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Bons Sons faz de Cem Soldos uma aldeia maior e mais unida há 20 anos
Festival Bons Sons em Cem Soldos, Tomar, está a celebrar vinte anos - foto arquivo O MIRANTE

Bons Sons faz de Cem Soldos uma aldeia maior e mais unida há 20 anos

Durante quatro dias, Cem Soldos abre casas, ruas, quintais e hortas a milhares de visitantes, mas o verdadeiro impacto do Bons Sons sente-se muito antes de os palcos começarem a tocar. O festival, que celebra 20 anos entre 6 e 9 de Agosto, mobiliza centenas de pessoas, renova gerações e transformou o envolvimento comunitário na principal marca de uma aldeia com cerca de 800 habitantes.

Há quem pinte a casa, quem limpe as ruas, quem prepare refeições, monte palcos, passe cabos ou receba os visitantes. Em Cem Soldos, concelho de Tomar, o Bons Sons não é apenas um festival organizado dentro da aldeia. É um acontecimento feito pela própria aldeia, que durante vários meses altera rotinas, mobiliza famílias inteiras e coloca uma pequena comunidade no centro do panorama cultural nacional. A edição comemorativa dos 20 anos decorre de 6 a 9 de Agosto e deverá receber cerca de 32 mil pessoas ao longo dos quatro dias. O recinto volta a ocupar ruas, largos, garagens, quintais, eiras e hortas, onde serão instalados dez palcos com características distintas. A capacidade diária está limitada a cerca de 8.500 visitantes.
O festival é organizado pelo Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), associação que conta com mais de mil sócios, um número superior ao dos habitantes da aldeia. Durante os dias do evento estarão envolvidas entre 600 e 700 pessoas, incluindo residentes, familiares, amigos, voluntários de outras regiões e equipas técnicas. É essa mobilização que permite assegurar os bares, cozinhas, zonas de campismo, transportes, informações, limpeza, montagem dos palcos e restante logística. Mais do que mão-de-obra, a organização encontra na população o elemento que diferencia o Bons Sons de outros festivais. “O espírito mantém-se. Queremos manter sempre a essência da aldeia e que ela não se perca. Se a aldeia se perder, isso já não é Bons Sons”, afirma Filipe Cartaxo, presidente da direcção do SCOCS. Aos 30 anos, Filipe Cartaxo pertence à geração que cresceu com o festival. Tinha dez anos quando participou nos preparativos da primeira edição, em 2006, abrindo buracos para postes, passando cabos e acompanhando os mais velhos nos trabalhos de montagem. Duas décadas depois, lidera a associação responsável pelo evento.
A sua história representa também a renovação geracional que o festival foi provocando na comunidade. Os mais novos, que começaram por desempenhar pequenas tarefas, ocupam agora lugares de responsabilidade, garantindo a continuidade de um projecto que depende da transmissão de conhecimento entre gerações. “Há um sentimento de pertença muito grande. As pessoas querem ter a aldeia no seu melhor para receber quem nos visita”, salienta Filipe Cartaxo. Nos últimos dias, multiplicaram-se os trabalhos de preparação. Algumas casas foram pintadas, os espaços públicos limpos e os locais de passagem preparados para acolher os milhares de festivaleiros, num esforço que envolve também a Junta de Freguesia.
A edição dos 20 anos assinala igualmente uma mudança na direcção artística, agora assumida por João Rufino, de 39 anos, e Sérgio Alves, de 37. Ambos são naturais de Cem Soldos e estão ligados ao Bons Sons desde a juventude, tendo passado pela produção, pelas equipas técnicas e pela programação. Os dois recusam, no entanto, protagonismos individuais e apresentam-se como parte de uma estrutura de programação colectiva. Representam uma nova geração que recebeu o festival dos fundadores e assume agora a responsabilidade de o renovar sem quebrar a ligação à aldeia.
O impacto do festival ultrapassa, por isso, os quatro dias de concertos. O Bons Sons reforça as ligações entre habitantes, aproxima gerações e cria oportunidades para que antigos moradores, familiares e amigos regressem à aldeia. Ao mesmo tempo, projecta Cem Soldos para o exterior e afirma que a criação cultural não tem de ficar concentrada nos grandes centros urbanos. A programação mantém a aposta exclusiva na música portuguesa e cruza artistas consagrados com novos projectos de diferentes estilos, regiões e gerações. O objectivo passa por levar o público a descobrir nomes que dificilmente encontraria nos circuitos mais comerciais. “O maior elogio que podemos receber é alguém dizer que já tem bilhete mas praticamente não conhece nenhum nome do cartaz”, afirma João Rufino. Vinte anos depois da primeira edição, o Bons Sons continua a transformar uma aldeia de 800 habitantes num dos maiores palcos da música portuguesa.

Bons Sons faz de Cem Soldos uma aldeia maior e mais unida há 20 anos

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