Cultura | 09-02-2026 15:00

Jovens de Arruda dos Vinhos dinamizam festival de cinema rural há mais de uma década

Jovens de Arruda dos Vinhos dinamizam festival de cinema rural há mais de uma década
Bernardo Seixas, que trabalha na área do cinema em Portugal, é o director da edição de 2025 do festival de cinema Curt’Arruda, que quer colocar a comunidade a pensar o território - foto O MIRANTE

Há dez anos, Arruda dos Vinhos era uma terra sem cinema e um grupo de jovens, cansados da apatia, decidiram lançar um festival de cinema que lentamente se tem afirmado no panorama nacional e ajudado a lançar jovens cineastas da terra e do país. Festival realiza-se habitualmente no Outono.

O Curt’Arruda auto-intitula-se como o festival de cinema rural mais urbano de Portugal e tem sido dinamizado há mais de uma década por jovens do concelho de Arruda dos Vinhos e da região. Mais do que um evento cultural, o Curt’Arruda afirma-se como um ponto de encontro entre cineastas, público e comunidade, funcionando também como uma resposta à escassez de oferta cinematográfica fora dos grandes centros urbanos.
Bernardo Seixas, 25 anos, foi o programador e responsável da última edição do festival e trabalha profissionalmente na área do cinema. A sua formação inicial foi num curso profissional de comércio, mas a vontade de encontrar outro caminho levou-o a frequentar um curso de pós-produção de vídeo, onde descobriu o cinema como linguagem e forma de pensar o mundo. Foi assim que chegou a Arruda dos Vinhos, terra onde filmou o seu projecto académico.
A competição do festival reúne curtas-metragens de autores nacionais mas também tem uma categoria dedicada exclusivamente a obras de cineastas da terra (ou projectos filmados em Arruda dos Vinhos), sessões que geralmente estão sempre com lotação esgotada. “Isso traduz o espírito do festival, de apresentar cinema feito de e para a terra”, refere Bernardo Seixas a O MIRANTE.
O festival acontece, por norma, no Outono, estando o programa deste ano ainda a ser preparado. A organização envolve uma equipa nuclear de jovens que trabalham desde Janeiro na preparação do festival, tudo por amor à camisola. O número de voluntários cresce para meia centena de pessoas durante o próprio festival. É um evento de âmbito nacional mas profundamente enraizado na comunidade local, refere Bernardo Seixas. Há realizadores convidados, estreias, cine-concertos e até um espaço dedicado à exibição de filmes realizados nas escolas do básico e secundário do concelho. Sempre que possível, os realizadores são convidados a estar presentes, promovendo o contacto directo entre criadores e público, algo que a organização considera essencial para despertar vocações artísticas.

Uma terra com uma luz incrível
Para Bernardo Seixas, Arruda dos Vinhos é uma terra com uma “luz incrível” para filmar. Estar situado num vale torna também o espaço envolvente da vila muito interessante para os cineastas, defende. “Interessa-me muito o cinema como tipo de linguagem, uma forma de pensar o mundo em que estamos inseridos. A sala de cinema é uma experiência social e fico triste quando vejo salas vazias, porque o objectivo do cinema é estarmos rodeados de outras pessoas. Se nada for feito, o cinema corre o risco de se tornar um prazer de nicho”, lamenta.
O responsável diz que é importante existirem festivais que descentralizem o cinema para outras zonas fora de Lisboa e Porto. “Apresentamos filmes que nos põem a pensar. Temos de desconstruir os gostos a que estamos habituados, porque o cinema não pode ser só dominado pela produção americana”, conclui.
O festival foi fundado há dez anos por André Agostinho, actual vereador socialista do município. A O MIRANTE, conta que a ideia surgiu depois de ter estado envolvido na criação de um filme de terror seleccionado para o MotelX e que acabou por fazer sucesso quando foi exibido na sala do Clube Recreativo Desportivo Arrudense, um dos espaços do concelho onde o festival hoje se realiza.
Desde o início, conta, houve a preocupação de não criar “apenas mais um festival”. A escolha de uma temática foi central. Numa altura em que a Arruda dos Vinhos atravessava um forte crescimento industrial, os fundadores sentiram a necessidade de preservar e reflectir sobre a ruralidade do território. Assim nasceu o conceito do Curt’Arruda: pensar a ruralidade através do cinema, acolhendo filmes que dialogassem com esse universo de forma directa ou indirecta. Uma década depois, o festival prova de que uma aposta feita com convicção, identidade e ligação ao território pode transformar-se num projecto cultural estruturante, sem perder a sua origem comunitária.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias