Cultura | 23-04-2024 21:00

Rancho As Janeiras de Glória do Ribatejo é um caso de sucesso e de juventude

Rancho As Janeiras de Glória do Ribatejo é um caso de sucesso e de juventude
Rancho Folclórico As Janeiras foi fundado em 1981 e actualmente conta com mais de meia centena de elementos. fotoDR

Rancho Folclórico As Janeiras de Glória do Ribatejo foi fundado a 3 de Maio de 1981 e conta actualmente com 55 elementos entre os três e os 80 anos de idade.

Dirigentes defendem que as questões culturais e ligadas às tradições já estiveram mais em desuso, mas os jovens cada vez têm menos tempo para dedicar ao associativismo.

Cidália Caneira decidiu integrar o Rancho Folclórico As Janeiras de Glória do Ribatejo há cerca de dois anos. Tinha 49 anos quando foi convidada por amigos para assistir a alguns ensaios do grupo por saberem do seu gosto pela música. Uma vez subiu ao palco para dançar mas depressa se percebeu que tinha um excelente timbre de voz para cantar. “Gosto de cantar, faço-o com gosto, mas nos ensaios, quando são músicas em que não é preciso cantar, aproveito para fazer o gosto ao pé e dançar”, explica a O MIRANTE a assistente técnica e tesoureira do rancho acrescentando que em criança dançava num rancho da aldeia ao qual o seu avô também pertencia.
O Rancho Folclórico As Janeiras de Glória do Ribatejo foi fundado a 3 de Maio de 1981 e conta actualmente com 55 elementos entre os três e os 80 anos de idade. João Gomes, 62 anos, é o presidente da assembleia-geral e João Oliveira, 45 anos, é presidente da direcção. Ambos dançaram na infância e actualmente integram os órgãos sociais do grupo. João Gomes afirma que o grupo tem pujança e após a pandemia de Covid-19 até aumentou o número de elementos. “Depois da pandemia os mais jovens trouxeram muitos amigos, o que é importante para a continuidade do rancho. Temos elementos não só da Glória do Ribatejo mas também de Salvaterra de Magos, Granho e Fajarda. O facto de sermos de uma aldeia pequena torna-nos mais unidos, somos uma família”, diz.
O presidente da assembleia-geral considera que Portugal é muito forte no que toca a tradições mas existem momentos em que “temos vergonha da nossa história”, embora, na sua opinião, não devessemos ter. “As questões culturais e tradicionais já estiveram mais em desuso. Agora voltou a dar-se algum valor”, refere. João Gomes defende a importância “vital” dos ranchos folclóricos por serem o garante da passagem de tradições às gerações mais novas. “Acredito que as tradições se vão manter mas vai ser mais difícil dar continuidade, porque os jovens vão ter menos tempo uma vez que as suas carreiras profissionais vão ser mais exigentes e muitos vão estudar e viver para fora da Glória. Não vai ser fácil, mas é fundamental que se dê continuidade à preservação da cultura portuguesa”, defende o dirigente.
Cada elemento é responsável pelos seus trajes, que habitualmente são feitos por alguém próximo ou pessoas da família, que se disponibilizam. “São pessoas mais velhas que os criam. Quando estas pessoas morrerem é um problema que temos, porque ainda não encontramos solução. Os mais novos têm que aprender senão a tradição vai perder-se. O traje é o maior embaixador da cultura de uma localidade. No nosso caso é o ponto cruz que é único da Glória do Ribatejo”, garante Cidália Caneira.
No rancho há famílias inteiras a integrar o grupo. É o caso de Lucas Oliveira, de 11 anos - filho do presidente da direcção - que anda no rancho praticamente desde que nasceu. Começou a ir aos ensaios com a mãe ainda bebé e acabou por se transformar na mascote do grupo na altura. Jogou futebol mas como ficava sempre no banco optou pelo rancho. Gosta de dançar e quer continuar no rancho apesar de também sonhar em ser piloto de motocross. A seu lado está Samuel Maria que está no rancho desde os três anos. Filho de João Gomes, a sua mãe e irmã também fazer parte do grupo. O jovem de 13 anos toca ferrinhos e sonha com uma vida profissional no mundo da música.

Homenagem a elementos que dedicaram 40 anos ao grupo
O bar que funciona na sede do rancho está aberto todos os fins-de-semanas e feriados e é o ponto de encontro de muitas pessoas da aldeia ribatejana. Os elementos do grupo revezam-se no atendimento. Garantem fazer as melhores sandes de coirato e de bucho da zona. Além disso, vendem bebidas e cafés e admitem que se não fosse a receita que obtêm do bar não conseguiriam aceitar muitos dos convites para participarem em espectáculos durante o ano. Também têm o apoio da Câmara de Salvaterra de Magos, da União de Freguesias de Glória do Ribatejo e Granho e de um supermercado local. “Cada vez precisamos mais de dinheiro porque os custos estão muito elevados sobretudo com os autocarros, que estão muito caros”, conta.
Este ano têm previstas 12 actuações por todo o país. No ano passado foram a Espanha e realizaram o primeiros Festival Ibérico, que contou com a presença de um grupo do país vizinho. Todos concordam que essa iniciativa foi a mais marcante que organizaram depois da pandemia. Também a homenagem a Joaquim Casca e Inácio Custódio, ambos com mais de 80 anos, e que fizeram parte do grupo nos últimos 40 anos, foi um momento emocionante. “Estes senhores, nos últimos 40 anos, dedicaram todos os fins-de-semanas ao rancho. É uma dedicação fora de série”, sublinha João Gomes.

Mais novos são o garante da continuidade da colectividade

Esturreleca: uma sobremesa criada quando não havia dinheiro para doces

O grupo organizou a segunda edição da Noite da Esturreleca. Cidália Caneira conta que antigamente o pão era cozido em fornos caseiros que as pessoas tinham em casa e não havia doces. A esturreleca é um bolo feito com as sobras da massa para fazer pão e dava-se sobretudo aos mais novos. É feito de açúcar, canela e erva doce. Como não existiam formas naquela altura, a folha de couve era colocada por baixo da massa de pão que ia ao forno e tornou-se num doce tradicional típico da Glória do Ribatejo.
Esta foi uma forma do rancho recuperar as tradições locais e aproveitar para angariar receitas. A sede encheu e recebeu cerca de 120 pessoas, a capacidade máxima do espaço. São os elementos do grupo que cozinham a sobremesa. “Esta iniciativa tem corrido muito bem. As pessoas aderem e ajudam-nos financeiramente com a sua participação. É preciso muita carolice para mantermos vivas as nossas tradições”, realça João Gomes.

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