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Gratidão ainda é um sentimento que está na moda
Como médico de família João Pita Soares já sentiu gratidão dos pacientes. Sónia Cipriano diz que as ofertas no Natal e na Páscoa são um hábito. Para Maria Emília Rufino todos ficam a ganhar quando há gratidão

Gratidão ainda é um sentimento que está na moda

O MIRANTE foi ao encontro de profissionais que já sentiram na pele a gratidão daqueles que ajudaram. A expressão de um sorriso grato ou até a oferta de um animal vivo são formas de agradecimento, mas se a primeira não levanta problemas, a segunda contraria as regras dos códigos de ética.

Edição de 02.11.2020 | Sociedade


João Pita Soares, médico de família desde 1982, não esquece um episódio que aconteceu em São José da Lamarosa, Coruche, quando uma utente entrou pela extensão de saúde com um borrego ainda vivo. “Levei o animal para casa, esteve alguns dias no quintal, mas acabei por dá-lo, porque ao vê-lo ali vivo já não o conseguia comer”, conta entre risos.
O clínico lembra ainda os perus e as galinhas que lhe eram oferecidos como sinal da gratidão de tudo o que tinha feito pelos seus doentes. É nas aldeias que estas demonstrações de carinho e gratidão mais ocorrem. “No campo há esta cultura. Não fazem com segundas intenções. Apenas para demonstrar que reconhecem o trabalho e a dedicação que, como médicos de família, lhes prestamos. São pessoas muito genuínas”, sublinha João Pita Soares.
A trabalhar em Santarém, na Unidade de Saúde Familiar Almeida Garrett, que coordena há cerca de 10 anos, o clínico diz que na cidade estes gestos são menos comuns, mas os que ainda existem são mais “refinados”. Se nas aldeias imperam os animais, muitas vezes vivos, para mostrar que foram bem-criados, na cidade as ofertas passam por chocolates, garrafas de vinho, um queijo, ou amêndoas na Páscoa.
“Um médico de família está muito próximo da população. Além das patologias clínicas, somos muitas vezes psicólogos e mediadores de conflitos. E se, por acaso, conseguimos resolver um destes problemas, trata-se de saúde e bem-estar e as pessoas ficam-nos eternamente gratas”, explica Pita Soares.
As palavras e, sobretudo, os sorrisos são outra forma de gratidão. “Olhar para uma pessoa e dizer-lhe que o resultado de uma análise está muito melhor, depois de ter seguido as minhas indicações para recuperar de um quadro clínico menos bom que lhe tinha diagnosticado, e ver as lágrimas de alívio e felicidade é muito comovente e gratificante”.
“Lembraram-se de mim no momento de maior felicidade, e isto é impagável”
Sónia Cipriano, enfermeira do Centro de Saúde do Planalto, em Santarém, já perdeu a conta ao número de fotografias e vídeos que recebe por parte de casais que tiveram filhos e que foram seguidos por si durante a gestação. “Ainda há pouco tempo recebi uma mensagem de um pai com um vídeo a mostrar as primeiras imagens do filho pouco depois de nascer. Lembraram-se de mim no momento de maior felicidade, e isto é impagável”, explica a enfermeira.
Os presentes no Natal e na Páscoa não falham. “Há utentes que, por terem patologias que requerem vigilância recorrente, vêm muitas vezes ao centro de saúde e são quem, nas épocas festivas, traz sempre uma prendinha”, refere. Há até alguns que sabem e não esquecem o dia do seu aniversário.
Não aceitar estas oferendas é uma regra inerente à profissão, mas “é muito difícil fazer com que as pessoas percebam que não posso aceitar, não porque não queira, mas porque é proibido perante o código deontológico do enfermeiro”, aponta Sónia Cipriano. Por esta razão, é frequente ser surpreendida com os presentes deixados em cima da secretária no seu gabinete.
A enfermeira recorda também um episódio que a marcou para o resto da vida. “Foi há mais de 10 anos. Estava na extensão de saúde de Achete quando entra pelo consultório uma utente com um coelho vivo. Fiquei espantada a olhar e só consegui dizer ‘coitadinho do bicho, não posso aceitar porque nunca o vou conseguir matar’. A senhora saiu do consultório e voltou duas horas depois já com o animal morto e esfolado”, recorda entre gargalhadas.

Agradecer com um anúncio no jornal
Agradecer pela dedicação e empenho colocado numa profissão é raro. Principalmente quando esta acção vem da direcção de uma empresa ou instituição. Mas ainda acontece. Exemplo disso foi o que a direcção do Lar de Santo António, em Santarém, fez. Maria dos Prazeres Louro, com mais de 80 anos, e desde os anos 60 a dedicar-se à instituição, foi alvo de um acto de gratidão, quando se retirou. Na hora da despedida a direcção colocou um anúncio de agradecimento em O MIRANTE.
“Foi a primeira vez que fizemos algo do género. Mas sentimos mesmo vontade em fazê-lo. Esta senhora merece tudo e isto não é nada perante a enorme gratidão que lhe temos”, aponta a presidente da direcção do Lar de Santo António, Emília Rufino. “Penso que é algo que patrões e directores deviam fazer. Ficamos todos a ganhar quando há gratidão”, conclui.

Estela Freitas gostaria de ver mais estabelecimentos com livro de elogios

“As pessoas têm o hábito de reclamar mas raramente elogiam quem faz bem”

Estela Freitas faz questão de deixar elogios por escrito quando é bem atendida

Estela Freitas tem a palavra “obrigada” sempre na ponta da língua. É uma questão de educação e um hábito que recusa largar, por entender que faz a diferença no dia de quem a recebe. Sempre que entra num serviço público ou estabelecimento comercial e é bem atendida, além de agradecer pessoalmente faz questão de deixar um elogio por escrito.
Já elogiou, por escrito, agentes da PSP, funcionários da Segurança Social, médicos, enfermeiros e auxiliares de acção médica. A última vez que o fez foi a 23 de Setembro a um funcionário da Junta de Alverca do Ribatejo. “Teve uma atitude louvável ao chamar à atenção de uma pessoa que circulava sem máscara no mercado de Alverca. E embora a pessoa o tenha ignorado e desrespeitado não desistiu até que a viu fora do espaço”, conta.
Natural de Chaves e a residir há mais de 20 anos em Alverca do Ribatejo, Estela Freitas diz que nem sempre é fácil encontrar estabelecimentos com livro de elogios. “Devia ser obrigatório, tal como é o livro de reclamações”, defende, lamentando que o elogio não tenha o mesmo espaço na sociedade que tem a crítica.
Com a pandemia tem agradecido ainda mais e conta um episódio em que elogiou e acabou a ser insultada: “Agradeci à funcionária de um hipermercado por estar ali e a senhora de trás insultou-me porque, disse-me, não fazia mais do que a obrigação dela”. Uma prova, diz, de que “as pessoas não estão habituadas a receber ou ouvir elogios e quando isso lhes acontece não sabem como reagir”.

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