordo com o Global Gap Report 2020 do Fórum Económico Mundial, que há 14 anos compara 153 países no seu progresso em direcção à igualdade de género em quatro dimensões: Participação e Oportunidade Económicas, Desempenho Educacional, Saúde e Sobrevivência, e Responsabilização Política.

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