Cultura | 25-01-2026 07:00

Histórias de vida que se cruzam na partilha da paixão pela música

Histórias de vida que se cruzam na partilha da paixão pela música
Concerto de Reis em Tomar juntou mais de 60 coristas de três grupos - foto O MIRANTE

O tradicional Concerto de Reis voltou a encher a igreja de Santa Maria do Olival em Tomar. Em palco estiveram o Coro Canto Firme, o Coro Alvacanto e a Orquestra da Amizade, reunindo mais de 60 coristas de várias idades. O MIRANTE esteve presente e conversou com o maestro do Coro Canto Firme e com duas coristas que partilham a sua paixão pela música.

A Igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar, encheu para o Concerto de Reis, uma iniciativa com mais de 40 anos de história no concelho. Em palco estiveram o Coro Canto Firme, o Coro Alvacanto e a Orquestra da Amizade, reunindo mais de 60 coristas de várias idades, sob a direcção musical de António de Sousa. O concerto foi organizado pela Canto Firme de Tomar – Associação de Cultura, com o apoio da Câmara de Tomar.
O MIRANTE esteve presente e conversou com António de Sousa, maestro do Coro Canto Firme e sócio fundador da associação, que explicou que a origem do Concerto de Reis está num projecto desenvolvido nas escolas do concelho, dedicado ao levantamento das tradições natalícias. Foi a partir desse trabalho que se concluiu que os cantares de Reis tinham um papel central na tradição local, dando origem, primeiro, a uma festa popular na Praça da República, com o madeiro e grupos de cantares, e mais tarde a um concerto de carácter erudito. Actualmente, o Concerto de Reis apresenta música litúrgica de várias épocas, mantendo sempre como fio condutor o Natal e os Reis.
Com 76 anos, António de Sousa tem um percurso de vida marcado por desafios e por uma ligação profunda à música. Beirão de nascimento, chegou a Tomar com apenas cinco anos, depois de um acidente com um foguete na sua aldeia que o deixou temporariamente sem conseguir articular palavras e com gaguez acentuada. A integração na escola foi difícil, tanto pelo sotaque como pelas dificuldades de fala, o que o levou a passar muito tempo em casa. Foi aí que começou a aproximar-se da música, através de um piano de família que pertencia à avó. Sem saber tocar, fazia “barulho”, até que o pai decidiu inscrevê-lo em aulas de piano. Esse foi o início de um percurso que passou pelo conservatório, pela formação em Ciências Musicais, pela investigação em música contemporânea portuguesa, com especial destaque para a obra de Fernando Lopes-Graça, e pela direcção coral.
Durante cerca de duas décadas foi director pedagógico da escola de música da Canto Firme. Apesar de reconhecer as dificuldades de viver da música em Portugal, António de Sousa afirma que nunca deixou de encarar a música como um verdadeiro “sacerdócio”. Diz que, quando dirige músicos, entra num estado de grande concentração, quase como se fosse “outra pessoa”, mas que tudo regressa à normalidade quando o concerto termina. Ao longo da vida passou por vários estilos, do jazz à música clássica.

Histórias de vida que se cruzam no coro
O MIRANTE falou também com duas coristas. Joana Oliveira, de 36 anos, é natural de Oeiras e vive em Tomar há cerca de dois anos. A mudança para Tomar aconteceu por motivos pessoais, numa decisão consciente de optar por um ambiente mais calmo e próximo da natureza. Em Tomar encontrou a qualidade de vida que procurava, mas sentiu a necessidade de criar laços sociais e culturais. Foi nesse contexto que se juntou ao coro da Canto Firme. Vinda de uma família de músicos — o pai é maestro — Joana já tinha experiência coral no Coro de Santo Amaro de Oeiras. Trabalha a partir de casa como argumentista para cinema e televisão, em regime freelancer, uma actividade que considera criativamente estimulante, mas instável. Para Joana Oliveira, o coro tem também uma função de equilíbrio pessoal, permitindo-lhe sair do isolamento do trabalho em casa e manter uma ligação activa à música, que sempre fez parte da sua vida.
Marieta Bernardino, de 71 anos, integra o coro da Canto Firme desde 2013. Natural do Porto, fez carreira administrativa no Hospital de Santo António, conciliando sempre o trabalho com a participação em vários coros, desde os tempos de escola, passando pelos coros das igrejas e pelo coro do próprio hospital. Mudou-se para Tomar em 2011, após a aposentação, num período marcado pelo apoio a vários familiares que sofreram AVCs, assumindo durante anos o papel de cuidadora.
Depois do falecimento desses familiares, Marieta Bernardino procurou novas formas de ocupar o tempo e encontrou na Universidade Sénior e no canto coral uma resposta. O convite para integrar a Canto Firme surgiu através de colegas da universidade e permitiu-lhe regressar a uma actividade que sempre considerou essencial na sua vida. Hoje, diz sentir-se bem em Tomar, uma cidade que descreve como tranquila e bonita.

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