Cultura | 15-01-2023 21:00

Fandango ribatejano: o pé já não se bate ao desafio nas tabernas da região

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O fado e o fandango no centenário de Sebastião Mateus Arenque
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O fado e o fandango no centenário de Sebastião Mateus Arenque

Os homens já não o dançam ao desafio nas tabernas, nem as mulheres exibem os seus passos num acto de sedução.

O fandango ribatejano parece coisa do passado, que perdura recriado pelos grupos de folclore da região. No centenário de Sebastião Arenque, de Azambuja a Santarém, foram vários os fandangueiros a exibir em palco as variantes da dança que o etnógrafo eternizou em versos.

Dois homens, frente a frente, dançam pela disputa das atenções femininas. Com passos ensaiados, outros de improviso, bailam com vigor numa espécie de jogo de pés acompanhada ao acordeão. Numa taberna de bairro, o fandango entretém os homens que bebem vinho ao balcão ao som de uma gaita-de-beiços. No final do baile uma mulher dança-o com altivez e um ágil trabalhar de pés. O fandango tem no Ribatejo mais de duas dezenas de variantes que se fundem num sentido de pertença e num padrão cultural que se vai mantendo vivo através das recriações dos grupos folclóricos da região.
Quando José Pratas chegou ao Rancho Folclórico da Casa do Povo de Aveiras de Cima, há 45 anos, por lá não se dançava o fandango. A dança tinha-se perdido no tempo, esquecida nos pés outrora jovens dos homens e mulheres da freguesia. Inconformado com esse vazio no cancioneiro, José Pratas foi ao encontro daquele que era considerado, no concelho de Azambuja, o grande sabedor das tradições populares: Sebastião Mateus Arenque, o etnógrafo, poeta e autor de vastas obras com grande apego aos campos da lezíria, ao campino, à agricultura e aos costumes da terra que o viu nascer. “Quando lhe pedi que me ensinasse a preparar um fandango disse-me que não precisava de levar ninguém de Azambuja para Aveiras de Cima, pois se procurasse por lá havia de encontrar quem ainda soubesse como se dançava o fandango do bairro”.
De porta em porta, José Pratas desafiou e gravou antigos fandangueiros da freguesia, que embora já reformados daquele “rendilhado de pés” deram os últimos passos de dança. Aqueles que permitem que actualmente Manuela Abreu e os seus dois filhos, Gustavo e Mariana dancem o autêntico fandango de Aveiras de Cima. “É assim que se dança, a três. Dois homens e uma mulher”, atira Manuela Abreu, momentos antes de subir ao palco do Centro Cultural e Recreativo de Casais dos Britos, casa do Grupo Tradicional Os Casaleiros, que homenageou e lembrou, através do fado e do fandango, Sebastião Mateus Arenque, a 7 de Janeiro, dia em que o “Mestre” e fundador da colectividade completaria 100 anos.
Na adega onde o seu avô vendia vinho, Manuela Abreu e as duas irmãs dançavam o fandango na juventude para divertir a clientela que, embalada, ia ficando para mais um copo. “Cheguei a dançá-lo, em Pontével, em cima de um alqueire com uma garrafa de vinho na cabeça”, diz, explicando que o fandango se “dança da cintura para baixo com o pé a ser bem batido”. No seu caso, sempre “de nariz empinado” e ar vaidoso. A descrição vai ao encontro da que é feita pelos irmãos Vasco e Afonso Carvalho, do Rancho Ceifeiras e Campinos de Azambuja, grupo em tempos ensaiado por Sebastião Arenque. Com 18 e 13 anos, respectivamente, tiveram “o privilégio” de conhecer em vida o “Mestre” Sebastião, falecido em 2019. Elogiam-lhe a obra e “tudo o que fez pela cultura” e pelo fandango.

Uma forma de luta pela igualdade de género
Perante uma plateia composta por dezenas de pessoas, os irmãos Carvalho mostram como se dança o fandango em Azambuja, também conhecido como o fandango da lezíria. Mulheres não entram na dança, ao contrário da vertente recriada pelo Rancho Folclórico do Bairro de Santarém, Graínho e Fontaínhas, onde o fandango começou a ser dançado pelo sexo feminino como forma de luta pela igualdade de género. Com a pretensão “de mostrar que as mulheres faziam o mesmo que os homens”, sublinha Dina Bernardino, membro do grupo de Santarém, ressalvando que pelas mulheres nunca era dançado nas tabernas, espaços à época reservados ao sexo masculino.
Mãe de duas filhas, com 9 e 14 anos, que a acompanham, Dina Bernardino entrou para o rancho folclórico aos dois anos. O fandango, que no seu grupo é cantado, começou a sair-lhe dos pés por volta dos 10. “Lembro-me de ver a ‘Ti’ Quitéria, no alto dos seus 90 anos, com o seu cabelo entrançado a chegar aos pés, a dançar o fandango”, diz.
Apesar dos muitos estudos continuam as dúvidas em torno do surgimento do fandango no folclore ribatejano. Para José Pratas “desvirtua-se o fandango quando se quer dar um ar muito “direito” a quem o dançava. Na sua terra, Aveiras de Cima, era “dançado por cavadores, gente que se curvava para puxar a terra” e, por esse motivo, “estar a endireitar uma pessoa torta é desvirtuar a essência da dança”. Nas palavras de Sebastião Mateus Arenque, o fandango define-se assim: “Galhardo na sua montada/Valente campino conduz a manada/ Através dos campos pl’a lezíria fora. (...) E vem o fandango/ Quem lho leva à palma/ O fandango é seu, está-lhe na alma/Corre-lhe nas veias como o frio no brejo/ Se um dia o fandango/ Por falsas virtudes/ Trocar seus pés rudes por outros mais finos/ Então, já não há campinos/ Morre o Ribatejo!”.

Homem da cultura e caçador de tradições

Foi há 100 anos que Azambuja viu nascer o etnógrafo, poeta de coração, homem da cultura e caçador de tradições. Apaixonado pelas suas raízes Sebastião Arenque deixou um vasto trabalho literário e museológico, fundou o Grupo Tradicional Os Casaleiros e ensaiou o Rancho Ceifeiras e Campinos. “O seu nome é um peso enorme que nos faz ter força para andar com o grupo com algumas dificuldades, hoje maiores porque os jovens não aparecem, mas vamos resistindo”, sublinhou a O MIRANTE Rui Franco, ensaiador d’Os Casaleiros. Em 2000 O MIRANTE editou Foguetes de Lágrimas, um dos livros do poeta que foi guardador de gado em menino e escrevia poemas em papel de merceeiro para enganar a solidão na lezíria. Foi um dos primeiros a ser agraciado com a medalha de honra da Câmara de Azambuja, que baptizou, com o seu nome, o museu municipal. Sebastião Mateus Arenque faleceu aos 97 anos, a 1 de Junho de 2019.

Candidatura a Património da Humanidade arrasta-se desde 2016

Há seis anos que se fala que a dança tradicional mais representativa do Ribatejo vai ser candidata a Património Imaterial da Humanidade. A preparação da candidatura do “Fandango do Ribatejo” à classificação da Unesco, liderada pela Câmara do Cartaxo e pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo parece estar, desde essa altura, num adormecimento profundo. Em Abril de 2022, o município do Cartaxo organizou a conferência “Conversas sobre o Fandango”, onde a vereadora da Cultura, Elvira Tristão, fez saber que foram feitas “reuniões exploratórias” com os oito grupos de folclore do concelho. Na conferência, um dos oradores, Ludgero Mendes, alertava que “a candidatura tem que sair dos gabinetes e ir para a rua porque senão não tem sucesso”.

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