Cultura | 11-05-2020 15:00

Paulo Brissos reinventou-se musicalmente em tempos de isolamento

Paulo Brissos reinventou-se musicalmente em tempos de isolamento

Os tempos de isolamento impostos pela Covid-19 esvaziaram-lhe a agenda, mas não a criatividade.

O músico de Vila Franca de Xira criou um tema e virtualmente juntou-lhe as vozes e instrumentos de mais 80 músicos portugueses. O projecto chama-se 80em40tena e é um grito cantado em prol da futura Associação dos Músicos de Portugal.

Quarenta espectáculos cancelados, o lançamento de um novo single a aguardar por melhores dias e as sessões de Jam às Sextas, na Fábrica das Palavras, em Vila Franca de Xira, suspensas até que a pandemia deixe a cultura voltar a respirar. Estes são alguns dos efeitos das restrições actuais na vida do músico e cantor Paulo Brissos. Um exemplo que espelha a realidade dos artistas e técnicos da indústria da música que ficaram sem trabalho e temem um recomeço em ritmo demasiado lento.


“Estamos parados e numa incerteza brutal”, começa por dizer a O MIRANTE o cantautor natural de Vila Franca de Xira, explicando que no seu caso a fonte de rendimento mais segura - os concertos - foi desmarcada e não há perspectivas de quando vai voltar. É este travão imposto pela pandemia que torna amargo responder à pergunta: o que é que lhe paga as contas? “Neste momento nada”.


Apesar da incerteza como profissional de um sector que sempre esteve habituado a ser uma montanha russa, Paulo Brissos acredita que nestes tempos a cultura reinventou-se e está mais viva do que nunca, precisa é de continuar a chegar às pessoas através de novas formas de comunicação.

80em40tena surgiu em tempos de pandemia

Um bom exemplo disso é quando 80 músicos juntam virtualmente as suas vozes e instrumentos numa canção inspiradora para viver esta nova realidade. O projecto que nasceu com a chegada da pandemia chama-se 80em40tena e é da autoria de Paulo Brissos, assim como o tema “Não é o Fim” que já está disponível nas plataformas online. Lúcia Moniz, Luiz Caracol, Mário Mata, Ménito Ramos, Ricardo de Sá, Toy, Tozé Santos e Wanda Stuart são alguns dos artistas que aceitaram o repto lançado pelo mentor e participam no tema.


O objectivo é simples: demonstrar a força destes trabalhadores que por estarem impedidos do contacto directo com o público têm sido dos mais afectados. “É importante lembrar que há um sem fim de pessoas que trabalham nesta indústria”, desde técnicos de som e luz, aos músicos e artistas que neste momento também precisam de alguma solidariedade, diz.


E ser solidário com todos os músicos do país é precisamente o mote deste projecto que pretende contribuir para a fundação da Associação dos Músicos de Portugal (AMP) através dos valores angariados de cada clique na música. A criação da AMP também entrou em marcha ao ritmo da pandemia, mas já era urgente fazê-lo não só para os músicos se defenderem desta crise como no futuro, explica o cantor.


Além da AMP este projecto também apoia a Mansarda, uma associação sem fins lucrativos que pretende proporcionar aos artistas e demais profissionais das artes performativas um lar digno no fim da sua carreira à semelhança da Casa do Artista.

Voltar à liberdade social não basta

Depois destes tempos de distanciamento social que fizeram colapsar o sector o mais provável é que os efeitos negativos continuem a prolongar-se no tempo, incentivados pelo medo do encontro físico entre público e artistas. Não vai bastar, alerta o músico, voltar a ter liberdade quando vem acompanhada de uma retracção do público mesmo que não sejam admitidos espectáculos com grande quantidade de pessoas.


Por outro lado, numa alusão à letra do novo tema, Paulo Brissos, diz que é preciso acreditar que este não vai ser o fim, nem para a cultura, nem para os músicos em particular. O que faz falta é reinventar.


“Desistir da música já me passou tantas vezes pela cabeça. É normal numa profissão tão irregular, onde é preciso dedicação a 300 por cento. Onde se vive do que se produz”, diz, para depois lembrar o que faz um músico continuar: “Mesmo que a queira esconder ela anda como um fantasma atrás de mim. Não há outra forma de me expressar”.

Músico há 34 anos

Paulo Brissos soma 34 anos de carreira e editou o primeiro disco há 26. O percurso desenhou-se em casa a ouvir os pais a trautear cantares alentejanos e fados de Alfredo Marceneiro. Ganhou novos contornos quando aos 13 anos se fez aluno da escola de música do Ateneu Artístico Vilafranquense. Não esconde que já foi músico por encomenda, mas isso não envergonha. “Faz parte do processo. Nem sempre as nossas criações nos garantem subsistência e nem todos conseguimos um concerto no Meo Arena ou ter um disco platina”, diz.

Câmara de VFX como tábua de salvação

Com o coronavírus a ditar uma paralisação forçada a Câmara de Vila Franca de Xira criou o projecto “Músicos do Concelho em Casa”, para proteger a frágil economia da cultura e dos artistas musicais. Uma iniciativa que para Paulo Brissos chegou como uma tábua de salvação, tal como a continuidade da contratualização das sessões do Jam às Sextas, que foram suspensas mas não canceladas. O novo projecto do município é composto por concertos de 30 minutos que arrancaram na segunda-feira, 27 de Abril, e estão a ser transmitidos no canal de Youtube do município e nas redes sociais. Além de Paulo Brissos junta nomes como Sertório Calado, Andrea Verdugo, Telmo Lopes, Rogério Nunes e a dupla Marco António e Cláudia dos The Lucky Duckies.

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