Uma vez que todas as portas me eram fechadas, não me restava outra solução que abrir uma porta nova

José Saramago a assinar livros na Feira do Livro de Lisboa

José Saramago em Castril, com Pilar, na inauguração de uma biblioteca com o seu nome e as recordações de “certas histórias tristes da minha terra, recentes e antigas, conhecidas algumas, outras que por caridade guardo para mim, a vergonha que uns quantos deveriam sentir, mas afinal não sentem”.

22 de Abril

Viagem a Castril, com Pilar, de quem, em última instância, estas coisas me vêm (e outras, e todas…), para participarmos na inauguração de uma biblioteca a que a generosidade das autoridades do lugar decidiu dar o meu nome. Não nasci aqui, não pertenço a este mundo, não me devem nada estas pessoas, e contudo, por algo de respeito, por algo de amizade, por algo também de admiração, pareceu-lhes que o nome do escritor português, posto à entrada da sua biblioteca municipal, não iria representar um desdouro para o pueblo nem para quem nele vive. Não seria eu de carne e osso se não me tivessem vindo à memória, neste dia, certas histórias tristes da minha terra, recentes e antigas, conhecidas algumas, outras que por caridade guardo para mim, a vergonha que uns quantos deveriam sentir, mas afinal não sentem. Sei que sou muito amado em Portugal, sobejam-me as provas. Sei também que sou detestado, as provas sobejam-me, mas isso não está na minha mão evitá-lo. O pior de tudo, porém, foi aquele dia em que me defrontei com uma fria, gratuita e despiedada indiferença, vinda precisamente de quem tinha o dever absoluto de oferecer-me a mão estendida. Sendo, porém, os casos e acasos da vida férteis em contradições, sabe-se lá se a minha vida de escritor não terá começado justamente nessa hora? Uma vez que todas as portas me eram fechadas, não me restava outra solução que abrir uma porta nova, uma porta por onde teria de entrar sozinho. Pesados agora os factos, vejo que foi graças a essa decisão que cheguei hoje a Castril como escritor, e isso é bom, mas a ofensa nunca se apagará de mim, e isso é mau.

Deveria calar-me, há coisas muito piores. À noite, na televisão, apareceram-me as imagens do assalto à embaixada do Japão, em Lima. Foram mortos, isto é, falando com mais rigor, assassinados, os guerrilheiros do Movimento Revolucionário Tupac Amam. Todos. Decididamente não gosto da cara deste Fujimori.

Em Cadernos de Lazarote Vol. 3 Página 90

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