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“O que há mais nos dias de hoje é ecopalermice”
Luís Rosa criou a Ambitrevo em 2007 para responder à crescente produção de resíduos orgânicos

“O que há mais nos dias de hoje é ecopalermice”

Luís Rosa, 49 anos, é sócio-gerente da Ambitrevo - Soluções Agrícolas e Ambientais, Lda. em Agolada, Coruche. Natural de Marinhais, terra onde sempre viveu, formou-se em engenharia agrónoma na Escola Superior Agrária de Santarém e sente-se orgulhoso de ter optado por uma área profissional que está há duas décadas em crescimento: a valorização e reciclagem de resíduos orgânicos. Confessa que não tem sido um percurso fácil, sobretudo à conta de informações falsas nas redes sociais e da inércia dos organismos oficiais.

Edição de 02.11.2020 | Três Dimensões

No ensino secundário estudei em Salvaterra de Magos e em Coruche, no curso técnico profissional de agro-pecuária. Era o único aluno de Marinhais. Tinha que ir para Salvaterra de Magos de madrugada, numa pequena motorizada, depois apanhava ali o autocarro para Coruche. Apesar das dificuldades foi uma época maravilhosa e aprendi a gostar da área da agronomia, para a qual também fui “empurrado” pelo meu pai, que toda a vida esteve ligado à exploração agro-pecuária e foi negociante de gado.
Contam as pessoas que trabalhavam com o meu pai, porque eu não me lembro, que desde os 6 anos andava com ele no camião a carregar palha. As minhas férias da escola, até acabar o curso de engenharia agrónoma na Escola Agrária, em Santarém, foram passadas a trabalhar. Andava sempre desertinho que começassem as aulas.
Assim que fiz 18 anos tirei a carta de ligeiros. O meu pai comprou uma carrinha para o acompanhar nas idas ao Alentejo, onde comprava palha e animais. Aos 21 tirei a carta de pesados para andar com um camião. Ele era um negociante astuto, mas sério. Ia com um saco de dinheiro e toda a gente o conhecia e o tratava muito bem. Por vezes no mesmo mercado comprava e vendia o gado que nem chegava a transportar.
O meu primeiro emprego foi numa empresa francesa que fazia em Portugal a gestão de lamas de ETAR. Trabalhava na zona do Ribatejo em contacto com agricultores, para fazer a gestão de resíduos orgânicos. Estávamos em 1996. Foi a partir daí que se deu o ‘boom’ das Estações de Tratamento de Águas Residuais.
Em 2007 optei por criar um negócio próprio, com um sócio. Assim nasceu a Ambitrevo. O objectivo foi encontrar uma solução de valorização e de reciclagem para a crescente produção de resíduos orgânicos. Sabia que estava para breve nova legislação que obrigava as empresas que faziam o tratamento de lamas de ETAR a ter uma plataforma de compostagem. Iniciei contactos com proprietários da região e investi numa infraestrutura de apoio. Foi feita a plataforma de compostagem, com dois hectares.
Tive a felicidade de começar a trabalhar numa área que desde há 23 anos esteve sempre em crescimento. O que me angustia mais nesta actividade é a dificuldade no cumprimento de algumas questões legais que se prendem com uma inércia dos organismos oficiais. As empresas do sector têm sentido dificuldade em conseguir cumprir escrupulosamente com todos os requisitos da legislação e as multas são brutais.
O que há mais nos dias de hoje é ecopalermice. As pessoas embarcam em tudo o que ouvem e muitas vezes as coisas não são tão más como querem fazer parecer. As redes sociais fazem correr muitas informações falsas. O que a legislação acautela está 100% correcto, a saúde pública, o ambiente os solos, os recursos hídricos... Mas pressupõe que se obedeça a um processo de licenciamento que não se coaduna com a realidade no terreno.
Portugal produz cerca de um milhão de toneladas de lamas de ETAR por ano. E ainda não temos todo o país coberto por uma rede de infra-estruturas de saneamento e tratamento de águas. As lamas têm que ser consideradas um bio-recurso que, como tudo na vida, deve ser usado com conta, peso e medida. Têm que se aplicar nas doses certas de acordo com o que as plantas extraem do terreno.
A valorização dos resíduos orgânicos é fundamental. É um recurso que não podemos desperdiçar. O nosso clima degrada muito rapidamente a matéria orgânica dos solos e é importante este aporte de matéria orgânica.
Em Portugal existem metas para, até 2023, os resíduos orgânicos de nossas casas também serem recolhidos selectivamente. Com a obra que está em curso a Ambitrevo está a munir-se de condições para dar resposta aos bio-resíduos.
Nunca se faz o suficiente pelo ambiente, mas tento fazer o melhor possível. Conduzo um carro híbrido, tenho painéis solares em casa e na empresa. O centro de compostagem está a ser ampliado para triplicar a capacidade e vai ser tudo automatizado. Vamos acabar com as máquinas a diesel e investir em soluções eléctricas.
Como passatempo passeio de moto e faço parte do grupo de adeptos da BMW. Gosto sobretudo de passear em África, embora nunca me tenha aventurado além de Marrocos. Um dia quero ir até ao Senegal e à Guiné-Bissau.
Gosto de fazer uma viagem grande de mota por ano e outra viagem em família para um destino de calor. A última estava programada para a Páscoa, a Zanzibar, mas ficou sem efeito por causa da pandemia.
O dia de trabalho é, invariavelmente, das 08h00 às 20h00. Quando acabo tenho a noção que deveria ir praticar desporto, mas a maior parte das vezes fico confortavelmente no sofá a ver um filme com a minha mulher.

“O que há mais nos dias de hoje é ecopalermice”

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