José Saramago a recordar Augusto Barreiros e José dos Reis

José Saramago com populares numa das suas visitas a Azinhaga

Naqueles anos, qualquer espectáculo, por mais insignificante que fosse, era uma janela de imaginar. Hoje, no momento em que se liga a televisão, desliga-se a imaginação

23 de Abril
A festa foi bonita. Houve discursos, o meu um tanto insosso, acho que por causa da comoção, que não me deixou arrumar aceitavelmente as ideias. Enquanto falava, percebia dentro de mim uma voz incómoda que não parava de resmungar: “Não é isso, não é isso, vê-se que hoje não estás nos teus dias.” Provavelmente não estaria, provavelmente teria preferido abraçar em silêncio todos os presentes, mas o costume exige que estas coisas tenham de ser levadas ao fim com discursos, quando devíamos saber que não há palavra que valha um abraço quando ele vem do coração (do coração? sim, do coração, também não encontro melhor maneira de o dizer…).
A alma destes acontecimentos foi, desde o princípio, José Juan Mar, um moço pintor (e que bom pintor é ele), nascido e criado neste pueblo entre montanhas, que vem animando com o seu talento e com o seu entusiasmo por esses estranhos “desvios” da humanidade a que damos o nome de arte e literatura. Enquanto olhava e escutava a José Juan recordei dois velhos amigos, o Augusto Barreiros e o José dos Reis, a quem, nos tempos de outrora, deveu a minha Azinhaga tantas alegrias. As da música, as do teatro, o lado amável e sedutor da vida, a gargalhada da farsa, o riso da comédia, a lágrima do drama, a cantiga de amor e de amigo, também às vezes a de escárnio e maldizer… Para que não tivesse de ser tudo trabalho e padecimento. Naqueles anos, qualquer espectáculo, por mais insignificante que fosse, era uma janela de imaginar. Hoje, no momento em que se liga a televisão, desliga-se a imaginação. Convém adormecer rapidamente para que o sonho acuda a salvar-nos.

Em Cadernos de Lazarote Vol. 3 Página 91

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