Jovens de Arruda dos Vinhos dinamizam festival de cinema rural há mais de uma década
Há dez anos, Arruda dos Vinhos era uma terra sem cinema e um grupo de jovens, cansados da apatia, decidiram lançar um festival de cinema que lentamente se tem afirmado no panorama nacional e ajudado a lançar jovens cineastas da terra e do país. Festival realiza-se habitualmente no Outono.
O Curt’Arruda auto-intitula-se como o festival de cinema rural mais urbano de Portugal e tem sido dinamizado há mais de uma década por jovens do concelho de Arruda dos Vinhos e da região. Mais do que um evento cultural, o Curt’Arruda afirma-se como um ponto de encontro entre cineastas, público e comunidade, funcionando também como uma resposta à escassez de oferta cinematográfica fora dos grandes centros urbanos.
Bernardo Seixas, 25 anos, foi o programador e responsável da última edição do festival e trabalha profissionalmente na área do cinema. A sua formação inicial foi num curso profissional de comércio, mas a vontade de encontrar outro caminho levou-o a frequentar um curso de pós-produção de vídeo, onde descobriu o cinema como linguagem e forma de pensar o mundo. Foi assim que chegou a Arruda dos Vinhos, terra onde filmou o seu projecto académico.
A competição do festival reúne curtas-metragens de autores nacionais mas também tem uma categoria dedicada exclusivamente a obras de cineastas da terra (ou projectos filmados em Arruda dos Vinhos), sessões que geralmente estão sempre com lotação esgotada. “Isso traduz o espírito do festival, de apresentar cinema feito de e para a terra”, refere Bernardo Seixas a O MIRANTE.
O festival acontece, por norma, no Outono, estando o programa deste ano ainda a ser preparado. A organização envolve uma equipa nuclear de jovens que trabalham desde Janeiro na preparação do festival, tudo por amor à camisola. O número de voluntários cresce para meia centena de pessoas durante o próprio festival. É um evento de âmbito nacional mas profundamente enraizado na comunidade local, refere Bernardo Seixas. Há realizadores convidados, estreias, cine-concertos e até um espaço dedicado à exibição de filmes realizados nas escolas do básico e secundário do concelho. Sempre que possível, os realizadores são convidados a estar presentes, promovendo o contacto directo entre criadores e público, algo que a organização considera essencial para despertar vocações artísticas.
Uma terra com uma luz incrível
Para Bernardo Seixas, Arruda dos Vinhos é uma terra com uma “luz incrível” para filmar. Estar situado num vale torna também o espaço envolvente da vila muito interessante para os cineastas, defende. “Interessa-me muito o cinema como tipo de linguagem, uma forma de pensar o mundo em que estamos inseridos. A sala de cinema é uma experiência social e fico triste quando vejo salas vazias, porque o objectivo do cinema é estarmos rodeados de outras pessoas. Se nada for feito, o cinema corre o risco de se tornar um prazer de nicho”, lamenta.
O responsável diz que é importante existirem festivais que descentralizem o cinema para outras zonas fora de Lisboa e Porto. “Apresentamos filmes que nos põem a pensar. Temos de desconstruir os gostos a que estamos habituados, porque o cinema não pode ser só dominado pela produção americana”, conclui.
O festival foi fundado há dez anos por André Agostinho, actual vereador socialista do município. A O MIRANTE, conta que a ideia surgiu depois de ter estado envolvido na criação de um filme de terror seleccionado para o MotelX e que acabou por fazer sucesso quando foi exibido na sala do Clube Recreativo Desportivo Arrudense, um dos espaços do concelho onde o festival hoje se realiza.
Desde o início, conta, houve a preocupação de não criar “apenas mais um festival”. A escolha de uma temática foi central. Numa altura em que a Arruda dos Vinhos atravessava um forte crescimento industrial, os fundadores sentiram a necessidade de preservar e reflectir sobre a ruralidade do território. Assim nasceu o conceito do Curt’Arruda: pensar a ruralidade através do cinema, acolhendo filmes que dialogassem com esse universo de forma directa ou indirecta. Uma década depois, o festival prova de que uma aposta feita com convicção, identidade e ligação ao território pode transformar-se num projecto cultural estruturante, sem perder a sua origem comunitária.


