Cultura | 23-02-2026 07:00

Hugo Azenha: o percurso de um músico profissional da Gançaria que aprendeu a crescer sem atalhos

Hugo Azenha: o percurso de um músico profissional da Gançaria que aprendeu a crescer sem atalhos
Hugo Azenha é professor e clarinetista - foto O MIRANTE

Entre a tradição filarmónica e os grandes palcos, o percurso de Hugo Azenha na música tem sido consistente e sem queimar etapas. Natural da Gançaria, concelho de Santarém, Hugo Azenha é clarinetista profissional, professor e solista, e uma referência respeitada entre os seus pares.

A música entrou cedo na vida de Hugo Azenha. Filho de dois músicos fundadores da Banda Filarmónica da Gançaria, cresceu num ambiente onde os ensaios, os concertos e a vida associativa faziam parte do quotidiano. O irmão mais velho seguiu também o caminho musical, tornando-se saxofonista profissional na Orquestra Ligeira do Exército, e hoje já existe uma nova geração da família a iniciar-se na banda. Hugo Azenha ingressou na Banda em 1998, tinha perto de uma dezena de anos. A primeira experiência foi no trompete, instrumento tocado pelo pai, mas rapidamente percebeu que não se sentia confortável. Foi aí que escolheu o clarinete, mais concretamente a requinta, instrumento que a banda necessitava e que a mãe tocava. A escolha acabou por definir toda a sua vida.
Os seus pais tiveram sempre a noção de que o talento precisava de ser acompanhado pelos estudos. Hugo Azenha iniciou a formação musical com aulas de piano e, mais tarde, ingressou no ensino especializado, passando pelos conservatórios das Caldas da Rainha e de Alcobaça, onde concluiu o percurso até ao 12.º ano. Um nome foi determinante nesta fase: o clarinetista Jorge Camacho, seu professor durante vários anos, que lhe mostrou que a música podia ser mais do que um passatempo, afirma nesta entrevista a O MIRANTE. Foi também ele quem ajudou a família a perceber que seguir o ensino superior em música era uma possibilidade real. O percurso, no entanto, não foi fácil. Fez todo o ensino regular em paralelo com o conservatório, num modelo que exigia grande disciplina, resistência e capacidade de gestão do tempo.

Ensino superior e maturidade
A entrada na Academia Nacional Superior de Orquestra, integrada na Orquestra Metropolitana de Lisboa, marcou uma nova etapa. Durante quatro anos, viveu a intensidade do ensino superior artístico, onde a comparação com outros músicos, a pressão e a exigência são constantes. Apesar de ser reconhecido pelos colegas, os resultados mais visíveis demoraram a surgir. Não ganhou grandes concursos nem foi imediatamente escolhido como primeira opção para orquestras. A verdadeira viragem aconteceu depois do curso, com o amadurecimento pessoal e artístico. Hoje, sente-se plenamente confortável com a sua identidade musical e com o nível que alcançou, sem a necessidade de validação externa.
Paralelamente à actividade como músico, Hugo Azenha desenvolveu uma carreira como professor. Lecciona actualmente na Escola de Música Nossa Senhora do Cabo, em Linda-a-Velha, num projecto social da Câmara Municipal de Sintra e no Conservatório de Música Jaime Chavinha, em Minde. No ensino, defende que a técnica é fundamental, mas não suficiente. O mais importante, sobretudo nas idades mais jovens, é transmitir a alegria de fazer música. Entre os erros mais comuns nos jovens músicos identifica a frustração, desmotivação e a vontade de saltar etapas. Sobre o sistema de ensino musical em Portugal é crítico: considera que o ensino superior prepara demasiados solistas e poucos professores, deixando muitos músicos altamente qualificados despreparados para a realidade profissional.

Reconhecimento, palcos e novos desafios
Ao longo da carreira, tocou em vários países, incluindo Espanha, França, Itália e Estados Unidos, destacando a experiência de seis semanas no festival Round Top, no Texas, onde trabalhou vários repertórios. É actualmente primeiro clarinete e solista da Orquestra Municipal de Sintra, um reconhecimento que vê como fruto da confiança dos seus pares e da consistência do seu trabalho. A ligação recente à marca Yamaha representa mais um passo importante, trazendo responsabilidade, apoio logístico e novas oportunidades internacionais. Em Agosto, irá estrear em clarinete a Suite Concertante de Sérgio Azevedo, num concerto a solo no Centro Cultural Olga Cadaval, um momento simbólico no seu percurso artístico.

A ligação à comunidade da Banda Carregueirense Vitória

Assumir a direcção musical de uma banda filarmónica é sempre mais do que aceitar um cargo artístico. É entrar numa comunidade, compreender a sua identidade, gerir pessoas com diferentes níveis de formação e criar condições para que a música seja, simultaneamente, exigente e agregadora. Foi esse o desafio que Hugo Azenha aceitou ao longo de cerca de dois anos na Banda Carregueirense Vitória, no concelho da Chamusca, experiência que marcou profundamente o seu percurso pessoal e profissional. Liderou um projecto que procurou ir além do repertório e dos concertos, apostando na formação, na aproximação à comunidade e na valorização humana dos músicos.
Trabalhar com uma banda maioritariamente amadora implica sensibilidade, capacidade de escuta e adaptação constante. “São pessoas que dão o seu tempo, a sua disponibilidade e muitas vezes a sua vida pessoal à instituição”, sublinha. Para Hugo Azenha, esse compromisso exige respeito absoluto e uma liderança assente na empatia e na clareza. Outro dos pilares do projecto foi a tentativa de reaproximação da banda à população da Carregueira. Estar presente, abrir portas, criar pontes e envolver a comunidade nas actividades da banda foi uma preocupação constante. Hugo Azenha acredita que as bandas filarmónicas só fazem sentido quando vivem em simbiose com o território onde estão inseridas. A experiência enquanto maestro trouxe também aprendizagens importantes a nível pessoal. Gerir expectativas, lidar com diferentes ritmos de evolução e conciliar exigência artística com motivação colectiva foram desafios constantes. A saída do projecto, embora difícil, é descrita como uma “decisão adulta”. Com o aumento da carga profissional noutras áreas, sentiu que não conseguiria continuar a dedicar à banda a mesma energia, disponibilidade e qualidade de trabalho que sempre exigiu de si próprio. Preferiu sair num momento positivo, preservando as relações humanas e o trabalho realizado.

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