Líder da associação Zero foi a Envendos conferenciar sobre o ambiente e a paz no mundo
Francisco Ferreira, o líder da associação ambientalista Zero, foi a Envendos na noite fria de 16 de Janeiro, conversar com cerca de duas dezenas de pessoas sobre os problemas ambientais que põem em causa a sobrevivência como a conhecemos.
Embora Francisco Ferreira tenha adoptado na sua conferência o estilo de quem foi dar uma aula nocturna a alguns populares do concelho de Mação, não deixou de anunciar números e contar casos em que se prova que a biodiversidade está em perigo, que os incêndios, o uso continuado dos combustíveis fósseis, as desigualdades sociais, entre outros, começam a deixar o planeta Terra numa situação periclitante. Segundo anunciou, até final deste século as temperaturas podem subir de três a sete graus, o clima vai ficar de tal modo afectado que os períodos de secas e as tempestades vão fazer ainda mais vítimas. Se tudo continuar como está vamos perder muito provavelmente metade de todas as espécies animais que existem no mundo. Dando exemplos concretos, contou que os fogos de 2017, que fizeram vários mortos e devastaram parte importante da floresta portuguesa, deveram-se em parte às condições climatéricas, e que no ano seguinte, na zona de Leiria, a poucos quilómetros da costa, foi detectado um furacão no mar que por pouco não chegava a terra, o que é uma situação inédita no nosso país.
Depois de anunciar quais são as alterações do milénio para as questões da educação ambiental, igualdade de oportunidades, acesso à saúde e aos bens essenciais, entre outros, falou nos 17 objectivos para um novo planeta que, resumidamente, devem incluir a paz no mundo, justiça e água potável para todas as pessoas. Em 2022 o Paquistão teve inundações que afectaram a vida de mais 33 milhões de pessoas, ou seja, um terço do país esteve submerso devido a inundações repentinas que também ocorreram em áreas vizinhas da Índia e do Afeganistão, lembrou, para justificar os avisos que sobre a falência do planeta.
Embora reconhecendo que Portugal é o país da Europa onde há mais e melhor biodiversidade, lembrou que somos um dos países do mundo onde se come mais peixe e carne, pelo que devemos reduzir o consumo de proteína animal de forma a ajudarmos nas questões ambientais, lembrando que Portugal enfrenta nesta altura um problema grave que são os aterros, quase todos e a rebentar pelas costuras.
110 milhões de euros para a exploração de lítio em Boticas
Dois dias depois da conferência em Envendos, foi notícia o financiamento por parte do Governo português a uma empresa alemã para a exploração de lítio em Boticas, o que originou forte contestação dos autarcas. Segundo foi anunciado, o apoio à exploração é de 110 milhões de euros e o investimento do Governo português é a fundo perdido.
Francisco Ferreira também falou do assunto da exploração dos recursos naturais, como o lítio, mas limitou-se a dar exemplos, afirmando que hoje as baterias têm sete vidas depois de acabarem nos motores dos carros, e que há uma empresa na Holanda que recebe todas as baterias, e que cada um de nós deve dar o exemplo mandando consertar os electrodomésticos, em vez de os deitarmos para o lixo, quando na maioria das vezes têm reparação. Contou ainda o caso do seu micro-ondas, que avariou durante um jantar com amigos na sua casa no ano 2000, e que depois de consertado ainda dura, apesar dos conselhos para que o trocasse por um novo.
Um líder a falar para quem o conhece
Francisco Ferreira tem um irmão a viver em Envendos, daí talvez as razões da sua presença na aldeia, numa noite fria, para uma conferência que tratou apenas dos problemas gerais e menos dos particulares, ou seja, apesar do Médio Tejo viver graves problemas ambientais, de Envendos ter umas termas subaproveitadas, que poderiam ser o ex-libris da região, do rio Tejo correr ali a poucos quilómetros com um caudal que depende muito das barragens, da plantação desordenada de eucaliptos e da falta de ordenamento do território e do grave problema da desertificação, ficou tudo para outra altura mais a propósito e, quem sabe, numa noite de Verão em que a mobilização não seja feita para uma conferência, mas sim para um debate.
A prova de que Francisco Ferreira se sentia entre família deu-se no final de quase duas horas de conversa, depois de ter citado várias vezes situações caseiras na relação com os filhos e com a esposa; com um livro infanto-juvenil na mão, aberto numa das páginas, leu em voz alta cerca de três dezenas de conselhos que todos devemos seguir para vivermos num planeta mais harmonioso e mais justo para todos os seus habitantes.


