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É uma vergonha não haver cinema em Vila Franca de Xira
Artur Pinheiro é um rosto conhecido em Alhandra e muitos filmes nacionais e estrangeiros contam com a sua assinatura

É uma vergonha não haver cinema em Vila Franca de Xira

Artur Pinheiro é um dos mais requisitados directores de arte do país e o vencedor deste ano dos prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema. Foi em 2019 júri técnico dos prémios europeus de cinema. Nunca recebeu um ordenado fixo na vida e divide o trabalho entre o cinema, teatro, televisão e publicidade. Diz que Vila Franca de Xira tem potencial para ser a cidade nacional do cinema e confessa vergonha por ver o estado de abandono em que se encontra o teatro municipal Salvador Marques em Alhandra. Uma conversa com O MIRANTE à beira Tejo num sábado ameno de sol.

Edição de 02.11.2020 | Entrevista

O concelho de Vila Franca de Xira devia aproveitar e saber capitalizar a existência dos estúdios de Vialonga criando uma verdadeira cidade do cinema, que desse resposta às produtoras da capital que precisam de novos lugares onde filmar. A convicção é de Artur Pinheiro, director de arte, natural de Alhandra. Artur não tem dúvidas que o concelho seria o local ideal para ser o centro de toda a produção televisiva e cinematográfica nacional.
“Seria uma excelente ideia. O concelho é muito apetecível e tem condições para um projecto desse nível. Tem proximidade a Lisboa e ao aeroporto, boas infra-estruturas, seria um bom destino para uma cidade do cinema. Há mais facilidade em fechar aqui ruas para filmar do que em Lisboa”, defende a O MIRANTE.
Artur Pinheiro lembra que a Lisbon Film Commission está sobrecarregada de pedidos para filmar na capital e que muitas produtoras começam a olhar em volta em busca de alternativas. “Vila Franca de Xira devia saber capitalizar isso. A Fábrica das Palavras, por exemplo, é um equipamento muito requisitado. O cinema é uma mais valia e uma oportunidade. Vila Franca devia estar mais aberta a esse mercado”, defende.
Artur Pinheiro tem 48 anos e um percurso vasto na direcção de arte. Em 2019 foi júri técnico dos prémios europeus de cinema. Este ano venceu o prémio Sophia da Academia Portuguesa de Cinema com o filme “O Grande Circo Místico”, uma produção brasileira filmada em Portugal. Mas tem no currículo outras vitórias, nos prémios ABC de cinematografia, já venceu o grande prémio do cinema brasileiro, os prémios europeus CineEuphoria, o Coimbra Caminhos do Cinema Português e esteve nomeado para os prémios Fénix, o prémio Guarani e o prémio Platino de cinema ibero-americano.

Teatro Salvador Marques podia ser a melhor sala do concelho
Artur Pinheiro diz que Alhandra melhorou e que há um rejuvenescimento da população mas ainda não chega. É preciso maior dinâmica e trazer mais jovens para evitar que a vila definhe. Sente vergonha por ver o teatro municipal Salvador Marques ao abandono e considera o edifício “uma pedra no sapato” das pessoas de Alhandra. Ele próprio começou a ver cinema naquele espaço e diz não compreender como é que ainda não foi dado um destino ao teatro, que tem potencialidade para ser a melhor sala de espectáculos do concelho.
“Durante anos fiz parte de uma associação de defesa do património e já na altura alertávamos para a degradação do teatro. Chegámos a fazer, nos anos 90, uma exposição sobre o Salvador Marques que apresentámos no museu de Alhandra. Na altura parecia haver interesse em recuperar o teatro, era um assunto na ordem do dia, mas foi morrendo”, lamenta.
Artur Pinheiro considera que está na hora do município meter mãos à obra e recuperar o espaço. E dá como exemplo o que a Câmara de Lisboa fez na recuperação do teatro Thalia. “Sinto que Alhandra e o concelho em geral tem perdido capacidade de manter e atrair população jovem. Foi-se perdendo alguma actividade cultural que ainda mantinha os jovens activos”, lamenta.

“Nunca ganhei um ordenado fixo”
Artur Pinheiro, director de arte, confessa que nunca teve um ordenado fixo na vida e que vive à custa de muito trabalho e investimento pessoal. Há artistas subsidiados que conseguem trabalhar nas poucas vagas institucionais que existem, mas a maioria não vive assim, conta a O MIRANTE. A sociedade portuguesa ainda não percebeu a importância que a cultura tem como factor de desenvolvimento e exportação. “Felizmente só fiquei três meses sem trabalhar, mas tenho colegas que ainda não retomaram a sua actividade normal e ainda estão a viver mal e sem rendimentos”, lamenta.
Confessa que a classe cultural em Portugal vive num limbo, sem caracterização a nível fiscal e de segurança social. Diz que as plataformas de streaming estão a obrigar a produzir cada vez mais conteúdos de cinema e televisão e que isso é positivo. “Este só não foi um ano recorde para a produção nacional porque aconteceu a pandemia. Tive vários projectos para os quais estava convidado que tiveram de ser adiados”, nota.

Um sportinguista apaixonado por cinema

Artur Pinheiro é natural de Alhandra, é casado e tem dois filhos. Há cerca de dez anos mudou-se para Arruda dos Vinhos, vila vizinha onde os filhos estudam. Em criança queria ser arquitecto. Foi estudar design gráfico mas não sentiu o apelo da profissão. Foi quando concorreu à Escola Superior de Teatro e Cinema que se dedicou por inteiro à direcção de arte. Começou a trabalhar na carpintaria e pintura dos cenários até ser director de arte num telefilme da SIC.
Faz compras regularmente no concelho de Vila Franca de Xira mas confessa que quando precisa de uma boa livraria tem de ir a Lisboa. A sua viagem de sonho será à Ásia. Em casa vê de tudo, desde cinema mudo aos mais recentes sucessos americanos. Tem dificuldade em separar o olho técnico do olho do espectador.
“A Vida é Bela” de Roberto Benigni é o filme da sua vida. “Mais do que isso é o filme que marcou a minha família. Não é só meu, é de todos nós, vemos o filme com muita frequência”, confessa o homem para quem a ignorância o tira do sério. Diz que é uma vergonha não haver um cinema em Vila Franca de Xira e que o antigo IMAX do Vila Franca Centro foi uma aposta errada no momento errado.

A eterna arte de fazer omeletes sem ovos

Venceu o Prémio Sophia. Isso mudou-lhe a vida?

Os prémios são sempre importantes. É bom para o público perceber o que está por trás de uma produção de cinema. Uma equipa normal tem geralmente 35 pessoas. Continuamos a ter de fazer muita coisa com muito pouco. O reconhecimento foi especial porque o filme ultrapassou fronteiras e foi muito compensador.

O produtor Paulo Branco recusou receber o prémio em protesto contra as “pequenas guerrilhas, golpes e invejas” entre profissionais do sector. Concorda?

Não se pode dizer que o discurso dele tenha sido completamente errado. Podíamos fazer muito mais pelo cinema, quer os profissionais quer as entidades que o tutelam. Mas o mensageiro foi o errado e nem sempre faz o que apregoa.

Há quem diga que o cinema nacional continua aquém das produções estrangeiras, em fotografia, na qualidade dos diálogos, etc...

Ainda se dá muita prevalência ao cinema de autor porque o dinheiro não é muito. Fazemos filmes com menos de 500 mil euros enquanto qualquer outra produção independente europeia não se faz por menos de um milhão de euros. Fazemos muito com os poucos ovos que temos, por isso o público português não pode querer ver no nosso cinema o que vê numa produção americana, que além dos blockbusters também tem produções independentes. E aí não ficamos nada atrás. Temos uma grande qualidade e muitos jovens a aparecer com talento, estamos quase sempre a ganhar prémios internacionais. A nossa conterrânea Leonor Teles é disso exemplo.

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