Cultura | 14-09-2019 18:00

Sevilhanas continuam a espalhar sensualidade pela região

Sevilhanas continuam a espalhar sensualidade pela região
DANÇA

A dança é de origem andaluza mas sente-se como peixe na água no Ribatejo. O MIRANTE foi a Azambuja e a Samora Correia descobrir a dinâmica e os segredos de dois grupos de sevilhanas onde se respira sensualidade, atitude e se exige muita técnica.

Numa pequena sala as alunas do grupo Sabor Flamenco preparam-se para mais uma actuação. Cabelos impecavelmente penteados, vestidas com saias de folhos, brincos compridos e sapatos de baile, ajudam-se no retoque da maquilhagem, já que só há um espelho na sala. Maria Reis, a professora, dá o alerta de que dali a cinco minutos têm de estar prontas. No grupo há mães e filhas a dançar ao ritmo da música da Andaluzia.

O projecto criado em 2008, inicialmente pela Sociedade Filarmónica União Samorense (SFUS) e que pertence agora à Academia Gimnodesportiva de Samora Correia (AGISC), é dirigido por Maria Reis que orienta 70 alunas entre os dois e os 50 anos. O que chama estas meninas e mulheres para a dança é sobretudo “a liberdade que lhes traz o palco e a auto-estima que melhora, na maioria dos casos”, afirma a professora.

O segredo para dançar com galanteio está na atitude e no orgulho com que se marca cada passo. “É uma dança carregada de sensualidade, garra e poder, mas que exige muita técnica. Pode ser dançada aos pares, mas também a solo e uma coreografia pode demorar vários meses a ser construída e aprendida até estar pronta para subir a palco”, explica a O MIRANTE, Maria Reis.

No Ribatejo, os grupos de sevilhanas viveram o seu auge nos anos 90, mas a região continua a não resistir a um ‘olé’ das dançarinas de saias aos folhos. O seu estilo está ligado à tauromaquia e por isso não é difícil encontrar grupos na região, como as Las Hermosas, a marcar o ritmo sevilhano em Azambuja. Neste grupo, fundado por desafio do Club Azambujense, dançam 35 alunas dos seis aos 31 anos. Se conquistam o público? “Cada vez mais, principalmente em regiões aficionadas, ligadas à cultura e tradição tauromáquica”, diz a professora, Sónia Moniz.

Nos dois grupos, as aulas são iniciadas com um aquecimento e exercícios de técnica de braços, mãos e pés, até a música começar a tocar e passarem pelas várias formas de dançar sevilhanas: de frente, a pares, à roda, a roubar e quadra com uso de acessórios como o leque e o manton. Há também lugar para a rumba flamenca, pasodobles, tangos ou farrucas.

Mas importa não confundir sevilhanas com flamenco e, numa explicação simples, a professora costuma dizer que “as sevilhanas são o rancho folclórico de Sevilha”, que está para a região de Andaluzia “como o fandango está para o Ribatejo”, enquanto que o flamenco é um conjunto de nuances de várias culturas. Maria Reis concorda e reforça: “São a barreira que existe entre o flamenco e o folclore”, mas as sevilhanas estão mais ‘aflamencadas’ do que eram quando surgiram em Portugal”.

Indumentária aos folhos e a rigor

No palco importa não falhar os passos, mas dar nas vistas pelo vestuário marca a diferença. Escolhe-se o modelo do vestido e fazem-se encomendas por medida numa costureira local. Custam em média 100 euros e os mais caros vão para o dobro. Os acessórios, desde brincos, pulseiras, flores que colocam nos cabelos, o leque e o manton completam a indumentária.

Os espectáculos pagos ajudam a suportar os custos, mas este ano o grupo de Samora Correia optou por escolher vestuário mais em conta, no comércio local da cidade. “É uma despesa avultada e este ano por menos dinheiro conseguimos o mesmo efeito”, diz. Quanto aos sapatos, ter tacão, caixa de ar e pregos à frente e atrás é obrigatório. Os preços variam entre os 35 e os 200 euros.

Preconceito e falta de referências masculinas afasta rapazes

Se em Espanha é considerado “bastante viril e sedutor um homem dançar sevilhanas, principalmente quando dançado a par com uma mulher”, por cá há “preconceito ser-se homem bailarino”. A opinião é de Sónia Moniz que ainda não conseguiu ter um elemento masculino no seu corpo de baile.

“Aqueles gestos femininos que fazemos com a mão, acho que é isso que os afugenta”, brinca Maria Reis, mas esclarece que um homem não tem de fazer aquele rodar de pulsos. Relativamente a este grupo, há um rapaz na sala e houve até um campino que experimentou, mas desistiu. O que faz falta para haver bailes mistos nestes grupos? “Para além da questão cultural” que associa bailarinos à homossexualidade, faltam “exemplos masculinos a leccionar este estilo de dança”. E, para já, enquanto não se desfizer o preconceito, vão ser as mulheres as aficionadas desta dança.

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