Cultura | 05-01-2026 18:00

Um pouco da história de vida de António Montez que tem 90 anos e vive na Póvoa do Conde

Um pouco da história de vida de António Montez que tem 90 anos e vive na Póvoa do Conde
António Montez celebrou 90 anos de vida a partilhar as suas memórias na Póvoa do Conde

António Montez foi durante quase quatro décadas funcionário da antiga Estação de Águas de Santarém, de onde saiu para a reforma. Aos 90 anos já não trabalha a terra como antigamente mas a sua memória vai até ao tempo em que o pai o tirou da escola para ir trabalhar, embora nada disso o impedisse de se valorizar e sentir-se confiante em tudo a que deitou mãos.

Póvoa do Conde é um lugar do concelho de Santarém, freguesia de Abitureiras, a cerca de 20 minutos da cidade. Foi lá que se realizou no passado sábado, dia 27 de Dezembro, a primeira sessão das “Conversas com História” organizadas por António Montez, um filho da terra que voltou recentemente às suas raízes. O primeiro convidado foi escolhido na família: António Montez, pai do organizador, que baptizou o filho com o seu nome, completava 90 anos no dia em que foi o orador de serviço.
O encontro foi na antiga escola primária, que agora é uma casa para receber visitantes, apoiar as festas da aldeia, servir de apoio a pessoas da terra que por alguma razão possam ficar sem tecto, entre outras actividades. A escola foi totalmente remodelada, tem uma sala aquecida, um bar com cozinha e reúne todas as condições para juntar à mesa cerca de três dezenas de pessoas como aconteceu no passado sábado. António Montez, o convidado para as conversas com história, é uma figura da terra, mas também do concelho. Durante quase 40 anos foi funcionário da antiga Estação de Águas de Santarém, de onde saiu para a reforma.
A conversa, no entanto, versou tudo menos a qualidade da água de Santarém, tudo por causa do moderador que quis explorar o mais possível a memória de seu pai, um homem que nasceu há 90 anos e que ainda guarda memórias dos cinco anos de idade. António Montez não se fez rogado às perguntas, e lá contou sobre os tempos em que a terra era lavrada por juntas de bois, o ano em que apareceu na aldeia o primeiro tractor, as histórias de amor com as raparigas que iam trabalhar para a aldeia, o tempo em que o pai o tirou da escola para ir trabalhar, as boas recordações da professora, o tempo de serviço militar, as recordações sofridas dos muitos anos em que trabalhava no ofício, mas sem nunca deixar de trabalhar a terra, ou por sua conta ou por conta de outros. A criação de gado foi outra das muitas memórias que não esqueceu, contando que chegou a ter vacas de leite, e uma vez também se aventurou a comprar três bois-ratinhos para lhe fazerem o trabalho e para alugar aos seus conterrâneos.
A memória dos lagares de azeite, das noites mal dormidas para trabalhar em várias frentes, o trabalho de aprender sem mestre para saber tanto como os que tiveram o privilégio de estudarem, não azedaram a vida nem a memória de António Montez que, por ter ficado viúvo já há muitos anos, aprendeu a cozinhar e ainda faz a sua vida de forma autónoma sem precisar da ajuda do filho, da nora ou dos netos.
A antiga escola de Póvoa do Conde estava cheia de gente, graças também ao seu avô que teve 10 filhos. Muitos dos presentes eram primos que se quiseram juntar à iniciativa do filho, que não deixou de levar também os netos. Foi a esposa do filho que cozinhou uma sopa da pedra que foi servida no final a todos os presentes, juntamente com um arroz-doce. Mas que se desenganem os apreciadores da tradicional sopa da pedra de Almeirim. Esta sopa da pedra da Póvoa do Conde é garantidamente muito mais deliciosa e apetitosa que a tradicional sopa da pedra que se come por aí. O autor destas linhas só comeu uma tigela cheia, e não repetiu por vergonha. Mas não saímos de lá sem sabermos um pouco do segredo da cozinheira, e do marido da cozinheira, que a certa altura deixou escapar que todas as comidas que se fazem na sua casa ou têm sumo ou raspa de limão.
Uma nota final para darmos protagonismo a um dos companheiros de tertúlia com quem não metemos conversa, mas que no fim disse duas vezes alto e bom som: “Ó senhor António, o senhor não contou nem metade do que sabe, ai isso é que não contou”. A avaliar pelos 90 anos de vida, pelo trabalho que era tomar conta dos antigos depósitos de água que abasteciam a cidade de Santarém, pelo quanto é duro trabalhar a terra e comer do que se produz, é mais que certo que António Montez só contou uma milésima parte do que a sua memória guarda, não deixando de mostrar, porque o filho lhe pediu, como a sua letra ainda é bonita, quase artística, como muitos bons guarda-livros de outros tempos nunca foram capaz de imitar, ou sequer copiar.

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