Cartas do Brasil | 06-02-2020

Resistência e organização no Sertão Mineiro

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Como fotógrafo, fui incumbido de registrar os arredores do Parque, documentando as atividades dos moradores e as paisagens da APA (Área de Proteção Ambiental) Cavernas do Peruaçu, que possui um território maior que o do Parque e se sobrepõe a ele.

Como escrevi em crônica anterior, participei em meados de 2019 do programa de voluntariado do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, unidade de conservação situada no extremo norte do estado de Minas Gerais, na transição entre os biomas Cerrado e Caatinga. Como fotógrafo, fui incumbido de registrar os arredores do Parque, documentando as atividades dos moradores e as paisagens da APA (Área de Proteção Ambiental) Cavernas do Peruaçu, que possui um território maior que o do Parque e se sobrepõe a ele.

As chamadas APAs são unidades de conservação que não impedem a ocupação humana, tampouco coíbem certas atividades como o plantio e o extrativismo, contanto que se respeitem determinadas restrições. Essa APA serve como zona de disciplinamento para as atividades humanas no entorno do Parque Nacional, onde a proteção é integral e são proporcionadas apenas atividades turísticas e de pesquisa.

Apesar do grande território protegido por lei, a região – já tradicionalmente afetada pela falta d’água – sofre cada vez mais com a seca: o desmatamento e as queimadas alteraram o fluxo do rio Peruaçu, que hoje corre muito mais fraco que há alguns anos atrás, afirmam moradores do lugar. A vereda – tipo de vegetação conhecida como a caixa d’água do Cerrado –, presente na APA, foi praticamente destruída em incêndio. Poucos dos imensos buritis sobreviveram, e a turfa antes encharcada secou com o fogo, que ardeu também por baixo da terra. Em certos pontos da estrada veem-se pontes sobre o leito de rio seco: nesses trechos ele passou a fluir subterrâneo, devido à redução do aporte de água.

Dono de terreno próximo à nascente do rio Peruaçu, o Sr. Z. T. faz trabalho de recuperação ambiental totalmente independente de quaisquer recursos, e já atingiu ótimos resultados. Através do plantio de espécies escolhidas da flora nativa, ele recuperou alguns brotamentos de água da sua propriedade, contribuindo para o aumento de fluxo do rio. Um dos brigadistas da região afirma que sem esse trabalho faltaria água no Parque Nacional. Z. T. trabalha em função da subsistência dele e de sua família, garantindo água para sua plantação de hortaliças e suas poucas cabeças de gado. É impressionante ver a abundância e o vigor das plantas num ambiente tão seco e castigado pelo sol.

Adiante do terreno de Z. T. se encontram outras iniciativas de desenvolvimento local: as casas de farinha da Associação Comunitária de Araçá e da comunidade de Areião. Em tais associações, moradores se organizam para a produção e beneficiamento da mandioca, além da posterior comercialização da farinha artesanal, que possibilita o retorno do investimento aos associados. As etapas do processo de trabalho são por vezes divididas entre membros de um grupo familiar, ou entre moradores vizinhos às casas de farinha.

Essas organizações são necessárias para a manutenção dos valores tradicionais das comunidades, assim como as práticas sustentáveis anteriormente mencionadas são essenciais para a saúde dos ambientes naturais e para a perpetuação dos serviços ecossistêmicos. A presença das populações tradicionais na região pode se tornar a maior aliada à conservação do meio ambiente, confirmando a crescente interdependência das áreas protegidas com as comunidades que nelas vivem.

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