Cartas do Brasil | 15-05-2020

Um dia à margem do rio

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Um dia à margem do rio

Desde o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, segundo maior sítio arqueológico do Brasil, até o rio São Francisco, famoso símbolo nacional que corre muito próximo à reserva. Uma viagem com passagem pela Cachaçaria Claudionor.

Pulei para dentro do carro de Roberto, um dos vigias do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Acabara de amanhecer, e alcancei a carona do vigia que, segundo me disseram, nunca saía com atraso. Caso não conseguisse me aprontar a tempo, teria de esperar na estrada e pagar uma lotação até Januária, cidade a 40 km dali. Fazia frio e o céu estava límpido, habitual nas manhãs de julho da região.

A rodovia BR-135 desce paralela ao vale do rio São Francisco, cortando a mata seca, passando por pequenas vilas e igrejas. Eventualmente avistávamos uma barriguda, característica paineira da caatinga que acumula água em seu tronco, numa proeminência que semelha uma barriga; fiquei surpreso a primeira vez que vi uma delas, alguns dias antes. O vigia me recebeu com poucas palavras, e paulatinamente tentei tecer uma conversa. Viajávamos ao som de uma banda local de forró, e descobri que ele era zabumbeiro e frequentador assíduo das apresentações de beira de estrada; ficou impressionado quando contei que também gostava de forró; por minha parte, fiquei impressionado ao saber que era zabumbeiro.

Estabelecido o diálogo, percebi sua amabilidade, disfarçada pelo jeito quase militar. Chegando à Januária ele se ofereceu para me orientar, e estendeu seu caminho até a rodoviária para evitar que eu caminhasse grande trecho. Mostrou-me onde era sua barbearia; tinha dois trabalhos e exercia a função de barbeiro mesmo após passar a noite em claro como vigia na base do Parque. Admirei-o por isso, e pela gentileza; achei que já o incomodava demais e saí o quanto antes do carro, para evitar mais despesas, e agradeci a carona.

Depois de esclarecer algumas dúvidas na rodoviária, caminhei até o centro da cidade. Cheguei à Cachaçaria Claudionor e comprei uma pequena garrafa de bolso da famosa aguardente; fui absorvido pelas histórias do lugar, pequenos artefatos e outras curiosidades expostas na loja. Perguntei à atendente as direções para se chegar à praia de rio do São Francisco, que me indicou, cautelosa, um mototáxi, pois era perigosa a caminhada. Disse a ela que iria andando mesmo assim; ainda era cedo, mas estava ansioso.

Enveredei por uma estrada de terra que seguia, de um lado, margeada por uma extensa capoeira, e do outro, um grande muro branco limitava-a, como um dique; acima dele se estendia uma comunidade, que crescia, aparentemente, até próximo do rio. Quando perguntei a distância a um morador, ele respondeu, entre risos, que andaria bastante. Vinha uma grande caminhonete e divisei o motorista sozinho; levantei o dedo em sinal de carona, despretensioso. O velho parou e me perguntou aonde ia. Falei que queria ir à praia. Subi no carro e ele contou como gostava de ajudar as pessoas, e me levou à praia, desviando de seu trajeto.

Quiosques se aglomeravam na areia da pequena praia de rio, que, não fosse a margem visível do outro lado, lembraria uma praia de mar como qualquer outra. Sentei-me ao chão e permaneci inebriado pelo leve movimento das águas, nadei dentro de uma área demarcada por boias, e fiz algumas fotos.

Imaginava como seria aquele ambiente em tempos antigos, tempos pré-colombianos. Desde o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, segundo maior sítio arqueológico do Brasil, até o rio São Francisco, famoso símbolo nacional que corre muito próximo à reserva. Todas aquelas pinturas rupestres do Parque indicavam uma intensa movimentação humana na região, que deveria ser, há milhares de anos, área extremamente receptiva para essas populações. Mas as águas rolavam, e o sol descia lentamente; precisava arranjar carona para voltar ao Parque.

Texto e fotos de Rainer Seffrin

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