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Retalhos da vida de uma médica no combate à pandemia
foto DR Para Mafalda Santos a Covid está a ser um dos maiores desafios da medicina

Retalhos da vida de uma médica no combate à pandemia

Mafalda Santos, profissional no Hospital Distrital de Santarém, diz que momento mais complicado foi quando descobriu estar infectada com Covid-19. “Ficamos com um rótulo, ninguém se quer aproximar e interrogamo-nos como ficámos infectados”, conta. No início da pandemia esteve 52 dias sem ver os filhos.

Mafalda Santos é médica de Medicina Interna e Intensiva do Hospital Distrital de Santarém e integra uma das duas equipas que tratam apenas doentes infectados com Covid-19. A distância da família e ficar em casa sozinha sem poder ajudar os colegas por estar infectada foi o mais difícil de lidar.
O momento mais complicado de toda a pandemia foi quando Mafalda Santos testou positivo à Covid-19. Febre, dores musculares como nunca tinha sentido, ausência de olfacto e de paladar e sensação de desequilíbrio foram os sintomas que teve e que duraram entre cinco a sete dias. Ao final de sete dias repetiu o teste que voltou a dar positivo. Como é profissional de saúde, apesar de nessa altura já estar assintomática, ficou mais dez dias em isolamento.
A médica, de 41 anos, recorda a O MIRANTE que o momento em que ouviu “és positiva” foi horrível. “Deve ser uma sensação semelhante à sentida pelos doentes com lepra ou com infecção por VIH. Ficamos com um rótulo. Ninguém se quer aproximar e interrogamo-nos como ficámos infectados”, afirma.
Mafalda Santos confessa que ter que ficar em casa, sozinha e sem poder ajudar, foi uma sensação de impotência e inutilidade. “Sabia que era preciso estar de serviço e ajudar os meus colegas na luta diária contra a doença, esta e outras. Além disso, custou ter que estar afastada daqueles que mais amo, sem saber quando lhes poderia voltar a dar um abraço”, afirma emocionada.

52 dias sem ver os filhos
No início da pandemia esteve 52 dias sem ver os filhos, de 13 e 9 anos, para os proteger. Teve uma semana de férias a fazer voluntariado em São Tomé e Príncipe e regressou a Portugal a 7 de Março, uns dias antes do início do primeiro confinamento. Em Julho conseguiu ter duas semanas de férias com os filhos. “Não foram as férias que planeámos mas conseguimos desfrutar da companhia uns dos outros dentro das limitações. Ainda me faltam gozar dez dias de férias que não sei se vai ser possível”, refere.
A médica teve medo na primeira vaga. Medo de infectar os seus familiares e amigos, por isso afastou-se. Agora lida melhor com a situação mas continua a proteger-se e aos seus. O que mais lhe custa lidar no seu dia-a-dia é a ausência de comunicação presencial dos familiares dos doentes. “Os doentes precisam das visitas dos seus familiares num momento em que estão tão frágeis. Precisam destas visitas até para melhorarem e reorientarem-se na nova realidade agressiva de estar hospitalizado, sobretudo quando se trata de um doente crítico”, afirma.
Outra das situações difíceis para Mafalda Santos é quando, apesar do investimento máximo do médico, não é possível impedir a morte do doente. A médica considera que a doença está a ser um dos maiores desafios da medicina e da ciência a nível mundial. Na sua opinião, o comportamento do vírus dependa da individualidade de cada pessoa que é infectada. “Para além dos doentes Covid tenho visto situações de doentes, agora chamados não Covid, chegarem tardiamente ao hospital e, muitas vezes, em estado irreversível. A sensação de impotência, o desalento e o desânimo começam a dominar os sentimentos dos profissionais de saúde. Mais do que o cansaço físico poderemos assistir a casos de esgotamento nesta classe de trabalhadores”, alerta.

Vacinação em massa é crucial para atingirmos imunidade de grupo

O dia de Natal de Mafalda Santos foi passado a trabalhar, como tem sido hábito nos 18 anos como médica. Os jantares de Natal com a família foram divididos, para serem menos pessoas juntas, e aconteceram a 22 e 23 de Dezembro. Decorreram em espaços grandes para respeitarem o distanciamento necessário sobretudo para os mais velhos que também participaram nas refeições.
“Este Natal acabou por ter um sabor diferente. Damos mais valor aos afectos e ao poder de um abraço. A minha avó questionou a data do jantar de família, mas acabou por dizer que foi um dos melhores Natais de sempre”, conta a médica. O Ano Novo também foi passado a trabalhar.
Mafalda Santos defende que a vacina pode dar-nos tempo e permitir um regresso à normalidade. “O início da vacinação dá-nos a todos esperança. Aquela lufada de ar fresco que estava em falta. Não podemos esquecer que a mudança de comportamentos deverá estar enraizada. Talvez a máscara não deixe completamente de fazer parte da nossa indumentária, não em todos os ambientes, mas na maioria deles”, sublinha, acrescentando que é crucial uma vacinação em massa para atingirmos a imunidade de grupo.

Desde Março na linha da frente

No início de Abril, poucas semanas depois da chegada da pandemia a Portugal, O MIRANTE conversou por videochamada com Mafalda Santos que integrou desde a primeira hora a equipa de combate ao vírus no Hospital Distrital de Santarém. Na altura não via a família desde 12 de Março e apesar de afirmar que a situação estava controlada no HDS já se notava o cansaço no seu olhar e admitia que as semanas seguintes podiam complicar. O vaticínio concretizou-se, nas semanas e nos meses seguintes, tendo a própria contraído o vírus. No início do ano voltámos à conversa com Mafalda.

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