Mãos que moldam o tempo: a cerâmica de Maria Luísa
Quando as mãos de Maria Luísa Leitão tocam no barro, o tempo parece abrandar. Aos quase 73 anos, esta ceramista do Entroncamento continua a transformar memórias, sensações e sonhos em peças únicas, onde peixes, búzios e gaivotas ganham vida. Cada obra é feita à mão, sem moldes, sem pressa, apenas guiada pelo instinto e pela lembrança da sua infância.
O percurso artístico de Maria Luísa Leitão não é linear, mas é profundamente marcado pela memória e pela liberdade criativa, resultando em peças únicas e especiais. Natural de Vila Nova da Barquinha e residente no Entroncamento, Maria Luísa sente desde criança uma ligação intensa ao barro. Recorda com clareza os dias de chuva em que, ainda menina, recolhia barro à porta das vizinhas para criar pequenos bonecos nos degraus brancos de casa. Há pessoas que parecem ter nascido para criar. Maria Luísa Leitão é uma delas.
A memória mais antiga de Maria Luísa com o barro permanece vívida: “em dias de chuva, encontrava barro à porta de uma vizinha e, ainda menina, escolhia os melhores bocados para moldar bonecos improvisados nos degraus brancos de casa. As queixas da vizinha chegavam sempre à minha mãe e as pequenas obras de arte eram desfeitas”. Recorda também que nasceu com seis dedos numa mão, que foram retirados antes de ir para a escola, e confessa, em jeito de brincadeira, que talvez daí tenha surgido a certeza de que era “habilidosa”.
Apesar de uma veia artística adormecida durante anos, enquanto a vida a levou por outros caminhos, incluindo o trabalho num centro de saúde, o barro voltou a chamá-la mais tarde. O reencontro aconteceu de forma simples: os filhos trouxeram barro da escola e ela moldou um boneco quase sem pensar. Sem ferramentas em casa, foi à escola da Barquinha cozer a peça numa mufla, recebendo ali a sua primeira verdadeira lição de cerâmica. Em 2006, enfrentando desafios pessoais e passando mais tempo em casa, começou a criar vasos para as plantas do quintal. Desde então, nunca mais parou. Hoje, com quase 73 anos, continua a produzir sempre que pode.
Para Maria Luísa moldar o barro é terapia. “Esqueço tudo, até de pagar a renda da casa”, conta com um sorriso. Trabalha sem roda de oleiro e sem moldes, deixando que as mãos conduzam o processo. Começa sempre com uma bola de barro e vai acrescentando matéria, moldando as formas conforme a intenção. As ferramentas são simples: uma caneta, uma lima e um palito. A inspiração não vem de sítios específicos, mas do momento e das memórias. O mar surge frequentemente nas suas peças: peixes, búzios e, sobretudo, gaivotas, que atravessam toda a sua obra. Uma das criações mais marcantes é um peixe com uma gaivota pousada, resultado de muitas tentativas e da convicção de que “as mãos têm de executar aquilo que a mente pensa”.
Apesar de não vender muitas peças, já participou em exposições e deseja realizar uma nova este ano. Cada obra é única e pode levar de um a oito dias para ser concluída. “O oleiro nunca tem tempo, porque o barro tem vida própria”, sublinha, mostrando a O MIRANTE a colecção que cresce numa pequena divisão da casa, já quase sem espaço. Eventualmente, brinca, terá de ceder algumas peças para continuar a criar. Quanto aos sentimentos que cada visitante pode experimentar ao ver as suas peças, Maria Luísa é directa: “cada um sente o que surgir, tal como eu sinto quando as faço. Talvez calma, talvez o desejo de voar livre como uma gaivota”, partilha.


