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Pandemia arrasa clubes e afasta jovens da prática desportiva
As modalidades da Sociedade Euterpe Alhandrense perderam cerca de 30% dos atletas. Hóquei Clube Os Tigres de Almeirim teme a redução do rendimento desportivo da modalidade. Vitória de Santarém perdeu uma centena de atletas no último ano. O basquetebol feminino da UDRZA, em Torres Novas, já viveu melhores dias

Pandemia arrasa clubes e afasta jovens da prática desportiva

O cancelamento das competições de desporto jovem afastou grande parte dos atletas dos clubes da região. Dirigentes antevêem um cenário negro para as contas dos clubes e receiam pela saúde dos jovens que, inevitavelmente, vão tornar-se mais sedentários. O MIRANTE traça um panorama da nova realidade com dirigentes do Vitória de Santarém, UD Zona Alta, Sociedade Euterpe Alhandrense, Tigres de Almeirim e Associação de Futebol de Santarém.

O número de atletas inscritos nos clubes e associações desportivas da região caiu, em média, para metade em relação à última época. A pandemia obrigou ao cancelamento das competições no desporto de formação o que, principalmente por razões de motivação, afastou os atletas das colectividades. Os dirigentes perspectivam um cenário negro para as contas das associações e receiam pela saúde dos jovens que, sem treinar, vão tornar-se mais sedentários.
António Pardelhas, presidente do Vitória de Santarém, clube que é referência no futsal de formação, confessa-se abatido pelo momento que o clube vive. Em menos de um ano as camadas jovens perderam cerca de um centena de atletas. As despesas, naturalmente, também reduziram, mas não o suficiente para garantir os recursos financeiros necessários para lidar com a perda de receitas.
A maior parte dos pais deixou de pagar as mensalidades, embora os treinadores continuem a receber pelo seu trabalho, apenas com uma diferença: estão a treinar meia dúzia de atletas por escalão, em vez dos habituais 15 ou 20. “É muito difícil manter a rentabilidade dos treinos com este número de atletas”, lamenta.
António Pardelhas reconhece o momento difícil, mas apela à solidariedade dos pais para manterem o Vitória vivo. “Não podemos obrigar os pais a pagarem para os filhos andarem a treinar sem competir; mas vivemos momentos de excepção e o associativismo precisa da boa vontade de cada um para não morrer”, sublinha.
O basquetebol feminino da União Desportiva e Recreativa da Zona Alta (UDRZA), em Torres Novas, também já viveu melhores dias. Marco Cardoso, vice-presidente, afirma que a secção perdeu cerca de 20% dos atletas num universo de mais de meia centena. A UDRZA tem tido excelentes resultados desportivos nos últimos anos e a época avizinhava-se boa, mas a pandemia veio estragar os planos. “É impossível manter atletas adolescentes, que vivem da competição, com a mesma motivação para treinar”, refere.
Os pais têm sido solidários e a maioria continua a pagar as mensalidades, mas o dirigente deixa um alerta: “Estamos a trabalhar no fio da navalha. Por enquanto vamos conseguindo manter o clube a funcionar, mas não garanto que assim seja no futuro, uma vez que até Abril é provável que nada mude”.

“Se o desporto jovem não morreu,
vai a caminho disso”
As modalidades da Sociedade Euterpe Alhandrense perderam cerca de 30% dos seus atletas desde o início da pandemia. Jorge Zacarias, presidente da colectividade, confessa-se muito preocupado com este novo confinamento e com os efeitos desmotivadores que vai ter. “Também já fui atleta e uma das coisas que menos gostava era de treinar, como se costuma dizer, para encher chouriços. As federações têm de arranjar uma solução criativa para voltarem a dar competição aos atletas”, sugere.
A boa vontade dos técnicos da Euterpe Alhandrense, ao aceitarem reduzir significativamente o seu salário, tem permitido manter as contas em dia. Jorge Zacarias acredita que na temporada 2021/2022 a realidade vai melhorar, mas não tem dúvidas dos estragos que esta paragem vai ter nos atletas e nos clubes. “Vamos ter atletas que vão subir de escalão sem terem competido no actual. É um factor que tem um impacto muito negativo no desenvolvimento e na aprendizagem técnica da modalidade”, declara.
Indignado e desanimado. Estes são os adjectivos que melhor traduzem o estado de alma de José Salvador, presidente do Hóquei Clube Os Tigres, de Almeirim. “Se o desporto jovem ainda não morreu, está a caminho disso”, salienta. Num total de cerca de uma centena de atletas da formação resta agora pouco mais de metade. As maiores preocupações prendem-se com as características da modalidade, que exige muita prática e um sítio específico para treinar.
“O hóquei não se treina na rua. A patinagem é uma técnica que precisa de ser desenvolvida quase diariamente e vai haver uma geração com falta de bases que se vai traduzir no rendimento desportivo desta modalidade”, assegura.
José Salvador deixa como sugestão, caso estas condições se mantenham, adaptar as competições às estações do ano. “Está provado que entre Outubro e Março há mais perigo de contágio. Talvez se mudarem o calendário desportivo para os meses mais quentes, onde há menos casos, consigamos salvar esta geração de jovens”, conclui.

AF Santarém com menos 75% de atletas jovens inscritos

A Associação de Futebol de Santarém (AFS), responsável pelas competições de futebol e futsal no distrito, registou uma quebra de cerca de 75% de atletas jovens inscritos em relação ao período homólogo. “A AFS, em Janeiro de 2020, tinha perto de 10 mil atletas inscritos, sendo que cerca de oito mil pertenciam às camadas jovens. Actualmente temos apenas cerca de dois mil atletas jovens inscritos. É um quadro negro para as associações e clubes do distrito”, lamenta o presidente da AFS, Francisco Jerónimo. O maior desafio, na opinião do dirigente, é garantir que não se vai perder uma geração de atletas. “Todos sabemos das dificuldades dos atletas em subir para o escalão sénior. Sem competições, temo que os juvenis e juniores de hoje fiquem pelo caminho”, confessa.
Francisco Jerónimo não hesita em afirmar que é urgente um apoio extraordinário do Governo para que se consiga salvar os clubes de base mais regional e local. “As associações desportivas fazem um trabalho fantástico de serviço público na formação dos mais jovens. O Governo continua a assobiar para o lado e nada faz para ajudar este sector”, refere, dando o exemplo do Estado francês que emprestou cerca de 200 milhões de euros para garantir a sobrevivência dos clubes.

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