Casa do Povo de Mouriscas: 90 anos de história, resistência e esperança no futuro
Parada e em risco de desaparecer, a Casa do Povo de Mouriscas, no concelho de Abrantes, ganhou uma nova vida com a entrada de uma direcção jovem e determinada. O MIRANTE esteve na sede da colectividade e conversou com a presidente da direcção.
Nove décadas depois da sua fundação, a Casa do Povo de Mouriscas continua a ser um espelho da própria evolução da freguesia. Entre mudanças sociais, períodos de maior dinamismo e fases de grande fragilidade, a associação foi-se adaptando ao tempo e às pessoas. Hoje, assume-se como um espaço de encontro, convívio e participação cívica, onde o desporto, a cultura e o lazer se cruzam com um forte sentido de comunidade. O MIRANTE esteve na sede da Casa do Povo de Mouriscas, no concelho de Abrantes, onde conversou com a presidente da direcção, Ana Pedro, e com o presidente da assembleia geral, Abílio Gonçalves.
Ana Pedro explica que a actual direcção chegou à Casa do Povo há cerca de oito anos, por convite da direcção anterior, numa altura em que a associação estava praticamente parada e em risco de desaparecer. O apelo foi feito em nome da história da colectividade, a mais antiga da freguesia, e da importância que sempre teve para a população. Um dos maiores desafios, recorda a presidente, foi a regularização estatutária. Durante muitos anos, a colectividade regeu-se pelo estatuto geral das Casas do Povo, que já não correspondia à actividade real da associação. Foi necessário alterar estatutos e tratar de um processo burocrático complexo, que acabou por ser “quase como criar uma associação do zero”. Actualmente, a Casa do Povo de Mouriscas conta com cerca de 150 sócios, um número que tem vindo a crescer, sobretudo no último ano, com a entrada de cerca de 30 novos associados. A diversidade etária é uma das marcas da associação, com sócios dos sete aos 94 anos.
Actividades para todos os gostos
No plano de actividades, o desporto assume-se como um dos pilares da Casa do Povo de Mouriscas. O futebol sénior do INATEL é a modalidade que mais visitantes traz à freguesia. A oferta inclui ainda ténis de mesa, aulas de yoga e várias iniciativas culturais e recreativas, como a festa de Verão e actividades pontuais dirigidas às crianças. Ana Pedro sublinha também a importância das tertúlias semanais, realizadas todas as quintas-feiras na sede da associação. Estes encontros, que juntam entre 30 e 60 pessoas, são momentos de convívio e proximidade, com pratos confeccionados por cozinheiros convidados.
A presidente explica que a Casa do Povo funcionou, ao longo dos anos, em vários espaços. Quando a actual direcção entrou, existiam dois edifícios, mas a falta de condições financeiras obrigou a optar por apenas um. A escolha recaiu sobre o Campo das Aldeias, por já ser considerado a sede e por integrar o campo de futebol. Actualmente, a sede dispõe de um pavilhão com salão e cozinha, balneários, bar, lavandaria e campo de futebol. O pavilhão foi construído há cerca de quatro anos e continua a ser alvo de melhorias. Para o futuro, está prevista a substituição integral de um telhado em amianto, uma obra que contará com um apoio municipal de 20 mil euros.
Histórias de vida ligadas à Casa do Povo
Ana Pedro está ligada à Casa do Povo de Mouriscas desde 2017. Natural de Lisboa, filha de pais de Mouriscas, decidiu regressar à terra depois de concluir os estudos em Santarém, por não se rever numa vida na capital. O primeiro contacto com o associativismo surgiu através do trabalho que desempenhou na junta de freguesia, em 2014. Vive actualmente em Mouriscas, onde formou família, e concilia a actividade associativa com o trabalho como administrativa num laboratório de próteses dentárias e a gestão, em part-time, de um alojamento local. Assumiu a presidência da direcção há dois anos.
Abílio Gonçalves, advogado e coronel do Exército, regressou, após a reforma, à terra onde nasceu e cresceu. Foi jogador da equipa de futebol da Casa do Povo de Mouriscas aos 16 anos e, depois de uma vida profissional que o levou a vários países, incluindo a Índia, voltou à colectividade para contribuir com a sua experiência, sobretudo na área jurídica. Apesar de manter casa em Lisboa, passa hoje a maior parte do ano em Mouriscas.


