Cultura | 19-12-2022 17:46

Nervo, nº 16 - Poesia e Viagens de Comboio

Nervo, nº 16 - Poesia e Viagens de Comboio
OPINIÃO / CRITICA LITERÁRIA

Revista de poesia Nervo já vai no número 16. Última edição tem como tema “O comboio e as viagens”

Vivendo da persistência da editora Maria de Fátima Roldão, também ela poeta, estreada com uma surpreendente coletânea de poemas há pouco editada (Pequeno Sangue, ed. Volta d’mar, 2021), parecendo querer viver – e viver bem – na marginalidade quase clandestina da poesia atual, publicando-se a partir do Entroncamento, onde a editora reside e trabalha, e sem prescindir da edição em papel, a revista Nervo vai em 16 números publicados, numa cadência regular e pontual ao ritmo de três revistas por ano, desde 2018. Com o expresso propósito de divulgar “poetas portugueses de diferentes gerações”, todos vivos, uma boa parte quase desconhecidos ou dificilmente publicáveis, fazendo-os conviver com outros já reconhecidos, é um projeto radicalmente individual, em muitos aspetos seguramente solitário, que se deve em exclusivo à Maria de Fátima Roldão. E, no entanto – a intenção é generosa –, a Nervo subintitula-se “coletivo de poesia”.
Seguindo um percurso de tranquilo e intergeracional sincretismo poético, recusa alinhamentos, tendências e tensões, ou “esquece-se” voluntariamente de que eles existem, na pretensão de todos acolher e a todos dar voz e espaço igualmente repartido. E se essa não for a sua maior fragilidade, ela será, com certeza, a sua maior virtude. Com efeito, trata-se de uma revista que procura a consensualidade da inclusão num universo em que, justamente, o consenso nem sempre é o parceiro mais recomendável. Estamos, na Nervo, longe de qualquer resquício de vanguardismo, seja lá o que isso hoje for, de qualquer vestígio de afirmação geracional ou de grupo, de qualquer intenção de rutura estética.
No entanto, mesmo tendo um critério de seleção, digamos, alargado, a Nervo afasta-se saudavelmente da poesia paroquial, de “meia-província”. E se se pergunta para que serve, hoje, a poesia, para quê e porquê persistir nela, quando a prosa do mundo tudo parece ter tomado à sua volta, a Nervo responde, sem qualquer suspeita ou desdém, com poesia.
O último número da revista, o 16, que é o primeiro temático, editado em parceria com a Fundação Museu Nacional Ferroviário, sob o lema “O comboio e as viagens”, tem como epígrafe o verso de Herberto Helder Os comboios são meros pensamentos. A capa reproduz um desenho do arquiteto Álvaro Siza, incluindo ainda mais cinco desenhos da sua autoria, associando a música às viagens, e a revista conta ainda com a colaboração de outros artistas plásticos, o que sucede desde o primeiro número.
Com cerca de mais um terço de páginas do que os números anteriores, mas mantendo a estrutura habitual – abertura com textos ensaísticos (desta vez, apresentações circunstanciadas do número temático), poemas de poetas portugueses, a que naturalmente se dá mais espaço, uma pequena secção de poetas estrangeiros traduzidos e, no final, um índice biográfico de autores –, este número temático conta com um notável conjunto de poetas “de agora”, de idades muito diferentes, cujos poemas, na maioria, são inéditos e, supõe-se, terão sido escritos expressamente para a revista. Dado tratar-se de uma edição especial e com a dimensão mais institucional que a parceria lhe confere, este número não tem praticamente poetas portugueses desconhecidos ou ainda não publicados em livro, e nenhum deles tem menos de trinta anos (o mais novo é Pedro Stattmiller, nascido em 1991). Ao invés, são sete os poetas nascidos nas décadas de 30 e 40 do século passado, alguns dos quais justamente considerados decanos dos poetas vivos, como Eduarda Chiote, António Barahona ou Yvette K. Centeno.
As relações que os diversos poetas estabelecem com as viagens de comboio são naturalmente plurais, mas há um certo tom elegíaco que atravessa a maior parte deles (inevitável, não era?), que vai das memórias de infância (pois todos os comboios vão dar à infância, lê-se no poema de Ana Paula Inácio) às referências literárias (o trágico suicídio de Anna karénina, no final do romance homónimo de Tolstoi, surge referido em dois poemas), dos comboios que vão para Auschwitz (Eduarda Chiote) à desolação das estações abandonadas de hoje (Luís Quintais) e aos comboios fundeados no capim e cujas linhas dão lugar a ciclovias (Rui Lage). No poema “Linha da Lousã”, Pedro Mexia fala do desaparecimento deste ramal que ligava a serra da Lousã a Coimbra, implicando nele como que a perda das memórias pessoais de quem o utilizava:
Do comboio nada ficou,
tiraram carris,
cancelas, estações,

a legibilidade
da infância, o escusado
rumor da adolescência.

Primeiro tiraram o ferro,
e após o ferro a erva,
e após a erva a terra vazia.

Num tom mais cáustico, no poema “Bragança”, Francisco Duarte Mangas alude ao roubo do comboio, meio de transporte que tem vindo a ser sonegado pelos senhores ladrões ao interior do país, em favor do transporte automóvel:
Uma noite roubaram
o comboio
depois a linha
vandalizaram a estação

o futuro é móvel
e individual
disseram os senhores ladrões

Mas é no poema “CM 1185”, de Rui Lage, que este clima de desolação face ao estado atual da ferrovia mais se faz sentir como um lamento, que talvez nem chegue a ser uma denúncia:
Faço escala em passagens de nível
com papoilas de guarda
a comboios fundeados no capim

metálicos bovinos ruminando o sol jacente
no meio das ervas
e da barba amarela dos carris

ciclovias que entram pelo poente,
vazias, e sardões a tostar nas travessas,
zeladores do pó

estações de comboio chefiadas por andorinhas,
fantasma de crianças que atravessam,
de mochila às costas, as férreas linhas.

É que, como se lê no poema “Finisterra”, de Carlos Poças Falcão, se acaso voltamos a cabeça, contemplamos toda a indiferença.

Arnaldo Lopes Marques

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