
Dos vendedores de banha da cobra até aos doutorados em organização de prateleiras
Numa cena do filme de 2008, “Estado de Guerra”, o actor Jeremy Renner, a quem a mulher pediu para não se esquecer de comprar cereais para o pequeno almoço, está num corredor imenso de um supermercado a olhar para prateleiras e prateleiras de todas as marcas, sabores e feitios. Desalentado, atira com uma caixa, ao acaso, para o carrinho de compras e na cena seguinte está a desembarcar no Iraque para continuar o seu trabalho numa unidade de militar de elite cujo trabalho é desmantelar bombas.
Lembrei-me disso há dias quando estava num supermercado, no imenso corredor dos detergentes, a tentar encontrar um limpa-vidros. Percorri aquilo várias vezes e pesquisei em todas as prateleiras, mesmo nas que ficam rente ao chão e que nos obrigam quase a ajoelhar.
Encontrei de tudo e para todos os gostos, desengordurantes, sprays de limpeza multiusos, lixívias, detergentes, amaciadores, limpa fornos, limpa esmaltes, limpa alumínios...com lixívia e sem lixívia, com cheiro a limão, a salmão, a framboesa, flores silvestres e até a sabão. Com glúten e sem glúten, vegan e não vegan, com sabor a amoras e com sabor a bacon, embalagens de litro, bililitro e bilitrão...só não descobri os limpa-vidros e voltei a casa, frustrado e de mãos a abanar.
Não comprei outros produtos mas já vi pessoas a encher os carrinhos e a saírem sem comprar as três ou quatro coisas que, provavelmente, levavam na lista para comprar. É o consumismo e raramente escapamos. E a organização dos corredores e prateleiras é feita por especialistas, presumo que licenciados e doutorados naquilo mesmo, com o objectivo de nos fazer comprar coisas que nunca pensaríamos comprar.
João Francisco de Melo
