Cultura | 28-11-2025 21:00

“A mesma palavra que diz a verdade diz o erro e a mentira”

“A mesma palavra que diz a verdade diz o erro e a mentira”
Maria Flor Pedroso moderou encontro com Mário Pissara, Mendo Henriques, Carlos Bizarro Morais e Bruno Nobre - foto DR

A sétima edição do Festival de Filosofia de Abrantes deu “O Poder à Palavra” com a participação de muita gente de renome. Mário Pissarra, um dos convidados, salientou-se pela forma como soube prender a plateia e abordar o tema proposto pela organização.

O Poder da Palavra foi o tema da sétima edição do Festival de Filosofia de Abrantes que este ano voltou a ter convidados de peso. O Festival homenageou José Gil a quem calhou também a conferência inaugural. O MIRANTE escolheu um dos últimos encontros que juntou Mário Pissarra, conhecido professor em Abrantes e Torres Novas, Mendo Henriques, Carlos Bizarro Morais e Bruno Nobre. Uma sala com cerca de meia centena de pessoas, a um domingo ao final da tarde, com Maria Flor Pedroso a moderar, ou seja, a fazer perguntas porque de moderação fez-se pouco.
A certa altura da conversa (foi mais uma conversa que um colóquio, o modelo é dar voz aos convidados, que já têm um guião para seguir) alguém levantou a questão que, para o final da iniciativa, começou a ter sentido devido ao facto de muita gente ir abandonando a sala: “porque é que ao ouvirmos várias pessoas a falar aderimos mais ao discurso de uns do que de outros? Sem dúvida que entre todos os participantes, Mário Pissarra foi quem mais prendeu a assistência, e teve um discurso mais próximo daquilo que ele próprio afirmou: “a palavra isolada remete para uma afirmação, mas acompanhada serve para muitas outras coisas”. Depois familiarizou a conversa dando exemplos da sua vida em família ou entre amigos, e referiu várias vezes o caminho entre Torres Novas e Abrantes onde vive e dá aulas. “Uma ex-aluna disse-me uma vez quando me reencontrou que tinha sido o responsável por ela não se suicidar ao proferir certas palavras numa aula. Nunca soube quais foram. Um amigo com quem falava muito, mas a certa altura começou a cansar-me de tanto falar, puxava-me pela camisola para que lhe desse atenção. Tenho um registo existencial dos meus 11 anos que ainda hoje é o meu guia. Andava a tratar das vacas e o meu avô chegou-se a mim e disse-me: tu falas muito rapaz, tens sempre muitas opiniões, assim não vais a lado nenhum. E por causa dessas palavras a minha vida tem sido uma luta contra a dispersão”. “A palavra potencia, embora a palavra seja construção também é construída. Antes da palavra há uma acção, uma criança, antes de chegar ao pensamento, passou pelo sentido”.
A intervenção de Mário Pissarra, tal como as dos outros convidados, derivou muitas vezes para citações de outros filósofos e para as questões do uso da palavra na vida política. “Hoje temos poderes de manipulação mais potentes do que nunca. A mesma palavra que diz a verdade diz o erro e a mentira, e permite a manipulação. Um autocrata nunca se preocupa com as suas mentiras, protege-se sempre com o pensamento. As víboras da palavra existiram ao longo de todos os tempos e em todos os estratos sociais, é pela palavra que as acções se tornam maliciosas”, disse.

Os jovens parecem sempre cansados
Bruno Nobre foi o mais sucinto de todos os oradores, mas deixou um exemplo marcante ao referir que recentemente foi orador num fórum com cerca de 300 estudantes e teve que pedir 10 segundos de silêncio, o que para ele é um sinal de que hoje falamos demais. “Os jovens parecem sempre muito cansados. Há excesso de palavras que impedem a verdadeira comunicação”. É de Bruno Nobre a pergunta inicial deste texto: porque é que há conversas que nos cansam e outras não? “Penso que cansam mais as que não são palavras autênticas. A palavra filosofia é uma palavra que pergunta. É bom não esquecer que não é a palavra que cria a violência. A violência nasce com o ser humano. Não há nada mais violento que usar as palavras para mentir, agredir ou violar. Bater em alguém pode ser menos violento do que dizer-lhe algumas palavras”, acentuou.

Ausência de filosofia chega a parecer desprezo
Carlos Bizarro Morais falou do contraste entre a moda da organização dos festivais de filosofia, como o de Abrantes, mas também como os realizados há anos em Itália, com o que se passa no ensino oficial em Portugal. Segundo ele “há uma ausência que chega a parecer desprezo pelo ensino da filosofia no 12.º ano que é o último antes dos alunos entrarem no ensino superior”. E deu o exemplo de duas escolas de Braga onde, nos últimos dois anos, não encontrou turmas com esta disciplina. Por isso afirmou que “há uma crise da palavra, uma crise de linguagem, a palavra deixou de ser o pilar de acesso à verdade. Como tudo se tem vindo a desmoronar ao longo dos anos, quem sabe estas iniciativas sejam uma forma de salvação e de chamada de atenção para a importância da filosofia no ensino e na vida”, considerou.
Mendo Henriques falou da importância das palavras também para se questionar sobre como as usar se não tiver interlocutor. Depois reconheceu que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo e citou várias vezes Fernando Pessoa, afirmando que ele era o ChatGPT da sua época. “Hoje os tempos são outros, e as inscrições numa parede no Rossio ao Sul do Tejo, onde se escreveu um verso de Pessoa não são pesquisáveis pelo ChatGPT”, afirmou. Disse ainda que os ditadores manipulam as massas com palavras de ordem e deu o exemplo de um jornalista russo que acabou de ser julgado e preso só porque escreveu que “a Rússia devia aproximar-se da civilização”. “O espírito fez-se máquina, estamos rodeados de máquinas há muitos anos, a começar nos óculos e a acabar na caneta com que escrevemos. Estamos habituados às extensões do corpo, a partir de agora vamos ter de nos habituar às extensões da mente”, afirmou, concluindo que “toda a palavra precisa de uma liturgia para fazer o seu efeito”.

José Gil - foto DR

Poder da palavra para combater populismo

Para o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos, a realização do festival é uma boa forma de combater “o populismo”. “Numa altura em que o populismo se apresenta como defensor da razão e explora medos, ressentimentos e ódios, o poder das palavras torna-se ainda mais decisivo”, acrescentou.
O filósofo e ensaísta José Gil alertou para o poder “hipnótico” da palavra e para a sua capacidade de capturar massas, um fenómeno que considera estar na origem de algumas das maiores ameaças às democracias contemporâneas. O pensador sublinhou que não é a lógica nem o conteúdo racional dos discursos que mais influenciam o debate público, mas a “força irracional e contagiante” da própria enunciação, intensificada nos ambientes políticos e mediáticos actuais. José Gil alertou ainda para o papel das redes sociais como “máquinas de amplificação” que alteraram profundamente o poder da palavra no século XXI.

Manuel Valamatos - foto DR

À margem

Maria Flor Pedroso apanhada a tomar notas

Maria Flor Pedroso, jornalista da Antena 1, foi a moderadora deste painel e a certa altura, encantada com as palavras de Mário Pissarra, deixou que se fizesse um silêncio na sala que não estava programado. Quando deu por isso teve de se justificar; “já acabou?, estava aqui a tirar uns apontamentos sobre o que disse, que tem muito a ver com a minha profissão. O uso das palavras para quem faz jornalismo em rádio é diferente do jornalismo escrito”. Um pouco antes deste episódio Mário Pissarra tinha dito que Hitler talvez nunca tivesse chegado ao poder se não fosse o poder da rádio, e Donald Trump talvez nunca tivesse chegado a presidente dos EUA se não fossem as redes sociais”.

À margem

Filosofia é uma palavra que pergunta

A conversa prolongou-se e ficou pouco tempo para as perguntas do público embora um dos oradores tivesse reconhecido que a palavra filosofia é uma palavra que pergunta. Antes de se iniciarem as perguntas, o director da biblioteca António Botto, Francisco Lopes, sentado do lado do público, pediu para ler um poema cujo tema eram as palavras ou sobre as palavras, coisa de dois minutos, mais segundo menos segundo. Curiosamente, o primeiro a perguntar foi Nelson Carvalho, que em vez de ir direito ao assunto criticou a leitura do poema, dizendo que não estávamos ali pela poesia, repetindo o título do Festival com todas as palavras para que ficasse claro que a intervenção do director da biblioteca tinha sido fora do contexto. Faltou quem lhe lembrasse que a ele, como membro da organização e participante, também lhe faltou humildade para dar a voz e a vez ao público, que ao saber que o tempo estava a esgotar-se ficou mudo e quedo.

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