Mesmo numa era digital os jovens ainda sentem o encanto da rádio
A 13 de Fevereiro assinalou-se o Dia Mundial da Rádio e O MIRANTE foi à Escola Secundária Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, conhecer o clube de rádio, que emite diariamente nos corredores da escola e movimenta várias dezenas de jovens.
A rádio nas escolas tem-se afirmado como um factor positivo no desenvolvimento dos jovens, ajudando-os a adquirir competências comunicacionais, espírito crítico, responsabilidade, capacidade de organização e competências sociais. Ao falar para a comunidade escolar, ao seleccionar conteúdos, ao trabalhar em equipa e ao gerir diferentes opiniões, os alunos aprendem a comunicar melhor, a ouvir o outro e a assumir um papel activo na vida escolar. A convicção é de José Carlos Morais, coordenador do clube de rádio da Escola Secundária Reynaldo dos Santos em Vila Franca de Xira.
Na manhã de 13 de Fevereiro, quando O MIRANTE foi à escola conhecer o clube, estavam a realizar emissão os alunos do 12º ano Mariana Macau, Elisa Cunha e Duarte Almeida. “Numa altura em que muitos jovens apenas olham para os ecrãs, a rádio é excelente para lhes desenvolver competências de comunicação que serão muito importantes para o futuro das suas vidas e é isso que aqui na escola queremos manter”, explica José Carlos Morais.
O Clube de Rádio nasceu naquela escola em 1988. Nesse ano um grupo de alunos decidiu animar os intervalos com música criando uma rádio escolar. Dos gira-discos às cassetes e ao streaming, a tecnologia evoluiu mas os princípios mantiveram-se. O velho equipamento foi adquirido na altura pelos próprios alunos, através de rifas e iniciativas organizadas por eles. Parte desse material ainda existe na escola, funcionando quase como um pequeno museu da rádio.
Arranjou-se uma sala pequena para montar o equipamento e criar uma espécie de estúdio, com uma janela de vidro, à semelhança dos estúdios de rádio antigos. Hoje a realidade é diferente: as colunas estão no interior e a música passa dentro do espaço escolar. Ao longo dos anos passaram pelo Clube de Rádio da Reynaldo muitos alunos, alguns dos quais seguiram carreiras na televisão, na rádio e nos jornais. A escola tinha, inclusive, um curso de Comunicação, com a disciplina de Jornalismo, o que reforçava o contacto dos estudantes com o universo dos media.
Promover a música de qualidade e evitar a ditadura do algoritmo
Hoje o clube de rádio continua a gerar interesse dos alunos, contando com quase duas dezenas de jovens envolvidos. Alguns querem seguir carreiras na área da comunicação, outros nem por isso e preferem as áreas das ciências. José Carlos Morais tem lutado junto dos alunos para consumirem música de qualidade e incentiva-os a ouvirem rádio e a escolherem música que se enquadre nesses padrões.
Além da música existem dias temáticos na rádio da escola. Já houve emissões dedicadas ao Dia Nacional da Filosofia, ao Dia das Línguas (com passagem exclusiva de músicas francesas) e até momentos em que foi necessário preparar uma playlist em mandarim. O espaço também é utilizado para transmitir podcasts e trabalhos realizados pelos alunos, bem como avisos urgentes sobre actividades no auditório ou encerramento da escola.
Para Mariana, Elisa e Duarte o clube de rádio é uma forma de se envolverem mais na comunidade. Querem contrariar a “zona de conforto” musical dos colegas, numa altura em que as plataformas de streaming filtram os gostos musicais à base de algoritmos e cada pessoa ouve tendencialmente o que já sabe que gosta. A rádio escolar surge, assim, como uma forma de “picar” os ouvintes para fora dessa bolha.
Entre as preferências musicais dos alunos estão o rock dos anos 60 e 70, jazz, rock alternativo como Radiohead, Nick Cave ou The National, além de bandas mais recentes como Geese. Há também gosto por música popular brasileira como o samba, bossa nova, música clássica e metal.
Mesmo na era digital a rádio continua a ser um espaço de partilha, descoberta e construção de comunidade, sendo um meio acessível a todos, mesmo em áreas remotas ou com recursos limitados, o que a torna vital para informar a população em situações de emergência, promover a diversidade cultural e linguística, estimular a participação cívica e social e dar voz a grupos minoritários ou com menos acesso a outros meios de comunicação.


