José Saramago o escritor que acreditou andar a viver uma vida prometida a outra pessoa

José Saramago – FOTO ARQUIVO

José Saramago durante três semanas “em viagens, entrevistas, encontros, num rodopio de imagens, um torvelinho de sons, muitas alegrias e emoções”, vivendo cada um desses momentos “como se o momento anterior não me tivesse deixado à beira da exaustão”

30 de Novembro

“Como é que consegue aguentar?”, perguntam-me, e eu respondo que não sei. Foram três semanas de viagens, entrevistas, encontros, um rodopio de imagens, um torvelinho de sons, muitas alegrias e emoções, e eu realmente não sei como fui capaz de viver cada um desses momentos como se o momento anterior não me tivesse deixado à beira da exaustão. Pilar olha-me com pena, diz-me que descanse, que não me empenhe como se a existência (a minha e a dela) dependesse de cada palavra que diga e de cada atitude que tome. E inútil. Já uma vez escrevi nestes Cadernos que tenho a impressão de andar a viver uma vida que havia sido prometida a outra pessoa, e hoje pergunto-me como se sentirá essa pessoa no seu íntimo, em particular se crê que merecia muito mais do que o pouco que lhe coube, o tal pouco que me estava destinado a mim… De todo o modo, faço por não esquecer o que ainda não há muitos dias declarei em Toledo: todo o orgulho é vão perante o Tempo. É quase certa a probabilidade de que o pouco e o muito, o tudo e o nada apareçam igualados no último futuro, porém, cuidado, o facto de duas paralelas se encontrarem no infinito não anula a distância que as separa neste aqui em que estamos e neste agora que somos…

Contrariando o que se espera de um diário, renuncio a dispor por ordem, dia a dia, os acontecimentos destas semanas. Preferirei olhá-los como componentes de um processo de fusão que foi transformando o dia e a noite, o sono e a vigília, o silêncio e as palavras em um compacto bloco de tempo sem soluções de continuidade.

Chegámos a São Paulo no dia do meu aniversário (75 anos…), a festa (tranquila, como eu aprecio) fizemo-la em casa de Lili e Luiz Schwarcz, companhia de letras e de amigos, como outra viríamos ainda a celebrar na véspera do nosso regresso, com o escritor israelita Amós Oz e sua mulher, também ela Lili. A leitura de Todos os Nomes, em São Paulo, foi admiravelmente feita pelas actrizes Fernanda Torres e Giulia Gam, e, demonstração de uma camaradagem e de uma amizade que nunca esquecerei, por esse magnífico escritor que é Raduan Nassar. Seria igualmente de nível excepcional, passados dois dias, a leitura no Rio de Janeiro, de que aceitaram encarregar-se Fernanda Montenegro e Marieta Severo, perante o enlevo(palavra desusada, mas neste caso insubstituível) do autor do livro. Também no Rio de Janeiro me encontrei com Lígia Verdi e Júlia Catelli, as duas “valentes” mulheres que, contra os ventos e as marés do costume, sonham pôr em cena o Evangelho segundo Jesus Cristo. Estava presente o encenador José Possi Neto, em princípio interessado em participar no projecto. Conversámos muito, surgiram propostas e ideias que dariam para meia dúzia de encenações diferentes. Quanto à minha intervenção no debate, creio que poderei deixá-la resumida nesta frase: “Recordem que o meu Evangelho é um livro de ideias. Deste ponto de vista, seria mau que os valores de espectáculo, por muito legítimos que sejam, viessem a sobrepor-se a elas…”

Têm muito trabalho por diante, Lígia e os seus amigos, eu não posso fazer mais que animá-los – e confiar. Confiar nas pessoas, confiar nas circunstâncias, confiar nos acasos, como aconteceu na visita que fizemos à Casa do Pontal, um fabuloso museu de arte popular brasileira, a quarenta minutos do Rio em automóvel, milhares de peças de artesanato autêntico recolhidas por um amador francês (amador, de amar…) que, durante anos e anos, cruzou o Brasil de lés a lés, salvando de irremediável perda, em muitos casos, peças talvez únicas. Foi neste museu, contemplando umas figuras de barro, ouvindo Luiz Schwarcz, a poucos passos de distância, que dizia:

“Estes aqui podiam ser o princípio de um romance de José Saramago” (representavam dois camponeses de pé, conversando, como se tivessem acabado de encontrar-se no meio do caminho), foi neste museu, olhando estas figuras, sentindo agudamente a presença de todas as outras, que, de súbito, saltou na minha cabeça a centelha que andava a faltar-me para que a ideia de A Caverna venha (talvez) a tornar-se em livro. São coisas que não se anunciam, acontecem sem precisar que as procurem, só há que dar por elas, nada mais… Não é que eu acredite em milagres, mas dá vontade de dizer que eles existem se, por exemplo, uma pessoa vai dentro de um carro, entre o aeroporto de Belo Horizonte e a cidade, e de repente o telefone portátil toca, o condutor atende e diz a quem vai ao seu lado: “É para si.” “Para mim?”, estranhei. “E como é que sabem que estou aqui?”, tomei a estranhar. Já pusera o telefone no ouvido: “Quem fala?”, perguntei. “É o José Carlos de Vasconcelos”, e a conversa prosseguiu, ele tranquilo, eu surpreendido: “Como é que você me apanhou?”, “Um jornalista só não sabe se não quiser saber”, disse ele modestamente, “Vou aqui dentro de um automóvel, quase a entrar em Belo Horizonte, você, suponho, está em Lisboa, é milagre”, “Não é milagre, é satélite”, “Preferiria que fosse milagre”, “Porquê?”, “Porque fazendo este, também poderíamos fazer outros.” José Carlos de Vasconcelos não queria tanto, apenas que eu lhe desse uma entrevista no fim-de-semana que Pilar e eu iremos passar a Tiradentes com Lili, Luiz Schwarcz e os filhos, Júlia e Pedro. Conjugados no satélite, pusemo-nos de acordo e não se falou mais de milagres…

A meio da tarde os viajantes foram recebidos pelo prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, bom médico e bom prefeito segundo nos foi dito. Falámos da situação do Brasil, de Portugal, da Europa e do universo mundo, e chegámos a uma conclusão que desde o princípio da conversa já tínhamos claríssima: que isto está a precisar de uma grande volta. Só o que não sabemos é como haverá de ser… À noite, perante mais de 1300 pessoas (foram contadas à entrada, não é um cálculo pela rama…), falei da história e da ficção, de Todos os Nomes e do Ensaio sobre a Cegueira, da terra em que vivemos e dos que sem pão nem terra vivem nela. As palmas pareciam não querer acabar (já à entrada, com toda a gente de pé, a aplaudir, me tinha perguntado, aturdido: “Como é possível uma coisa destas?”). Tanto nos queixamos de que não há maneira de que os brasileiros e os portugueses se entendam, e eu tinha ali, pelo contrário, a prova de um entendimento profundo, determinado por preocupações comuns a quem falava e a quem ouvia: penso que é o que nos anda a faltar, reconhecer e discutir o que nos é comum e, sobre isso, depois, trabalhar. No dia seguinte, de manhã cedo, sob uma chuva torrencial, saímos para Tiradentes. À saída de Belo Horizonte, um grande anúncio ao lado da estrada animava os caminheiros: “Vive a ousadia de sonhar.” Por trás dele, espalhada na encosta do monte, uma favela parecia estar a agarrar-se ao chão para não ser levada pela água. Quando, muitos quilómetros andados, a chuva deixou de cair e o céu se descobriu, uma paisagem belíssima abriu-se toda até aos horizontes para nos acompanhar no caminho. Tiradentes vive do turismo, mas disfarça o melhor que pode…

É uma pequena e sossegada cidade (no Brasil chama-se cidade a tudo, mesmo quando não há mais que quatro casas com uma pracinha ao meio…) onde íamos poder, enfim (como nos tinha “exigido” Luiz), descansar do turbilhão dos últimos dias. Depois do jantar, Pilar e eu fomos dar um passeio pelas ruas desertas. A certa altura, um cão, vadio pela pinta, começou a seguir-nos, de cabeça baixa e evidentemente faminto. De ameaçador, nada, pobre bicho. Como não despegava, entrei num bar e perguntei se podiam vender-me um pão. Que não, ali não tinham pão. “Há-de haver um restaurante”, disse Pilar. Encontrámos um na rua seguinte. Entrei e repeti o pedido. Pão, não tinham, mas podiam dar-me um pedaço de bolo. Lembrei-me dos meus cães – o Pepe, o Camões, a Greta -, que mesmo sem fome nenhuma devorariam todos os bolos que lhes déssemos (mas não damos), e aceitei a oferta, convencido de que viria a ganhar o céu dos cães com uma obra de tanta caridade. O cão tinha-se deixado ficar com Pilar, talvez por se fiar mais dela que de mim. Quando lhe pus o bolo na frente, aproximou-se, cheirou-o e, sem lhe ter tocado sequer com os beiços, olhou para nós.

Olhámos nós um para o outro, como se perguntássemos por que estranho motivo se recusava a comer bolo um cão de Tiradentes, e Pilar propôs uma explicação: “Cheira a aguardente, provavelmente é por isso.” Seria. Faminto, mas abstémio, o que é certo é que o cão desistiu de nos seguir e o pedaço de bolo desprezado lá ficou no meio da rua… Então perguntei: “Não haverá pão em Tiradentes? Em Tiradentes não se come pão?” No dia seguinte, Luiz confirmaria que as pessoas destas terras não são pãozoeiras, como quando eu era garoto se dizia na Azinhaga (corrompendo o termo que passa por correcto: pãozeiro) e como mo dizia a Avó Josefa quando eu lhe pedia pão uma vez e outra: “Es um pãozoeiro…” Neste dia, domingo, 23 de Novembro, a partir das cinco da tarde e até muito depois da meia-noite, desabou sobre Tiradentes aquela que creio ter sido a maior trovoada da minha vida, com relâmpagos, raios e coriscos disparados de todas as direcções, uma chuva, agora sim, de natureza diluviana, horas seguidas aságuas caindo do céu com estrondo, como uma catarata inesgotável. No dia seguinte partíamos para Belo Horizonte, daí para Brasília, onde a Universidade me faria Doutor “Honoris Causa”. Deram-nos carinhosa guarida na sua casa o conselheiro cultural da Embaixada, Rui Rasquilho, e sua mulher, Maria Manuel, amigos muito falados por Pilar nos Cadernos do ano passado, quando vim a Brasília para receber o Prémio Camões. A cerimónia na Universidade foi calorosa, mas simples, nada como os complicados rituais ingleses e espanhóis, e breve, apesar dos discursos. Apadrinharam-me o professor Almir Bruneti e o senador José Samey, e a estola verde e azul foi-me posta nos ombros pelo reitor, Lauro Mohry.

No dia seguinte, já quase perdidas as energias que tinha ido buscar a Tiradentes, apresentei Todos os Nomes no Centro Cultural do Instituto Camões. Enfim, cumpri no Brasil, o melhor que soube e pude, os meus deveres de escritor e de cidadão português, e no regresso, passando por Madrid, ainda arranjei forças para apresentar na Casa de América um livro – El día en que… – de Fernando Morán, um dos espanhóis mais portugueses que existem em Espanha…

Em Cadernos de Lazarote Vol. 3 Página 200

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