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Morte do mais antigo empresário deixa a tauromaquia mais pobre
Morte. António Cardoso perdeu a vida num acidente de viação

Morte do mais antigo empresário deixa a tauromaquia mais pobre

António Manuel Cardoso (Nené) tinha o coração ao pé da boca e granjeava respeito no meio taurino

Edição de 08.02.2018 | Sociedade

Morreu um ícone da tauromaquia em Portugal. O empresário António Manuel Cardoso, o mais antigo no país, faleceu num acidente de viação na noite de quinta-feira, 1 de Fevereiro, na Estrada Nacional 4, em Alcochete. Com 63 anos de actividade era o que há mais anos exercia a actividade, explorando importantes praças de toiros, como as de Alcochete e Évora. Foi também empresário das praças de Vila Franca de Xira, Moita do Ribatejo, Portalegre, Angra do Heroísmo (Açores), Moura, Montijo e Arronches. Em 2013 O MIRANTE entregou-lhe o Prémio Personalidade do Ano na área da tauromaquia.
Conhecido no meio por Nené, teve uma vida preenchida na tauromaquia, tendo sido cabo dos Forcados Amadores de Alcochete, entre 1984 e 1995, grupo de que faz parte o filho. Mais recentemente era também apoderado dos toureiros João Telles Jr. e António Prates, gerindo a carreira destes. A sua empresa, a Toiros & Tauromaquia, era das que mais corridas organizava. Nené dominava e dava cartas sem arrogância e sempre disponível para falar ao nível dos seus interlocutores. O empresário tauromáquico tinha o capricho de ser o primeiro a dar os parabéns aos amigos quando estes faziam anos, logo “à meia-noite e um segundo”.
Quase toda a gente o respeitava e cumprimentava como um grande Senhor da festa. Mas quem circulava ao seu lado, reparava com facilidade que ele não ligava a honrarias nem a cumprimentos especiais e que o sorriso para o marialva que lhe batia nas costas era tão afável como para o mais simples dos aficionados que o cumprimentava junto ao balcão do bar da praça de toiros. Antes da carreira como empresário tinha sido funcionário da Segurança Social mas deixou o emprego estável por considerar que não tinha perfil para funcionário público. Em 2013, numa entrevista a O MIRANTE, dizia a propósito dos grupos anti-taurinos, com a naturalidade que lhe era conhecida, que “a polémica tem que existir na vida senão estamos todos a dormir”.
Era um apaixonado pela tauromaquia mas também um crítico da festa que tanto defendia. Chegou a dizer que as corridas de toiros demoravam muito tempo e que havia que poupar nos cerimoniais e tempos mortos, como a volta a arena dos toureiros que entendia como apenas um condimento do espectáculo. António Manuel Cardoso nasceu em 16 de Junho de 1954. Foi jogador de futebol nas equipas jovens do Alcochetense. Foi nessa altura que lhe puseram a alcunha de Nené, pela sua forma de jogar pouco agressiva e muito parecida com a de um jogador do Benfica da altura que usava aquele nome.
Considerava-se muito conversador, “se calhar até de mais”, como admitia, e um homem com “o coração ao pé da boca”. Deixa três filhos, de dois casamentos. São eles que lhe davam uma mãozinha no negócio, sobretudo nas fotografias e na divulgação dos espectáculos nas redes online. António Manuel Cardoso foi fundador da APET - Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos, tendo desempenhado o cargo de vice-presidente até 2011.

Nené era mais do que o que se via

Nené não precisava fumar charuto para ser um Senhor da tauromaquia em Portugal. Fumava cigarros como o povo. Fumava muitos. Não se punha em bicos de pés, nem precisava, porque a sua maneira de estar conquistava simpatias. Falava com todos sem enaltecimentos exacerbados nem rebaixamentos desnecessários, fossem doutores ou analfabetos. Não frequentei a casa de Nené nem as tertúlias a que ele tanto gostava de ir para falar de toiros e tauromaquia. Mas sentia que o conhecia desde miúdo, talvez pela forma aberta e franca com que nos relacionávamos, infelizmente poucas vezes.
Quando soube da morte de António Manuel Cardoso, a primeira coisa de que me lembrei foi daquela vez em que ele meteu na cabeça que tinha de lhe tirar uma fotografia a verem-se, por trás, os cartazes de uma corrida que estava a promover. O problema é que os cartazes estavam numa parede de uma avenida de Alcochete, onde havia algum movimento de carros a uma velocidade considerável. Nada que intimidasse o homem que pegou muitos toiros de caras. Parou-se o trânsito, e no meio da avenida tiraram-se duas ou três fotos, que não dava para mais.
Outro dos episódios que não se esquecem, foi quando, após uma entrevista em 2013, me pede e ao chefe de redacção
de O MIRANTE, João Calhaz, para ir tirar umas fotos aos toiros que tinha escolhido para uma corrida. O ganadeiro estava a chegar ao Campo Pequeno para petiscar antes da corrida de toiros dessa noite de quinta-feira, mas o telefone do Nené fê-lo dar meia volta e ir ter connosco à ganadaria. Saímos da carrinha todo o terreno a uns metros dos toiros e com uns tremores nas pernas lá tirámos as fotografias. Só quando voltámos, de coração acelerado, aos bancos da viatura, é que reparámos que o empresário, à cautela, nunca tinha saído do lugar protegido.
Estas e outras histórias, que têm muito mais valor guardadas na memória, faziam de Nené um grande… grande em simplicidade, em amizade e consideração. Grande como ser humano, independentemente de se gostar ou não de tauromaquia.

António Palmeiro

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