Cultura e Cidadania | 13-09-2021 17:08

Solidão: a incomportável invisibilidade do ser

O ser humano não foi concebido para a solidão, é um ser todo ele social, dotado de características fraternas, humanas e sociais.

Há pessoas que se vêem e outras não… Há quem passe pela vida e deixe a sua marca…Há quem passe pela vida forçando os outros a notá-lo… E há aqueles por quem a vida passa, inóspita e amarga.

Vivemos num palco em que todos somos transeuntes da vida. Uma vida que insiste em passar numa louca correria, entre o trabalho e a casa, a casa e o trabalho, arranjando-se, por vezes, um tempinho para as compras do supermercado.

Cruzamo-nos infinitamente nesses corredores da vida com semblantes que não vemos. Olhamo-nos mas não nos vemos.

O ser humano, de tão atarefado e metido em si-mesmo, já não presta a devida atenção ao próximo, às necessidades alheias, ao velhinho que estende a mão para pedir, somente, uma informação; à criança que chora, desesperada, num supermercado qualquer, mas que por ser diferente dos demais, os olhos teimam em ignorar; aquele homem que é, subitamente, coberto por uma onda de água que surgiu da estrada, afluxo provocado pela grosseira e apressada condução de um seu igual…

E há situações de pura ironia! Há o encontrão de ombros e os atropelos para a entrada no metro; Há o ignorar alguém que se nos dirige, trocando, pura e simplesmente, de passeio; Há o só nos dirigirmos a alguém quando pensamos que algum benefício nos poderá trazer… E não há um sorriso, uma palavra amiga, ou um singelo “obrigado(a)” ou “desculpe”… E há a triste solidão que impera no seio familiar… Essa solidão aflitiva, e que a todos os membros incomoda, mas tão confortavelmente instalada entre alguns casais, que se evitam e já só se olham para falar de coisas mesmo muito banais. E há os lares de acolhimento infantil e juvenil… crianças e jovens, de grandes olhos esperançados, que esperam a toda a hora pelo milagre da família… E há os lares de idosos, corredores vazios de afeto, só uma mão amiga por aqui e por ali… São vidas cheias de tudo que se transformaram na vivência do nada; E, perante este palco que exibe, revelando a nu, a nossa existência, o sol encobre-se, esconde-se, envergonhado, por ver tanta indelicadeza!

O ser humano não foi concebido para a solidão, é um ser todo ele social, dotado de características fraternas, humanas e sociais.

É hora de nos olharmos de frente, olhos nos olhos, e prestarmos atenção às necessidades dos demais, que hoje podem não ser as nossas, mas amanhã, quem sabe? No entanto, as pessoas não são todas iguais, e características diferentes fazem do ser humano um ser único e dotado de uma inteligência muito própria, muito sua.

Há aqueles que se movimentam, de forma exímia, num qualquer ermo desconhecido e, muito confortavelmente, desfrutam da sua própria companhia e crescem, aprendem consigo mesmos, e sentem-se realizados. Há aqueles para quem a solidão surge como uma benesse da vida, proporcionando-lhes caminhos vários para as tão almejadas auto-preservação e autodescoberta.

Somos todos tão diferentes! Mas todos, todos mesmo, somos merecedores de atenção!

Júlia Bernardino

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