Reis e reiseiros não deixam morrer a tradição em Alenquer
O concelho de Alenquer mantém viva a tradição secular do Pintar e Cantar dos Reis com 15 grupos activos. A prática, que combina canto e pintura de símbolos, encontra-se em candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Os mais antigos continuam a participar na perspectiva de garantir a continuidade pelas gerações mais novas.
As pinturas deixadas nas portas e paredes e os cânticos entoados na noite de 5 para 6 de Janeiro são, em Alenquer, sinais de uma tradição que resiste ao tempo. Mas, na tarde de domingo, 4 de Janeiro, a tradição também teve lugar no Museu do Presépio, na vila de Alenquer, com o encontro de vários grupos de reis e reiseiros das freguesias do concelho a cantar, enquanto outros pintavam o mural do museu.
Sentado depois de entoar os cânticos, Lúcio Carvalho, 86 anos, contou a O MIRANTE que integra os Cantares dos Reis de Ota desde 1971, embora a memória familiar da prática remonte a tempos anteriores. Recorda o avô e outros familiares ligados ao cantar dos Reis, com os versos a serem aprendidos por repetição, guiados pela figura do apontador, até porque, à época, poucos sabiam ler e escrever e o canto colectivo era essencial para a transmissão oral das quadras.
Os versos que são hoje cantados são os mesmos desde tempos que não há memória. Ao longo dos anos foram aperfeiçoados, nomeadamente no que diz respeito ao português, papel esse que, em Ota, coube durante muitos anos à conhecida Avó Teresinha, falecida em 2025 com 104 anos. Recordada pelo neto, Vasco Gorjão Henriques, sempre que havia palavras a mudar, a avó chamava os reiseiros e aconselhava-os a proceder às alterações gramaticais, até porque a centenária sabia os versos de cor.
Lúcio Carvalho explica que antigamente os reis pintavam com muito sacrifício e em troca de um doce frito e um cálice de aguardente. Hoje, as mesas são fartas de comida e bebida para os reis e reiseiros que andam durante a noite a animar a população.
“Isto é uma paixão, não é só uma tradição. As pessoas não podem, de modo nenhum, abandonar isto. Deixo uma mensagem aos jovens, para que façam desta noite uma noite mágica, mas com respeito por todos aqueles que nos ouvem, que nos abrem a porta, que nos franqueiam a casa para nós comermos e bebermos depois de cantarmos os reis”, sublinha o reiseiro, comovido.
Uma tradição masculina
A tradição do pintar e cantar dos reis é masculina, uma vez que tanto os reis como os reiseiros são homens. A explicação dada pelos mais antigos está relacionada com o timbre da voz feminina, que destoava dos cânticos. António Grilo, 87 anos, conhecido por Tacão, integra o grupo dos Cantares dos Reis de Ota desde 1971 e conta que quatro raparigas quiseram participar numa das noites do Pintar e Cantar dos Reis. “Quando chegaram a meio, não aguentaram mais”, diz, divertido.
Ao lado está sentado Martinho Roma, 78 anos, alentejano e ex-militar da Base de Ota. Nos anos 80 ingressou no grupo de Reis e reiseiros de Ota e chegou a ser apontador. Desde há três anos, devido a problemas de saúde, já não faz a chamada via-sacra, ou seja, já não percorre as ruas na noite de reis. Apesar das limitações físicas, participa no que pode.
Pintar e Cantar dos Reis aguarda decisão da UNESCO
A tradição do Pintar e Cantar dos Reis no concelho de Alenquer encontra-se em processo de candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. O dossiê foi entregue à Comissão Nacional da UNESCO em Março de 2025, após a prática ter sido previamente classificada como de interesse municipal e inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
De acordo com a vereadora da Cultura da Câmara de Alenquer, Cláudia Luís, deverão existir novidades sobre a candidatura em Março, até porque, na semana passada, a autarquia foi contactada. Ao nosso jornal, a autarca explica que os vídeos produzidos sobre a tradição tiveram de ter todas as legendas adaptadas para inglês, incluindo as expressões populares, por se tratar de uma exigência da UNESCO. Actualmente, estão no activo 15 grupos de reis e reiseiros no concelho, número que, segundo Cláudia Luís, “é um grande orgulho”.
População de Casais do Chorão retomou tradição
Luís Vitorino, natural e residente em Casais do Chorão, integra um grupo que retomou, há cerca de três anos, a tradição do Cantar e Pintar dos Reis naquela aldeia situada nas encostas da Serra de Montejunto. Segundo explica, a prática existia há muitos anos, mas esteve interrompida, tendo sido reactivada por um conjunto de moradores que procuraram reorganizar-se para garantir a sua continuidade.
Para além dos reis, o grupo tem procurado recuperar e manter outras tradições locais, como as fogueiras dos Santos Populares, adaptadas às restrições actuais. Durante a época natalícia, os moradores organizam um presépio comunitário que envolve toda a população. O grupo dos Casais do Chorão é composto essencialmente pelos 27 habitantes da localidade, número que aumenta aos fins-de-semana com a presença de familiares e amigos. No total, participam regularmente cerca de três dezenas de pessoas. Em Alenquer, estiveram presentes, no domingo, onze elementos para assinalar a tradição dos reis.


