Cultura | 21-02-2026 12:00

Associação do Alqueidão é o coração que mantém viva a aldeia dos “Índios”

Associação do Alqueidão é o coração que mantém viva a aldeia dos “Índios”
Tiago  Alberto e Ana Canha integram os órgãos sociais da colectividade do concelho de Tomar - foto O MIRANTE

Num lugar com apenas 140 habitantes, há uma casa que nunca fecha portas. A Associação Recreativa do Alqueidão é abrigo, palco, café, sede de decisões e símbolo de união numa terra que aprendeu a sobreviver à distância, ao isolamento e ao tempo.

Na freguesia de Olalhas, no concelho de Tomar, ergue-se o Alqueidão, pequena aldeia no mapa, mas grande na identidade. Conhecidos como os “Índios”, pela união férrea e hospitalidade que oferecem a quem chega, os habitantes fazem da Associação Recreativa do Alqueidão o verdadeiro centro da vida comunitária. Fundada em 1978, no pós-25 de Abril, a colectividade nasceu como espaço de convívio, mas rapidamente se tornou muito mais do que isso: foi abrigo, sala de reuniões, palco cultural e ponto de encontro dos construtores da terra que, nos anos 70, partiram para Lisboa para ajudar a edificar a capital, os chamados “Patos Bravos”. Ali discutiam-se melhoramentos, celebravam-se conquistas e reforçavam-se laços. Hoje, 47 anos depois, continua a ser a única porta aberta na aldeia.
Aberta sete dias por semana, 365 dias por ano, com bar em funcionamento permanente, a associação é o ponto de encontro de residentes e visitantes. “É aqui que tudo acontece”, resume o presidente, Tiago Alberto, de 40 anos. Ao seu lado, a presidente da assembleia-geral, Ana Canha, 57 anos, sublinha o papel estruturante da colectividade numa terra onde o êxodo rural foi levando comércio, serviços e iniciativas. O Alqueidão já teve grupo de teatro, equipa de futebol e intensa vida cultural. Hoje, resiste com aquilo que tem de mais forte: a união.
Ao longo do ano realizam-se o Cantar dos Reis, Noites de Fados, Magusto e a emblemática Festa Anual de Verão em honra de Nossa Senhora da Saúde e de Santo António. “Não é uma festa, é um festival”, dizem, com orgulho. A dimensão do evento ultrapassa largamente a escala da aldeia e mobiliza entre 120 a 150 voluntários, prova de que a força da terra não se mede pelo número de habitantes.

Riqueza natural, limitações estruturais
Com proximidade ao rio Zêzere e uma praia fluvial que, no Verão, atrai centenas de pessoas, o Alqueidão tem potencial turístico evidente. A valorização daquele espaço balnear é vista como estratégica, não apenas para a aldeia, mas para todo o concelho. Ainda assim, persistem dificuldades: apenas uma estrada de acesso, ligações internas pouco favoráveis e ausência de equipamentos de lazer, como parque infantil ou espaços desportivos. “Falta entretenimento e melhores acessibilidades”, reconhece Tiago Alberto, apontando a distância à cidade como obstáculo à fixação de população.
Os recentes fenómenos climatéricos adversos deixaram a aldeia temporariamente isolada: sem electricidade, sem comunicações e com a única estrada cortada por árvores caídas. O susto não provocou danos irreparáveis, mas revelou o essencial. “Ficámos isolados, mas não ficámos sozinhos.” A entreajuda e a autossuficiência falaram mais alto. A tempestade atrasou projectos e iniciativas, mas reforçou aquilo que sempre distinguiu o Alqueidão: a capacidade de se unir nos momentos difíceis. “Alqueidão Somos Nós” não é apenas um lema. É um compromisso diário de quem faz daquela casa o verdadeiro coração da aldeia.

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