O MIRANTE dos Leitores | 21-11-2022 17:50

Municipalização do ensino

Júlia Bernardino

Os professores foram uns heróis há dois anos mas aparentemente vão ser municipalizados. As escolas continuam com telhados de amianto, em algumas chove nas salas de aula, deixou de haver verbas para visitas de estudo. Onde é que está o amor pela educação dos nossos filhos de que tanto se falava?

Ultimamente muito se tem falado sobre o ensino e, no momento presente, já não é pelas melhores razões.
Se há 2 anos atrás os professores foram vistos quase como uns heróis, que conseguiram reinventar as suas práticas docentes, para que não se quebrasse o apoio e as aprendizagens dos seus alunos em plena época de pandemia e vários confinamentos obrigatórios, hoje em dia tal situação parece ter sido esquecida.
Os mesmos professores com grau e formação académica para o pleno exercício da docência poderão ver a sua atividade suspensa e/ou completamente transformada com a nova política pretendida pelo governo.
Ao que tudo indica, a transparência dos concursos nacionais de colocação de professores estará, pelo que deduzo das últimas tomadas de decisão da tutela, “démodé” e o que importa é municipalizar: os professores deixarão de pertencer ao Ministério da Educação e passarão para as câmaras e, uma vez mais, aquela ideologia que assentava nos nobres princípios, de vincular e afetar professores a uma só Escola/ Agrupamento, de modo a garantir a estabilidade no ensino e nas aprendizagens dos alunos, mas também nas vidas pessoais dos profissionais da docência, parece ser um vislumbre cada vez mais distante e que, tal como o regresso de el-rei dom Sebastião, vai ser almejado mas nunca alcançado.
Quando é que os docentes e os alunos deixarão de ser apenas números na grande máquina político-económica do nosso país?
Já não há verbas suficientes para apoiar alunos em visitas de estudo, tão fundamentais para a experimentação de algumas teorias fundamentais e basilares, ensinadas nas várias disciplinas.
Onde está a requalificação de escolas, e tantas há a necessitarem urgentemente de intervenção técnica?
Onde estão os profissionais que deveriam retirar definitivamente o amianto das escolas, que como foi já explicado por investigadores e médicos, é um dos grandes causadores de doenças oncológicas gravíssimas?
As telhas que deveriam proteger os alunos continuam esburacadas e deixam passar a chuva de forma torrencial, o piso irregular dos pátios faz com que os nossos jovens andem aos “saltinhos” para não ficarem com os pés totalmente encharcados.
A água escorre em certas salas de aula e na reprografia a racha que atravessa uma parte do teto e das paredes é de tal forma profunda que quase se poderiam colocar lá as nossas mãos.
Esta é uma realidade presente todos os dias nas vidas dos alunos, dos professores, dos assistentes operacionais e de toda a restante comunidade escolar de algumas Escolas Básicas e Secundárias do nosso concelho, algumas das quais já noticiadas em certos meios de comunicação social.
As colocações de professores e as condições físicas das escolas parecem nada ter em comum. A mim assemelha-se que sim.
As más decisões políticas e o adiar situações urgentes e inadiáveis têm sido uma constante, praticada pelos sucessivos governos, quer as suas ideologias se manifestem mais à direita ou mais à esquerda.
Há expressões populares que muito se têm utilizado para descrever estas situações: É o “empurrar o Ensino com a barriga”, é o velho chavão de “quem vem depois que resolva”!
Temo pelo futuro das aprendizagens dos alunos.
Temo pelo futuro das escolas.
Temo pelo futuro da profissão docente.
Temo que a municipalização do ensino seja sinónimo de colocações por manifestas simpatias.
Espero estar errada. Deus queira que eu esteja errada.
Julia Bernardino

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