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“As assembleias municipais são um teatro  e a disciplina de voto é lamentável” 
Irina Batista é a segunda mulher a presidir a Assembleia Municipal de Benavente

“As assembleias municipais são um teatro  e a disciplina de voto é lamentável” 

Irina Batista é a segunda mulher a presidir a Assembleia Municipal de Benavente. Em entrevista diz que gosta de agir e pensar livremente, por isso incomoda-a a disciplina de voto partidária. Nega estar a impedir a transmissão das assembleias pela Internet, fala de perseguição ao presidente do município, Carlos Coutinho, e não esconde que está indisponível para assumir novamente o cargo, porque trabalhar em desunião não a deixa “particularmente feliz”.

Edição de 30.09.2020 | Entrevista

Irina Batista, 41 anos, está a cumprir o seu primeiro mandato como presidente da Assembleia Municipal de Benavente. Nos dois anteriores foi segunda e primeira secretária do mesmo órgão autárquico, depois de ter entrado para a política a convite de dois antigos camaradas do PCP. Não se fez logo militante porque não quis seguir uma doutrina partidária antes de perceber se era essa com a qual se identificava. Na primeira entrevista que dá a O MIRANTE, enquanto presidente da Assembleia Municipal de Benavente, defende-se de críticas por terem passado três anos de mandato sem que tenha posto em prática a transmissão das sessões via Internet. Uma deliberação tomada em 2018 e que, admite, “já anda embrulhada há tempo demais” e lhe “faz urticária”.
“Também gostava que o processo fosse mais célere, mas está dependente da câmara municipal, porque a assembleia não tem um orçamento próprio”, diz, sublinhando, que “não vê qualquer problema em haver transmissões pela Internet”. Mas ressalva que esta medida em nada vai contribuir para a resolução dos problemas da população. “Para que isso possa acontecer, têm de ir lá, presencialmente, para exporem as suas ideias e problemas”, diz.
Durante os 75 minutos que durou a conversa no Parque 25 de Abril, em Benavente, onde brincava nos tempos de criança, Irina Batista foi sempre falando da falta de união entre as forças políticas que têm assento na assembleia municipal. Ainda se considera “verdinha” na política e confessa que aceitou este cargo por achar que “mesmo havendo partidos diferentes tudo ia funcionar como um grupo de trabalho”, o que na sua óptica não acontece. “Há pessoas com as quais não se consegue trabalhar e que só querem atacar”, diz.
Evita falar de nomes, mas não se escusa a identificar o Partido Socialista como aquele com o qual “não se consegue trabalhar ou sequer ter uma conversa”. Porquê? “As pessoas que o representam não estão disponíveis para isso”. E, por isso, acrescenta que por mais que tente conseguir unir as diferentes forças partidárias e pô-las a “trabalhar em equipa” em prol do concelho esse é um “objectivo que fica por cumprir” neste mandato.

“Na assembleia municipal arregaçamos pouco as mangas”
É por isso, ou melhor, também por causa disso que avisa não estar disponível para voltar a assumir o cargo, tendo já informado o partido dessa decisão. Depois aponta outras razões: “Estar neste cargo não é algo que me faça particularmente feliz. Sou uma mulher dada ao trabalho e na assembleia municipal arregaçamos pouco as mangas. Damos o nosso contributo, fiscalizamos, mas concretamente não executamos nada. Se houvesse trabalho em equipa podíamos fazer mais pelo concelho”.
Mas as posições extremadas entre PS e CDU vão continuar, assim como a “lamentável perseguição ao presidente Carlos Coutinho”. Algo que a incomoda e considera uma falta de respeito por “uma pessoa humilde, com valores, que trabalha para a comunidade e não para ter protagonismo”. Até nos comentários de café e redes sociais sobre o que está mal no concelho, já se sabe que aparece a frase “a culpa é do Coutinho”. “É a oposição a jogar sujo, muito sujo”, resume.
É Irina Batista quem traz para a conversa a sua profissão - educadora de infância - para explicar que “é mais fácil meter ordem numa sala com 20 crianças do que numa assembleia municipal”. Diz que não ensaia discursos políticos e que não gosta de mandar recados por indirectas, algo que é recorrente entre os eleitos. “As assembleias municipais são um teatro e a disciplina de voto é lamentável. Sou sempre a mesma e não sei representar. Se quisesse fazê-lo inscrevia-me num grupo de teatro”, diz.
Questionada acerca do que pensa sobre a disciplina de voto, e depois de vincar que “infelizmente existe” e está muito presente no órgão autárquico que lidera, Irina Batista aponta uma vez mais o dedo ao PS. “Já aconteceu nas assembleias da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT) votarem um ponto a favor e chegarem à assembleia municipal e votarem contra o mesmo ponto. A resposta que ouvi? A política é mesmo assim”, critica, defendendo que quem está na política deve colocar os interesses do concelho acima dos partidários.
A assembleia municipal de 29 de Junho surpreendeu-a pelo número de pessoas que foram assistir e quiseram usar da palavra. Sobre os motivos que levaram mais de meia centena de munícipes até ali, reclamar do ambiente de insegurança causado por uma comunidade local que vive em terrenos cedidos pela câmara municipal, Irina declara: “Se esses indivíduos não sabem viver em sociedade têm de ser penalizados por isso. Não digo expulsá-los para fora do concelho, porque não temos legitimidade para o fazer, mas dos terrenos camarários. A câmara municipal não pode compactuar com isto e a GNR tem de actuar”.
Não é fundamentalista, nem defende que tudo vai bem no concelho onde nasceu e onde vive e trabalha. O desenvolvimento do turismo, por exemplo, está a precisar de um empurrão e se lhe coubesse a si gerir o actual orçamento municipal investia numa praia fluvial e em piscinas descobertas. “Temos eventos que trazem pessoas, mas são pontuais e para evoluir precisamos de algo que traga pessoas e ajude o comércio local, cafés e restaurantes”, justifica, lamentando que a população tenha de ir para outros concelhos, deixando Benavente deserto no Verão.

Deixar de viver em Benavente é impensável

Irina Batista nasceu há 41 anos em Benavente e só deixou de viver na vila para ir para Vila Real, em Trás-os-Montes, tirar o curso superior de educadora de infância. Trabalhou 16 anos na creche e jardim-de-infância da Fundação Padre Tobias, em Samora Correia, e agora prepara-se para abraçar um novo desafio profissional. Candidatou-se ao ensino público e espera por colocação numa zona que diste não mais que hora e meia de Benavente. Deixar de viver na vila é “impensável”, por causa da estabilidade familiar, algo que valoriza.
Vai todos os dias visitar os seus pais e despede-se sempre dos filhos com um abraço. Ser mãe e presidente da assembleia municipal já a levou a fazer uma promessa: na última sessão do actual mandato vai levar o filho, de 12 anos, e a filha, de 9, para assistirem aos trabalhos, a pedido deles.
Foi atleta de ginástica acrobática no Clube União Artística Benaventense (CUAB) onde é dirigente associativa há nove anos. Depois de deixar a ginástica passou a frequentar o ginásio e todos os dias faz uma aula de crossfit. É vice-presidente da associação de pais do Agrupamento de Escolas de Benavente e diz que desde que se meteu na política os convites para integrar associações aumentaram.

“As assembleias municipais são um teatro  e a disciplina de voto é lamentável” 

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