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Acidentes em centrais nucleares continuam frescos na memória da opinião pública
Jaime da Costa Oliveira na apresentação do livro “Memórias para a História de um Laboratório do Estado”, em Março de

Acidentes em centrais nucleares continuam frescos na memória da opinião pública

Edição de 30.09.2020 | Sociedade

O nuclear é um tema polémico que não deixa indiferente a opinião pública e exige investimentos elevados que o país não pode suportar. Os governos apostam nas energias renováveis e o nuclear foi posto de parte, mas na vizinha Espanha a política é outra. A opinião é de Jaime da Costa Oliveira, investigador que trabalhou mais de 40 anos na extinta Junta de Energia Nuclear.

Recentemente o partido PAN – Pessoas, Animais e Natureza apresentou queixa contra o Estado espanhol à Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa pela decisão de prolongar o funcionamento da central nuclear de Almaraz, justificando que contraria as convenções internacionais. A 100 quilómetros da fronteira com Portugal, e junto ao Tejo, a central de Almaraz, cujo ciclo de vida terminou em 2010, viu o prolongamento do funcionamento ser aprovado até 2028.
O partido alega que “permitir, passivamente, a continuidade do funcionamento da central de Almaraz é mais uma prova de como as vantagens económicas para os grandes grupos do sector energético se sobrepõem ao bem-estar das pessoas e do ambiente”. Em conversa com O MIRANTE, Jaime da Costa Oliveira, investigador que trabalhou mais de 40 anos na extinta Junta de Energia Nuclear, considera que os vizinhos espanhóis, ao contrário do que se passa no nosso país, mantêm capacidade científica e técnica para equacionar as questões relacionadas com o funcionamento de centrais como a de Almaraz. E diz-se “perfeitamente tranquilo”, esclarecendo que a questão do ciclo de vida não é linear.
De acordo com o investigador, qualquer empreendimento económico é estudado fazendo hipóteses em particular sobre o tempo de duração da instalação. O que não significa que, atingido esse período contemplado quando se toma a decisão de se investir na construção, não esteja em condições de continuar a funcionar. “Se a manutenção foi feita como deve ser a instalação poderá ser de novo licenciada para continuar a laborar. Isto tem-se verificado em vários países, nomeadamente nos Estados Unidos da América onde numerosas centrais atingiram o tal limite previsto e os respectivos proprietários requereram novos licenciamentos para prolongar o tempo de exploração”.

“O risco existe sempre na nossa vida”
Para Jaime da Costa Oliveira, a animosidade das pessoas para com o nuclear prende-se com a associação que fazem entre energia nuclear e a sua utilização militar. Apesar de já terem passado várias dezenas de anos, a opinião pública recorda os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki e está pouco receptiva à utilização do nuclear como fonte de energia.
Os acidentes de Chernobil, na Ucrânia (1986), e, mais recentemente de Fukushima (2011), no Japão, também vieram expor as fragilidades do nuclear. “Não diria que a tecnologia, em si, não seja relativamente robusta face a outras alternativas, o risco existe sempre na nossa vida, é mais uma questão de interpretação da opinião pública sobre o que está em jogo”, refere Costa Oliveira.
O investigador explica que a noção de risco é complicada e envolve um conceito de probabilidade e outro de consequência. “As pessoas olham para as consequências. A probabilidade é um conceito que não é fácil de entender, em geral. E, por conseguinte, tentar explicar os riscos relativos de várias opções, neste caso opções de produção de energia eléctrica, não é tarefa fácil”, considera.
O autor sublinha que o aproveitamento da energia nuclear está praticamente posto de parte em Portugal. A capacidade de acompanhamento da evolução da tecnologia nuclear do país está muito reduzida e não tem sido feito qualquer investimento. A aposta dos sucessivos governos tem sido nas energias renováveis. Além de ser um tema polémico que não deixa indiferente a opinião pública, exige também investimentos elevados e o país não possui robustez financeira.
A nível internacional, considera que a energia nuclear vai continuar a ser uma alternativa contemplada em vários países como já acontece um pouco por toda a Ásia, com destaque para a China, sobretudo para produção de energia eléctrica. O autor lembra ainda que as radiações “controladas” têm ajudado a comunidade médica em métodos de diagnóstico e em algumas terapêuticas.

Defensor do nuclear e amante da paz

Com 81 anos, Jaime da Costa Oliveira nasceu no ano em que começou a Segunda Guerra Mundial, mas diz-se um amante da Paz. Licenciado em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Lisboa com o doutoramento em Física Nuclear pela Universidade de Paris, ocupou durante a sua vida profissional vários cargos relacionados com a investigação de energia nuclear. Através da chancela de O MIRANTE publicou três obras relacionadas com o tema, a última das quais “A Energia Nuclear em Portugal - Uma Esquina da História”, lançada em 2003, ano em que se aposentou. Actualmente tem em mãos a redacção da biografia do professor Francisco de Paula Leite Pinto, professor universitário, engenheiro, escritor e político português no período do Estado Novo, grande promotor dos estudos da energia nuclear em Portugal.

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