Crónicas do Brasil | 07-02-2024

Jalapão, uma visita à terra das plantas medicinais e do capim

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Jalapão, uma visita à terra das plantas medicinais e do capim

O capim dourado, nativo do Tocantins, é um dos ativos locais, vendido como joia jalapoeira. Trançado por hábeis artesãos, principalmente mulheres, o capim é coletado nos campos próximos às veredas. Somente trabalhadores habilitados para a coleta e posteriormente para o trançado podem colocar em prática o beneficiamento. O resultado final são vibrantes cestos, anéis, pulseiras, colares, pequenos animais trançados e outros variados itens deacordo com a criatividade do artesão.

A jalapa é uma planta nativa do México, mas radicou-se no Brasil e se espalhou por áreas do cerrado e da caatinga, biomas que ocupam grande parte do território brasileiro. Suas raízes tuberosas são utilizadas como remédio por populações tradicionais, e existem estudos da medicina formal que a utilizam em medicamentos farmacêuticos. É indicada para o tratamento da constipação e outras condições relacionadas ao funcionamento intestinal; age também como vermífugo e elimina os radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento dos tecidos e o desenvolvimento de doenças graves.

Por sua extensa distribuição no leste do estado do Tocantis, na região norte do Brasil – e também provavelmente por seu carisma medicinal –, a jalapa deu nome à região administrativa do Jalapão, hoje uma das áreas mais procuradas por viajantes que buscam experiências na “natureza selvagem” brasileira. Com fama de oásis em meio a um quase semiárido, o chamado “deserto brasileiro” é cortado por rios e veredas, fervedouros de profundezas desconhecidas, paisagens de savana alaranjada e os céus mais acinzentados do cerrado – com a passagem dos carros em suas largas estradas de terra, o poeirão sobe e colore o sol poente de vermelho sangue. O wild Jalapão é o paraíso dos aventureiros, dos influencers e dos citadinos que amam – ou apenas aparentam amar – o chão batido.

Para quem vem de Palmas, capital do estado e ponto inicial da maior parte das expedições ao Jalapão, a chegada à região é marcada pela vista imensa, pelas árvores verdíssimas e retorcidas, e pela serra do Espírito Santo. Chapada, a serra estende-se elevada e reta, como uma grande mesa. Depois de muitos quilômetros de cerrado a perder de vista, surgem, como em passes de mágica, cidadezinhas iluminadas, que se assemelham a ilhas na savana imensa.

Mateiros é uma dessas pequenas cidades jalapoeiras, dominada por estabelecimentos turísticos e alguns bares e vendas frequentados por moradores. Os alimentos, na cidade, são mais caros, já que a maioria dos supermercados busca a clientela vinda de fora. Os turistas que chegam, contudo, normalmente saltam das picapes diretamente em suas pousadas e saem na manhã seguinte para os novos atrativos, indo dormir em outras cidades, na volta para Palmas. Os passeios são caríssimos, combinados anteriormente com as agências de turismo. Os restaurantes, cachoeiras e fervedouros são pontos de parada pré estabelecidos, onde os turistas pulam de seus carros que sangram as estradas para fazer algumas fotos e logo seguir viagem. Esse tipo de experiência, contudo, passa ao largo da realidade nativa, em que os moradores batalham pela inserção na cadeia do turismo.

O capim dourado, nativo do Tocantins, é um dos ativos locais, vendido como joia jalapoeira. Trançado por hábeis artesãos, principalmente mulheres, o capim é coletado nos campos próximos às veredas. É estritamente regulamentado, e somente trabalhadores habilitados para a coleta e posteriormente para o trançado podem colocar em prática o beneficiamento. O resultado final são vibrantes cestos, anéis, pulseiras, colares, pequenos animais trançados e outros variados itens, de acordo com a criatividade do artesão.

O fruto do buriti, palmeira que habita as veredas cerratenses, é apreciado por suas características medicinais. É eficaz no tratamento do complexo digestório e apresenta propriedades cicatrizantes. Diversos moradores coletam os frutos da bela palmeira e extraem seu óleo, para
posteriormente vendê-lo em feiras associativas ou vendas locais. Outra árvore extremamente produtiva é o jatobá, da qual nasce um fruto seco e oblongo. Quando aberto, apresenta uma polpa seca e aromática, e sua casca, quando queimada, se torna um incenso. Alguns moradores, dos poucos que dominam as técnicas de coleta e beneficiamento do jatobá, produzem com sua polpa uma fina farinha – iguaria que tornou-se muito apreciada e viaja centenas de quilômetros até os consumidores de grandes centros urbanos brasileiros.

A fama do capim dourado, por sua vez, levou ao surgimento de um mercado de contrabando, que o carrega através das fronteiras estaduais de Tocantins para que seja beneficiado em outras paragens do Brasil – o beneficiamento, por lei, só pode ocorrer no estado tocantinense, isto é, o produto só deve deixar o estado devidamente trançado por um artesão habilitado. É comum encontrar, não obstante, objetos de capim dourado em feiras ao redor do país, como nos centros metropolitanos de São Paulo e Rio de Janeiro. Esses trançados são, segundo os mestres tocantinenses, maioritariamente feitos por oficinas ilegais, com mão de obra explorada, para que a venda dos produtos alcance preços baixos, capazes de integrar os grandes mercados urbanos.

Os artesãos locais, em sua maioria quilombolas nascidos e criados no lugar, detentores de conhecimentos passados de geração em geração, resistem em seus distintos modos de vida – assim como os agricultores tradicionais, os produtores de farinha de jatobá e os mestres da viola de buriti.

Sujeitos que vivem do que a terra lhes dá, ou melhor, do que dela extraem, mantendo-se enraizados no solo como a jalapa, raiz.

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